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ISBN: 85-15-02562-0

MEKSENAS, Paulo. Pesquisa social e ao pedaggica: conceitos, mtodos
e prticas. So Paulo. Loyola, 2002

Sumrio

        Prefcio         9
        Apresentao         15

parte primeira

        captulo 1. A pedagogia como cincia         19
        1 . 1 A pesquisa na formao do pedagogo         22
        1.2 A indissocivel relao pesquisa e ensino         25
        captulo 2. Pesquisar  produzir conhecimento         31
        2.1 Plato disse         31
        2.2 John Locke discordou         34
        2.3 Immanuel Kant rebateu         36
        2.4 Karl Marx revolucionou         38
        captulo 3. Contextos de cincia e pesquisa         43
        3.1 A quem serve a cincia?         44
        3.2 Cincia, pesquisa e globalizao         52
        3.3 Cincia, profsso e tica         56
captulo 4.        Cincia, religio e senso comum ...61
        4.1 A religio expressando o mundo...62
        4.2 O conhecimento de senso comum ..63

        captulo 5. Consideraes a respeito do mtodo         ....        73
        5,1 O positivismo         ...        76
        5.2 O marxismo ...84

        5.3 A fenomenologia         ...89
5.4 O estruturalismo ...95
5.5 Sobre a escolha do mtodo ...101

parte segunda

captulo 6.        Mtodos em pesquisa emprica ...109
        6.1 Estudo de comunidade ...112

        6.2 Etnografia         114

6.3 Estudo de caso ...118

        6.3. 1 A diversidade das fontes de pesquisa ...121
6.4 Histria devida...124


6.5 Depoimento ....129

6.6 Inquete ...133

Captulo 7

Exerccios e vivncias ...139
7.1 Praticando a observao participante ..140
7.2. Praticando a coleta de depoimentos ....142
7.3 Praticando a coleta de documentos ...144
7.4 Organizando e problematizando ...145

captulo 8. A elaborao do projeto de pesquisa ...149

Concluso ...161

Bibliografia citada ... 163

Captulo 1

A pedagogia como cincia

        a educao aparece, junto com o trabalho, como atividade fundamental e inerente  histria das formaes sociais. O ser humano desenvolve-se por meio
de interaes, isto , age com ou contra seus semelhantes e busca a transformao da
natureza, para garantir sua sobrevivncia individual c de grupo.
        Transformar e transformar-se tornam a humanidade livre ante as foras da natureza. Sujeitos de suas aes no mundo, os
homens passam a produzir o que designamos
como civilizado. Civilizar, para os gregos da antiguidade era sinnimo da prtica do encarto: cortar o vegetal que produzia frutos, acrescentando a seu caule um
antro, mais jovem e de outra dualidade. Assim, sobre a base do vegetal velho se desenvolve centro que produz frutos novos.
Civilizar no contexto social, significa
a possibilidade dele produzir a histria com Si tuaes inditas que partem de
outras, mais antigas - os sujeitos da ao que, pela experincia
cem o passado (velho), enxertam a si mesmos ao projetar o futuro pwo).
        No processo de civilizao, a educao sclupenfia papel central. Transformando a
natureza pelo trabalho, o ser humano


pesquisa social e ao pedaggica

tambm desenvolveu idias, valores e crenas sobre sua interao com os outros e com o mundo. As pessoas, portanto, refletem e representam por meio de smbolos o
mundo em que vivem. Esse aspecto, contido no ato de civilizar, faz com que o ser humano se preocupe
em transmitir suas experincias cotidianas e acumuladas ao longo
da histria para seus descendentes: a educao caracteriza-se, inicialmente, como um conjunto de atitudes de reproduo e transformao dos atos de civilizar.
        A pedagogia  a cincia que procura compreender a educao com nfase na instituio escolar: o modo e o lugar em que a educao assume caractersticas prprias
no mundo contemporneo. Neste ponto estamos diante de um debate, pois, como afirma Mazzotti,

a educao escolar - o modo mais sistemtico da ao educativa em nossa sociedade-apresenta-se como objeto de investigao para as cincias do homem. Assim, a antropologia, 
a histria, a sociologia [entre outras] procuram investigar as relaes sociais que so tecidas no processo de escolarizao e por ele. Como um cristal, a educao 
escolar reflete as luzes das diversas cincias que procuram apreend-la. Cada uma das cincias procura encontrar na escolarizao as caractersticas que lhe so 
relevantes. (Quando estas pesquisas permitem a exposio do movimento mesmo do fazer escolar, alcana-se o desenho da tecitura da escolaridade, at onde isso  possvel, 
em cada cincia em sua historicidade (1996: 15).

        Sendo a educao um conjunto de atitudes de reproduo e transformao dos atos de civilizar,  natural (e dada a sua importncia) que vrias cincias ocupem-se 
dela. A questo capaz de gerar um grande debate : qual o lugar da pedagogia no conjunto das cincias humanas na interpretao da educao? Mesmo admitindo que a 
antropologia, a histria, a filosofia, a psicologia, a sociologia, entre outras, contribuam na compreen-

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a pedagogia corno cincia

so dos fenmenos que perpassam a educao; mesmo que os pedagogos aproveitem tais contribuies em suas prticas e reflexes, vrios autores defendem a existncia 
de especificidade do olhar da pedagogia sobre a educao. A esse respeito, Pimenta (1996) aponta a necessidade de constatar e explicitar o que chama de irredutvel
pedaggico, isto , aquilo que poderia diferenciar a pedagogia enquanto cincia em relao ao conjunto de conhecimentos que compem o quadro geral das cincias humanas.
A autora nos fornece alguns exemplos do irredutvel pedaggico:

[...] na situao escolar, o irredutvel pedaggico  o alunosto , o indivduo numa mesma situao especfica de ensino e aprendizagem. Diferente, portanto, das
demais cincias humanas que pesquisam e estudam a criana, o jovem, o adulto etc. em si. Conseqentemente, o campo da pedagogia (cincia da educao), no caso da
educao escolar,  o ato pedaggico que envolve o aluno, o_sa_ber, o prfessor, a situao institucional ete., no qual a anlise do comportamento em situao sobrepe-se
 anlise do comportamento em si, o que significa urna modificao radical da fundamentao epistemolgica e da prtica da investigao na pedagogia (1996: 45).

        Para Pimenta, mesmo que as vrias cincias humanas se ocupem - em alguma medida - da educao,  preciso notar a especificidade desta ao abordar o espao, 
o tempo e a organizao da escola. Assim, o irredutvel pedaggico referese ao modo prprio da cincia pedaggica interpretar a educao. Salienta a autora que o 
aluno, o saber, o professor e a situao institucional da escola, entre outros fatores, conferem uma diferena  pedagogia. Outras cincias humanas, quando "olham"
para o interior da escola, a vem muito mais pelos conceitos que formam os seus objetos especficos de cincia: o poder, as classes sociais, a ideologia, a epistemologia,
a cogni o, a linguagem...

        21
pesquisa social e ao pedaggica

        Vale notar, entretanto, que aluno e professor no podem ser tornados apenas como tais ou que as prticas pedaggicas pensadas apenas como prticas pedaggicas
podem ser algo problemtico na interpretao da realidade escolar. Admitindo tal questo, considero importante compreender a instituio escolar e seus agentes por 
meio de outras determinaes, alm do irredutvel pedaggico. Portanto, fao uso aqui das mais diversas cincias humanas para introduzir o leitor na relao da pesquisa 
com a instituio escolar.

1.1 A pesquisa na formao do pedagogo

        Pesquisar diz respeito  capacidade de produzir uni conhecimento adequado  compreenso de determinada realidade, fato, fenmeno ou relao social. Na educao
escolar, a pesquisa tambm assume a capacidade de criar os meios necessrios ao estabelecimento de novas interaes, mediaes e modificaes de contextos que envolvem
os sujeitos do ensino corri os sujeitos da aprendizagem.
        Na educao escolar, ter algum domnio dos principais mtodos das cincias humanas - entre elas a pedagogia -  condio para o pedagogo atuar de modo diferenciado
no exerccio de sua profisso. Na atualidade, bem mais que no passado, os desafios, as crises e os conflitos que envolvem a educao escolar apontam para a urgncia
de repensaras prticas pedaggicas-as interaes e mediaes dos professores com seus pares, com os alunos, com a comunidade escolar, com os pedagogos c com os administradores
do sistema pblico de ensino.
        Atitudes profissionais do pedagogo, que se orientam pelas posturas que adquiriu do contato introdutrio com a pesquisa, contribuem para duvidar dos extremos
com os quais a educao  definida atualmente: superestimar c subestimar a realidade

a pedagogia como cincia

escolar. Partindo do poder de Estado, da imprensa e de muitos profissionais da educao, h uln discurso capaz de elaborar uma opinio pblica que v na instituio
escolar a soluo para todos os inales da sociedade. Opinio que leva a acreditar que a violncia, o desemprego, a destruio do meio ambiente e a corrupo ,la
poltica sero eliminados pela educao escolar. Por outro lado, essa mesma opinio pblica critica a educao escolar, pois a define como um espao habitado por
pessoas de pouco valor e incapazes de realizar os primeiros propsitos indicados. Assim, a opinio pblica que, simultaneamente, superestima e subestima a educao
escolar acaba por inocentar o Estado de suas responsabilidades para com a escola pblica e inocentar os modelos e agentes econmicos, estes sim responsveis por
opes de desenvolvimento nacional com base nos processos de excluso social que, entre inmeras outras questes, danificam a escola pblica.
        Saber duvidar dos aspectos publicitrios e contidos na opinio pblica, saber olhar para a escola e perceber que sua importncia no se afirma em extremos
(a instituio que salva ou pe tudo a perder) e desenvolver um senso reflexivo, capaz de localizar as verdadeiras causas dos problemas sociais, so dimenses de
uma viso pedaggica nova que, em grande parte, depende da qualidade da formao do profissional em educao c das possibilidades de acesso em iniciao cientfica.
        Uma vez formado c inserido na educao escolar, ser pedagogo : 1) estar s voltas com o exerccio da liderana como atributo capaz de indicar a diversidade
de conhecimentos e prticas possveis, justamente quando se imagina existir um nico pensar e uma nica prtica; 2) estar s voltas com as relaes de poder que
se estabelecem no interior da instituio escolar; 3) ver-se crtico de contextos sociais e econmicos -que discursam em prol da escolarizao pblica, democrtica
e de qualidade para, em seguida, desvaloriz-la - portadores do autoritarismo contido nas decises legais ou reformas do ensino, impostas de modo unilateral pelo
pesquisa social e ao pedaggica

poder Executivo aos sujeitos da educao escolar; 4) presenciar as conseqncias sociais e educacionais resultantes dos baixos salrios core que se remuneram os 
profissionais do ensino; 5) aprender a trabalhar com a falta de infra-estrutura material e humana nas escolas de periferia urbana ou rural.
        Todos esses aspectos atingem o pedagogo, produzindo o conflito que amalgama as interaes presentes na escola e desdobra-se nos desafios inerentes ao exerccio 
de sua profisso.
        A pesquisa para a formao e a insero do pedagogo na realidade escolar pode ser um instrumento vigoroso na produo de conhecimentos que contribuam para
a descoberta de meios que levem os sujeitos da educao a lutar por uma escola e por processos de aprendizagem efetivamente de qualidade, pblicos e democrticos,
porque pensados coletivamente, porque capazes de transformar a rotina escolar, porque construdos no enfrentar o poder de Estado, porque capazes de engendrar as
lutas por uma cidadania de classe. Por outro lado, ao ressaltar o valor da pesquisa e da iniciao cientfica, deve-se proceder do mesmo modo como o fizemos com
a instituio escolar: a pesquisa e a iniciao cientfica no so atividades que salvam ou pem tudo a perder. Tais atividades so definidas a partir de suas
contradies,
como j observou Bianchetti:

Defrontamo-nos assim com unia dupla possibilidade: o descobrimento ou o encobrimento do real, manifestando-se com isso dois universos de pesquisa: aquele que se
prope a des-cobrir o real, no interior do qual se pode citar todas as formas de pesquisa que implicam militncia, engajamento, visando  transformao. Enfim, aquele
tipo de pesquisa que no v no "pesquisado" um "objeto" de pesquisa. E outro tipo que, dados os seus pressupostos, apresenta-sc como "neutra", que se prende  aparncia 
e que se presta ao ocultamento da realidade. O assumir uma ou outra postura vai depender da concepo que preside o trabalho de pesquisa (1990: 47).

a pedagogia como cincia

        Cabe ao pedagogo em formao, portanto, no ser presa fcil das concepes que ora superestimam, ora subestimam a eduea-

vo escolar; e evitar as concepes que ora superestimam, ora subestimam a pesquisa como instrumento de insero do pedagogo na realidade escolar.

1.2 A indissocivel relao pesquisa e ensino

        Existe uma distino muito comum entre o que  considerado fazer cincia e o fazer pedaggico. H uma concepo um tanto estreita, legada pelo positivismo,
segundo a qual a realidade  cognoscvel quando  fragmentada, cada parte estudada separadamente, e quando se busca recompor, pelo trabalho de anlise, a antiga
realidade sob determinaes de leis universais c consideradas cientficas. Nessa concepo, cabe ao pesquisador da educao definir as leis que estabelecem a educao
como um fato social, a melhor organizao escolar, a melhor rotina pedaggica, a inevitabilidade da avaliao, enfim, as leis pelas quais a educao funciona e deve
funcionar.
        Essa concepo positivista - abordada com mais detalhes no captulo 5 deste livro - foi e cortinua a ser nociva  educao escolar se pensamos tal educao
como um momento democr-
tico da elaborao do ensino e da pesquisa. Nociva porque
ainda  responsvel pelo estabelecimento de uma dicotomia:
alguns devem pensar a educao escolar (pesquisadores); outros devem realizar o pensado (professores e alunos) - ou seja, a concepo muito comum que busca a separao
entre o considerado "trabalho intelectual" e o "traoalho manual" em educao.
        Nessa perspectiva, caberia aos planejadores do ensino projetar o mtodo que permitiria ao professor socializar os contedos das cincias humanas e das cincias 
da natureza. Auxiliados por pesquisadores profissionais, tais planejadores fariam reformas,

25
pesquisa social e ao pedaggica

imporiam diretrizes, determinariam os conceitos cientficos de competncias profissionais, de currculo e dos temas transversais do conhecimento. Discutiriam a
necessidade de treinar melhor os professores e de incutir-lhes o desejo de ser reflexivos.
        Apesar das boas intenes dos que partilham essa concepo e atribuem  cincia o nico e exclusivo papel de salvar a humanidade das
desigualdades sociais,
 oportuno considerar os riscos desse positivismo educacional na produo da educao autoritria. Note-se: positivismo educacional porque prope reformas do ensino
para impor um mesmo e nico mtodo de educao escolar. Isso produz uima educao autoritria porque nega a existncia e a adoo de outras metas na educao e,
mais, no reconhece a existncias c a possibilidade de escolha de outros mtodos de f-ducao por parte de professores e alunos. Quando o professor e u pedagogo 
so definidos como "gerentes reflexivos" de reformas educacionais ou "seguidores fiis" do mtodo cientfico adotado por pesquisadores incrustados no Estado, mantmse
as condies de reproduo da diviso social do trabalho na sociedade burguesa. Tal questo no  nova. A nociva distino entre trabalho intelectual e trabalho
manual na educao escolar foi apontada na dcadla de 1980, pelo professor Ildeu Coelho, num momento em que a sociedade brasileira aspirava lutar contra todas as 
instncias dcc autoritarismo que minavam a liberdade de pensamcrito. Diz o professor:

E a prpria nacionalidade capitalista [...] separando radicalmente, de um lado, os que sabem, planejam e decidem, e, do outro, os que fazem, executam. A decorrncia 
"lgica" desta diviso entre trabalho intelecctual e manual, dirigentes e dirigidos, competentes e incompetentes, especialistas (tcnicos) e no-espccialistas (simples 
professores)  uma degradao, unia proletarizao cre,;cente da fora de trabalho considerada no-especializada, desqualificada. ou semiqualificada. Expropriado
de seu saber prprio, o trabalhador [professor] perde tambm o con-

a pedagogia como cincia

trole do processo de produo, portanto de sua prpria atividade, que passa a ser dirigida por outrem: temos aqui um dos aspectos da alienao do trabalho. Surge,
ento, um sistema hierrquico de autoridade em que a grande maioria  submetida ao saber da minoria (1982: 33).

        Quando lutamos por fazer pesquisa e fazer educao escolar aspirando  construo da democracia, o primeiro passo  lutar contra a hierarquizao entre trabalho
manual e intelectual, e contra o mtodo nico, a reforma nica, os procedimentos nicos, enfim, contra a pedagogia nica.  preciso seguir a direo inversa: valorizar
os espaos pblicos de debate da escola pblica j cxistentcs na sociedade; lutar por uma carreira docente regulamentada nacionalmente, que dignifique o professor;
lutar por fazer cincia e pesquisa de modo in_dissoci_vel do processo de sua socializao na educao escolar. Trata-se dc perceber, portanto, que os gestos que
inventam uma organizao escolar e os gestos que inventam uma aula no so diferentes dos gestos que inventam o fazer cincia e pesquisa. Bachelard talvez seja o
autor que mais relacionou a prtica do fazer cincia com a prtica do ensino da cincia. O epistemlogo preleciona:

Logo, toda cultura cientfica deve comear, como ser longamente explicado, por uma catarse intelectual e afetiva. Resta, ento, a tarefa mais difcil: colocar
a cultura cientfica em estado de mobilizao permanente, substituir o saber fechado e esttico por uni conhecimento aberto e dinmico, dialetizar todas as variveis
experimentais, oferecer, enfim,  razo razes para evoluir.

        Tais observaes podem, alis, ser generalizadas: so mais visveis rio crismo de cincias, mas aplicaras-se a qualquer esforo educativo. No decurso de
minha longa e variada carreira, nunca vi um educador mudar de mtodo pedaggico. O educador no teias o senso do fracasso justamente porque se acha um mestre (1996:
24).

pesquisa social e ao pedaggica

        O que chama a ateno no fragmento anterior diz respeito  postura
de Bachelard: apresentar ao pblico um texto de epistemologia - um discurso sobre a
cincia - sem desvincul-lo de questes da socializo da cincia. Em outras palavras,  medida que ele
questiona o conhecimento cientfico cristalizado em um
nico itodo, aponta as prticas cristalizadas de professores tambm apegados a um nico mtodo. O cientista incapaz de pensar "para fora de seu mtodo"  semelhante
ao educador que mantm sua didtica inalterada por medo do fracasso. Cincia e educao podem, ento, tanto ser reprodutoras do pensamento crtico como o seu contrrio:
portadoras de verdades inquestionveis. Acrescenta ainda Bachelard:

Para que a cincia seja plenamente educadora,  preciso que seu ensino seja socialmente ativo.  um alto desprezo pela instruo o ato de instaurar, sem recproca,
a inflexvel relao pro-
fessor-aluno. A nosso ver, o princpio pedaggico fundamental
da atitude : quem  ensinado deve ensinar. Quem recebe ins
truo e no a transmite ter m esprito formado sem dinamis
mo nem autocrtica (1996: 300).

        O que Bachelard nos ensina  que todo pesquisador e todo professor podem escolher ser apenas pesquisador, apenas professor.
Uma cincia para a democracia,
no entanto, s  possvel quando todo pesquisador se reconhece como professor e, do mesmo modo todo professor se reconhece
como pesquisador. A superao do pesquisador e do professor em si (o primeiro caso), atingindo uma ao de conhecimento por si (o segundo caso), contribui para a 
superao da hierarquizao existente entre
trabalho intelectual e trabalho manual, entre dirigentes e dirigi-
dos.  necessrio lembrar, contudo, que tal superao tambm  condicionada por outros fatores alm desses aqui apontados e que sero objeto do captulo 3 deste
livro.

Para refletir

a pedagogia como cincia

() captulo 1 indicou que a pedagogia, como cincia da educao,  claborada por meio do dilogo com teorias das mais diversas cincias humanas. A dimenso prtica 
dessa cincia ocorre, sobretudo, na instituio escolar. Nesse contexto, a pesquisa em educao tambm traduz a busca da inter-relao da teoria com a prtica na 
sociedade de classes, na qual estamos inseridos. Aprofundando tais questes, o leitor  com-idado a refletir na relao contida entre os principais temas do captulo 
1 com o fragmento que se segue:

Uma transformao social real pressupe, portanto, de incio, uma modificao das estruturas de produo e da diviso social do trabalho. As lutas sociais mais importantes 
desenrolam-se no terreno econmico e poltico. Mas a ao pedaggica no , entretanto, negligcncivel. Por um lado, uma transformao social verdadeira implica
urna modificao das estruturas, das relaes e das atitudes em todos os domnios da realidade social, portanto tainbrn no domnio pedaggico. Nesse sentido, a
luta pedaggica  um aspecto da luta social global. Por outro lado, uma pedagogia social define correlativamente um projeto de homem e de sociedade c opera, assim, 
escolhas que iluminam, eles prprias, as opes sociopolticas. Nesse sentido, a luta pedaggica est em relao dialtica

com a luta sociopoltica.

L A idia de pedagogia social no , portanto, urna idia utpica e abstrata. No somente uma pedagogia antiburguesa s pode ser unia pedagogia social, mas ainda
existem, no seio da realidade pedaggica atual, fenmenos educativos que preparara tal pedagogia. Entretanto, numa sociedade onde reina a dominao de classe, uma
pedagogia social s pode ser um instrumento de luta. S unia sociedade sem classes poder verdadeiramente reconhecer que toda pesquisa da educao deve ordenar-se
a um projeto de sociedade. A pedagogia social  uma pedagogia socialista.

(C11ARLOT, Bernard. A mistificao pedaggica: ealidades sociais e processos ideolgicos na teoria da educao. Rio Janeiro, 2 ed., 1983, pp. 303 e 308.)


Captulo 2

Pesquisar  produzir conhecimento

        A pesquisa, objeto deste livro,  uma atvidade intencional. Como tal,  uma pratica inscrita na elaborao de planos capazes de produzir conhecimento.
Como, ento, o conhecimento se produz? A complexidade da resposta a essa pergunta conduziu c aind conduz vrios pensadores na elaborao de reflexes. Abordaremos
algumas definies dadas por Plato, Lockc, Kant cNIarx. A inteno  apenas apresentar, sinteticamente, diferentes concepes acerca do processo de elaborao do
conhecimento. Mo pretendemos, portanto, discutir a epistemologia de cada um dos autores citados, mas to-somente indicar ao leitor a diversidade ele perspectivas 
em relao n dcfinioo do conhecimento.

2.1 Plato disse

Aquele cujo esprito est ocupado cum o conhecimento no tem tempo para entreter-se ccnn as aC)es dos lromcn, nem pura pr-se, cheio de im-eja c malClucrena, a 
contender ccnn eles.

31
pesquisa social e ao pedaggica

Como traz o olhar constantemente posto erra coisas fixas e imutveis, que no fazem dano nem o recebem uma das outras, mas obedecem em tudo a uma ordem racional, 
ele os n_ita e a esse modelo se conforma na medida do possvel [ ...] E assim, convivendo como divino e ordenado, o filsofo se faz to ordenado e divino quanto 
o pode comportar a natureza humana (1996: 143).

        Plato, que viveu na Grcia entre 427-347 a.C., definiu o
conhecimento corno algo superior ao ser humano e que faz par
te de seu esprito. Assim definido, o conhecimento no se cons
tituiria a partir domando material, da natureza ou das relaes
histricas entre as pessoas. Ao contrrio, para Plato, o conheci
mento no pode ser elaborado, Porq  ~ est _constit~o_jno
esprito. Todos os indivduos nascem portadores do conheci
mento ernsuas almas -  inato. Por outro lado, nem todos as
piram ao conhecimento e o atingem, pois no querem desape
gar-se do mundo material c das sensaes para atingir a essncia
espiritual que lhes  prpria. Para atingir.o conhecimento  ne
cessrio, portanto, descolar-se da natureza e da histria e voltar
se para a contemplao do mundo espiritual.
        Por exemplo, ao desejar possuir o conhecimento e a verdade sobre o significado da justia, um estudioso deve deixar de lado a justia praticada na sociedade. 
A justia como o conjunto de prticas dos magistrados  imperfeita; a justia enquanto fatos que ocorrem cotidianamente nos tribunais  cheia de erros e imperfeies. 
Deve o estudioso, portanto, conhecer a justia enquanto conceito. A justia no plano das idias  perfeita e diferente daquela presente na histria. O estudioso 
que adota o conceito ideal de justia em suas aes ser mais verdadeiro que aquele que se pauta pelas corrupes do mundo sensvel. Corra esse exemplo, vemos que 
o conhecimento  verdadeiro quando definido idealmente pari orientar as concepes prticas.

pesquisar  produzir conhecimento

        O mundo sensvel aquele que conhecemos olhando, tocando, cheirando, ouvindo e saboreando  o que constitui a natureza, formada por objetos, fatos e fenmenos 
exteriores ao indivduo, pois situam-se fora de sua conscincia. A experincia do indivduo com o mundo sensvel permite elaborar idias c concepes s quais Plato
atribuiu o termo doxa, ou opinio. Pela opinio conhecemos o mundo, porm superficialmente. Por que Plato desvaloriza o conhecimento que denominou doxa? Simplesmente
porque admitia que o mundo sensvel, por transformar-se, seria imperfeito. Conclui, ento, que todo o conhecimento decorrente da experincia do indivduo com o mundo
sensvel , necessariamente, provisrio e imperfeito.
        Os objetos, fatos e fenmenos naturais transformam-se, isto , no so eternos, perenes. Tudo aquilo que existe fora da conscincia humana est sujeito a
modificar-se, morrer ou corromperse. Apenas o mundo das idias (episteme)  perfeito por, justamente, no se transformar e no morrer. O mundo das idias  perfeito 
porque eterno. Ao contrrio da justia praticada pelos homens, que cada dia vincula-se aos mais variados interesses, a justia como conceito filosfico aparece acima 
de qualquer disputa mundana. Tais concepes levaram Plato a defender que o melhor Estado para o cidado seria aquele governado pelos filsofos. Estes, mais prximos 
da episteme e distantes da doxa, teriam suas aes inspiradas naquilo que  verdadeiro. Uma concepo aristocrtica do conhecimento e da poltica.
        Plato no se referiu  palavra pesquisa, nem poderia faz
lo, urna vez que o termo nem sequer fazia parte d lisu-grega
da poca em que viveu. Mas, ao dotarmos sua definio do
conhecimento, argumentamos: a prtica da pesquisa na tradio
do idealismo platnico - valorizao do mundo das idias em
detrimento do mundo sensvel - conduz  investigao e ao
conheci mento da interioridade humana desvinculada da vida,
valoriza a contemplao dos limites e das possibilidades pre
sentes na conscincia, sem considerar a sua historicidade.

33
pesquisa social e ao pedaggica

2.2 John Locke discordou

Todo homem tem conscincia de que pensa, e de que quando est pensando sua mente se ocupa de idias. Por conseguinte,  indubitvel que as mentes humanas tm vrias 
idias, expressas, entre outras, pelos termos brancura, dureza, doura, pensamento, movimento, homem, elefante, exrcito, embriaguez. Disso decorre a primeira questo 
a ser investigada: como elas [as idias - o conhecimento] so apreendidas?

Primeiro, nossos sentidos, acostumados com os objetos sensveis, levam para a mente vrias e distintas percepes das coisas, segundo os vrios meios pelos quais 
aqueles objetos os impressionaram. Recebemos, assim, as idias de amarelo, branco, quente, frio, mole, duro, amargo, doce e todas as idias que denominamos qualidades 
sensveis. Quando digo que os sentidos levam para a mente, entendo com isso que eles retiram dos objetos externos para a mente o que lhes produziu estas percepes 
(1973: 166).

        Locke, que viveu na Inglaterra entre 1632 e 1704, admitiu que o conhecimento no  algo imutvel, fixo c perfeito que existe no interior da alma, como defendia 
Plato. Ao contrrio, para Locke, o conhecimento  exterior ao ser humano, construdo a partir da formao de idias que ocorrem em nosso contato dirio com os objetos, 
com a natureza c com as relaes sociais.
        O uso dos sentidos (audio, viso, clfato, tato e paladar) permite ao ser humano acessar o mundo exterior, constituindo a base da sensao, por meio da 
qual o homem pode desenvolver experincias com aquilo que o cerca. Tais experincias do origem ao que denominou idias sensorias simples:  o contato com o mundo 
sensvel que estimula o crebro a elaborar conceitos. Por exemplo,  a manipulao com diferentes objetos que permite ao indivduo obter o conceito de forma: grande, 
pequno, alto, baixo, longo, curto, largo, estreito... No momento errr que o indivduo repete

pesquisar  produzir conhecimento

vrias experincias com a manipulao de objetos, as idias sensorias simples fixam-se no crebro e permitem o aparecimento da

rnemra. Por meio da memria nascem as idias sensoriais complexas: do conceito de forma  possvel chegar ao conceito de geometria, por exemplo. Aquilo que era 
pensado como grande, alto, longo c largo , a partir das idias sensoriais complexas, definido

como linha, altura, superfcie, profundidade... Nesse momnnto, o indivduo pode realizar as experincias do pensamento que o

permitem distanciar-se do mundo sensvel para compreenA-lo melhor, de modo aprofundado. Locke defende a existncia de um conhecimento que ultrapassa a experincia 
imediata (idias

sensoriais complexas), porm, e na origem, todo conhecimento advm da experincia imediata (idias sensoriais simples).
        Em sntese, o conhecimento torna-se possvel apenas pela experincia sensvel do ser no mundo. Tal definio foi a base para

o desenvolvimento do empirismo. A pesquisa emprica vahriza, portanto, a elaborao das idias sensoriais complexas a partir da observao, da descrio e da catalogao 
dos fenmenos; a per-

cepo da relao entre os fatos; a sua anlise e, por lti-no, a busca do estabelecimento de leis (idias que podem ser generalizadas). Tal  o mtodo de conhecimento 
que caracterizou a c~ncia moderna, cujo desenvolvimento teve origem nas revolues burguesas dos sculos XVII e XVIII, na afirmao da indstria e, por conseqncia, 
no modo de produo capitalista.
A observao, a experimentao e a anlae de hipteses

so os princpios da cincia moderna. Nasce aqui uma pe g
que se limita a basear-se na quantidade (o acmulo de informa
es gera conhecimento), na produtividade (quanto mais acumu
larcm-sc informaes, mais teis elas sero para a organizao
da vida social) e na funcionalidade (conhecimento verdaceiro 
o que serve para alguma coisa prtica/til). Um conhecimento
questionvel, pois considera vlido todo mtodo que possa en
gendrar os ganhos do capital.

35
pesquisa social e ao pedaggica

2.3 Immanuel Kant rebateu

No resta dvida de que todo o nosso conhecimento comea pela experincia; efetivamente, que outra coisa poderia despertar e pr em ao a nossa capacidade de conhecer 
seno os objetos que afetam os sentidos e que, por um lado, originam por si mesmos as representaes e, por outro lado, pem em movimento a nossa faculdade intelectual 
e levam-na a compar-las, liglas ou separ-las, transformando assim a matria bruta das impresses sensveis num conhecimento que se denomina experincia? Assim, 
na ordem do tempo, nenhum conhecimento precede em ns  experincia e  com esta que todo o conhecimento tem seu incio.

        Se, porm, todo o conhecimento se inicia com a experincia, isso no prova que todo ele derive da experincia [...] h um conhecimento independente da experincia 
e de todas as impresses dos sentidos. Denomina-se a priori esse conhecimento e distingue-se do emprico, cuja origem  a posteriori, ou seja, na experincia (1994: 
36). . Kant fez a crtica do idealismo clssico e do empirismo, simultaneamente. Afirmou que o conhecimento no  inato nem decorre apenas da experincia. Como esse 
pensador alemo, que viveu entre 1724 e 1804, definiu o conhecimento? Kant distinguia a matria do conhecimento da forma do conhecimento. A pri-

meira advm de nossa experincia no mundo dos fenmenos, dos objetos c das pessoas. Isto , a realidade emprica fornece contedos ao conhecimento (a matria) pela 
disposio de objetos, fatos e fenmenos a serem apreendidos por nossos sentidos. O mundo sensvel apresenta, assim, contedos para o pensamento humano desenvolver-se. 
Tais contedos, que se fixam na Razo, decorrentes da manipulao do mundo sensvel, so definidos como a posteriori.

36

pesquisar  produzir conhecimento

        Por outro lado, o mundo sensvel tambm  percebido por meio de categorias inatas, independentes das sensaes, puramcnte internas  Razo e universais- 
so conceitos que estariam presentes em todos os seres humanos, indistintamente (a forma). Tais conceitos permitem o raciocnio sobre a matria do conhecimento (os 
contedos a posteriori) e, simultaneamente, permitem que possamos compreender as experincias no mundo sensvel independente deste mundo. Tais concertos, que atrilnicm 
uma forma ao conhecimento, denominam-se a priori.

        Em sntese, precisamos da experincia no mundo para obter conhecimento, porm o modo como experimentamos esse mundo d-se por meio de uma estrutura de pensamento 
que nos  interna, independente da experincia. Por exemplo, necessitamos ver, cheirar, tocar e comer uma laranja para defini-la como tal. A experincia de uma pessoa 
ao saborear uma laranja fornece os contedos do conhecimento que essa pessoa adquire em relao  laranja. Por outro lado, a pessoa de nosso exemplo ir experimentar 
uma laranja dentro de formas cognitivas como temo e espao, incio e fim, antes e depois. As crianas nem se do conta, mas saboreiam laranjas classificando-asem 
"verdes", "no ponto" ou "maduras demais", o que, em outros termos, significa pensar uma laranja no tempo: passado (antes: "verdes"l, presente (atualidade: "no ponto"), 
futuro (depois: "maduras demais"). A noo de temo, segundo Kant, no surge com a experincia e, ao mesmo tempo,  parte da estrutura cognitiva e inata do ser humano. 


A categoria de tempo, assim como a de espao, "enquandram" o mundo sensvel numa forma de pensar.

        Alm das categorias de espao e tempo, que integram o que Kant denomina sensibilidade, encontramos na obra desse filsofo as categorias que formam o entendimento
humano, agrupadas por quatro determinaes: quantidade (unidade, pluralidade, totalidade); qualidade (negao, limitao, realidade); relao (substncia, causalidade,
efeito); modalidade (possibilidade, existncia,
38

pesquisa social e ao pedaggica

necessidade). Todos esses conceitos so independentes da experincia do indivduo com o mundo sensvel, porque nenhum deles representa propriedades ou caractersticas 
de qualquer objeto, fato ou fenmeno observado. No so conceitos que fazeis parte dos objetos presentes no mundo sensvel; antes, so conceitos que permitem pensar 
tais objetos. Categorias como negao, causa, possibilidade, entre outras, no podem ser vistas, tocadas, saboreadas... So formas a priori, que permitem pensar 
o mundo.
        No contexto kantiano, as categorias da Razo no estariam, portanto, relacionadas  experincia. Ao contrrio, determinais como pensar a experincia. A cincia 
seria, ento, possvel  medida que  capaz de organizar e refletir sobre a experincia. Assim, Kant duvida do conhecimento que  apenas emprico (a posteriori). 
Partindo desse autor e alm dele, vale um exemplo: no basta observar, descrever c catalogar o que ocorre no interior de uma escola para produzir um conhecimento 
sobre essa instituio. O fundamental  observar, descrever e catalogar a partir de conceitos como gnero, classes sociais, ideologia, currculo etc., que so visveis 
no empiricamente, mas cognitivamente.

2.4 Karl Marx revolucionou

A produo de idias, de representaes e da conscincia est em primeiro lugar direta e intimamente ligada  atividade material e ao comrcio material dos homens; 
 a linguagem da vida real [... ] . So os homens que produzem as suas representaes, as suas idias ete., mas os homens reais, atuantes e tais como foram condicionados 
por determinado desenvolvimento das suas foras produtivas c do modo de relaes que lhe corresponde, incluindo at as formas mais amplas que estas possam tomar 
[...] sero antes os homens que, desenvolvendo a sua produo

pesquisar  produzir conhecimento

material e as suas relaes materiais, transformam, com esta realidade que lhes  prpria, o seu pensamento e os produtos desse pensamento. No  a conscincia que
determina a vida, mas sim a vida que determina a conscincia (1976: 25).

        Tais concepes, que possuem implicaes na definio do
conhecimento, mostram que no  possvel compreender o ser
humano desvinculado da histria. Fica patente que os fatos hu
manos e a conscincia deles  cem das relaes que estabelece
mos com a natureza e da luta pela sobrevivncia. As relaes so
ciais so, portanto, relaes de trabalho e deram origem s pri
meiras instituies: a famlia, o pastoreio e a agricultura, a troca
e o comrcio, a religio e o Estado.
        A definio de conhecimento presente na obra de Marx leva
nos a questionar tanto Plato como Locke e Kant. Esses filsofos
predecessores discutiram a Razo em si ou a experincia em si;
no se ocuparam cora o fato de que a Razo e tambm a experin
cia possuem uma histria. Para Marx, o ser humano transforma a
Natureza e, ao transform-la, a torna social - deixa a sua marca
pessoal nos objetos que produz -; simultaneamente, transfor
ina-se enquanto ser humano, aperfeioa sua subjetividade (da
dual faz parte a Razo). O fazer e o fazer-se social modifica-se de
acordo com o modo de organizao da sociedade na produo (a
economia) c nas formas da repartio dos bens socialmente elabo
rados (a poltica). Assim, determinadas relaes sociais de produ
o e sua correspondente formao poltica engendram difcren
tcs modos dos seres humanos apropriarem-se a natureza e de a
conhecerem. Quanto a este ltimo aspecto, vale considerar que
so diferentes o conhecimento que se produz na Crcia escravista
c o conhecimento produzido na Idade Mdia, por sua d stinto
do conhecimento burgus.
        Em sntese: os diversos modos dos seres humanos organizarem-se no trabalho, alm de produzir diferentes instituies

39
pesquisa social e ao pedaggica

sociais, qualificaram as diversas formas de transformar a natureza na histria: o trabalho comunitrio na tribo; o trabalho escravo na Antiguidade; a servido na 
Idade Mdia; o assalariamento sob o capitalismo. A cada modo de produo correspondem determinadas relaes entre castas, estamentos ou, recentemente, classes sociais. 
Tambm esses diversos modos de produo contm diferentes modos de conhecimento.
        A partir de Marx (1818-1883) foi possvel: 1) compreender que o conhecimento inato de Plato implicou, na verdade, desqualificar o trabalho manual na sociedade 
que se mantinha pela escravido; 2) demonstrar que o emprico e experimental (defendido por Locke) relacionou-se  necessidade da indstria capitalista de deter 
um conhecimento propcio ao aumento dos lucros e  produo de quantidades cada vez maiores de bens, com o menor custo possvel; 3) defender que um conhecimento 
cognitivo e emprico (proposto por Kant) no transforma o mundo porque no questiona a historicidade do conhecimento.
        Marx tambm afirmou que:

        "Os filsofos tm se limitado a interpretar o mundo de diferen-
        tes maneiras; trata-sc, entretanto, de transform-lo" (1973).

        O conhecimento contm propostas polticas, explcitas ou implcitas. Tal assertiva leva a pensar: Quais os objetivos de uma pesquisa? A favor e contra quem 
servem os seus resultados? Isto , o conhecimento e a pesquisa no so neutros, nem sempre esto a favor da humanidade e seus resultados podem favorecer mais a classe 
burguesa c menos as classes trabalhadoras.

Para refletir

O captulo 2 apresentou uma sntese de algumas das concepes do processo de elaborao do conhecimento. No h, portanto, uma definio nica e exclusiva. Isso
demonstra que a cincia tambm  elaborada por escolhas: qual a concepo de conhecimento que adoto ao realizar

pesquisar  produzir conhecimento

pesquisa. E mais: determinadas concepes acerca do que constitui a dimenso social das atividades humanas esto presentes nas escolhas feitas pelo pesquisador
no cotidiano de seu trabalho. O fragmento a seguir destaca a dimenso social contida na atividade huma"<<que produz a cincia. Relacione-o com os contedos j abordados.

 somente graas  riqueza objetivamente desenvolvida da essncia humana que a riqueza da sensibilidade humana subjetiva  em parte cultivada, e  era parte criada,
que o ouvido torna-se musical, que o olho percebe a beleza da forma, em resumo, que os sentidos
tornam-se capazes de prazer humano, tornam-se sentidos que se confirmam
como foras essenciais humanas. Pois no s os cinco sentidos, como tambm os chamados sentidos espirituais, os sentidos prticos (vontade, amor etc), em uma palavra,
o sentido humano, a humanidade dos sentidos, constituem-se unicamente mediante o modo de existncia de seu objeto, mediante a natureza humanizada. A formao dos
cinco sentidos  um trabalho de toda a histria universal at nossos dias. O sentido que  prisioneiro da grosseira necessidade prtica tem apenas um sentido limitado.
Para o homem que morre de fome no existe a forma humana da comida, mas apenas seu modo de existncia abstrato de comida; esta bem poderia apresentar-se na sua
forma mais grosseira, e seria impossvel dizer ento em que se distingue esta atividade para alimentar-se da atividade animal para alimentar-se. O homem necessitado,
carregado de preocupaes, no tem senso para o mais belo espetculo. O comerciante de minerais no v seno seu valor comercial, c no sua beleza ou a natureza
peculiar do mineral; no tem senso mineralgico. A objetivao da essncia humana, tanto no aspecto terico como no aspecto prtico, , pois, necessria tanto para
tornar humano o sentido do homem, como para criar o sentido humano correspondente  riqueza plena da essncia humana e natural.

A sensibilidade deve ser a base de toda a cincia. S quando a cincia parte dela na dupla figura de conscincia sensvel c de carecimento sensvel - portanto,
s quando ela parte da natureza  cincia efetiva. A histria toda  a histria da preparao e do desenvolvimento, para que o "homem" se torne objeto da conscincia.
Captulo 3

contextos de cincia e pesquisa

     A cincia moderna se faz na perspectiva de conhecer as
naturezas fsica e humana a partir de um hobjeto positivo: a obser
vao de fatos, objetos, fenmenos ou relaes.  observao
segue-se a decomposio de tais fatos, objetos, fenmenos ou
relaes em partes, cada qual analisada e compreendida separa
damente para, em seguida, num esforo de sntese, compor a
unidade que havia sido dividida. Observao, decomposio
(anlise) e recomposio (sntese) contribuem para o estabeleci
mento de leis, isto , de concluses que possam ser generalizadas
para situaes e objetos de estudo semelhantes. Uma afirmao
ou concluso que no pode ser generalizada dificilmente  vista
como cientfica. Uma afirmao ou concluso cnrTizveper
mite ciar novas relaes, novos objetos, fatos e fenmenos. Nes
se sentido  que a cincia consiste em saber fiara fazer.
        Um exemplo: economistas burgueses observaram que existem momentos em que a produo industrial tende a diminuir com aqueda do consumo. Tal fenmeno implica
a diminuio das taxas de lucro, o que induz o empresariado a investir menos na procduo industrial para proteger-se dessa queda de consumo. Com as crises mundiais
a partir da dcada de 1930, pesquisas orientadas pela cincia econmica buscaram solucionar tal
problema: o sistema econmico capitalista foi decomposto em partes
-  produo, consumo, investimento, taxas de lucro... - e cada uma delas estudada separadamente (o momento da anlise). Erm seguida, numa recomposio das partes
estudadas (o momemto da sntese), foi determinada uma lei econmica. Em 1937, a pesquisadora Joan Robinson afirmou algo como "no ser aumcentando o poder de compra
dos salrios que o consumo e a produo iro normalizar-se" (1980: 57). Como essa cientista cconnnica chegou a tal lei?
        As pesquisas de Joan Robinson indicaram que o aumento do poder de compra dos trabalhadores pelo aumento da massa de salrrios pagos a eles geraria a necessidade
de aumentar a

45
pesquisa social e ao pedaggica

emisso do papel-moeda para pag-los, o que traria a desvalorizao do dinheiro em circulao na sociedade. Concluso: os trabalhadores teriam mais "dinheiro no
bolso", mas no iriam consumir (comprar) com maior volume, pois os preos das mercadorias aumentariam. Dessas observaes surgiu outra lei econmica: o aumento de 
salrios gera inflao.
        Na dcada de 1950, outro economista, Milton Friedinam, desenvolveu um conjunto de leis econmicas que ficaram conhecidas pelo nome de monetarismo. Em sntese, 
afirmava que o caminho para a manuteno c mesmo para a elevao da atividade industrial isenta da ameaa de queda de consumo - sem a necessidade de elevar os salrios 
e sem o risco da elevao das taxas de inflao consiste num rigoroso controle do banco central (portanto, do Estado) sobre o fluxo de moeda que circula no pas 
(Silk, 1978: 75).
        As pesquisas monetaristas no so as nicas nem as melhores respostas s crises do capital. Outro autor, John Rawls (1993 ), props em suas pesquisas um 
caminho diferente. Deve-se aumentar e no reduzir os salrios, caso o objetivo seja o incremento c o equilbrio da produo econmica. Advogou, por outro lado, que
no  necessrio um crescimento do poder aquisitivo dos trabalhadores sempre na forma direta, com o aumento do valor monetrio dos salrios:  possvel obter tal
crescimento por meio de polticas redistributivas das riquezas socialmente produzidas, isto , caberia ao Estado desenvolver uma ao governamental que orientasse 
a relao Estado-sociedade no incremento da forma indireta dos salrios e por meio de campos distintos de atuao poltica.
        Segundo Rawls (1993), tais campos seriam: o ramo da-alocao, cm que caberia ao Estado manter competitivo o sistema de preos, evitando o excesso do poder 
de mercado - sua viabilizao dependeria de aes governamentais que buscassem o controle do mercado por meio de impostos ou subsdios capazes

contextos de cinc a e pesquisa

        fcgular o fluxo de oferta e procura; o ramo da estabilidade,
nr, qual se exigiriam medidas para concretizar os momentos de
phyo emprego e manter estveis os nveis de consumo, evitando

As
        crises de superproduo; o ramo da transferncia, cujo objetivo co"sistiria em alocar recursos do Estado na forma de subsdios ()u manuteno dos setores 
do bem-estar social como sade, educao e previdncia sua concretizao poderia ser vista

,Ias aes governamentais que visassem  proteo social; e o

rumo da,distribuio, o que faria, por meio de ajustes ao-direito de propriedade - como a tributao das grandes fortunas e heranas -,com que o Estado, em vez de 
coletar recursos, corrigisse a distribuio da riqueza, evitando que sua concentrao colocasse em risco a eqidade social.
        Entretanto, os aspectos da cincia econmica monetarista ainda vigoram. Hoje, mais se afirma que o aumento de salrios no eleva o consumo e apenas pe em 
perigo a estabilidade econmica - com o risco do aumento das taxas de inflao - que o seu contrrio. Nessa perspectiva do fazer cincia econmica, o maior problema 
reside na fragmentao que isola questes econmicas de questes sociais e polticas. Na verdade, a quem interessa uma
cincia econmica sem aumento de salrios ou sem poltica de redistribuio dos lucros: ao empresariado ou aos trabalhadores? No seria possvel superar a cincia
econmica positiva por outra que defendesse alternativas diferentes de superao das crises econmicas como a proposta de Rawls, por exemplo?
        O maior problema da cincia burguesa  a reduo do conhe
cimento a realizaes utilitaristas, isto , no sculo XX, fazer
         cincia, na maior parte dos casos, fica condicionado a considerar
        Cientfico apenas o que serve a objetivos prticos dos que detm
        Poder econmico:  til, na sociedade cindida pelas classes so-
ciais, tratar as crises econmicas como crises da circulao da moe1l e no as relacionar s estruturas da distribuio desigual da riqueza socialmente produzida.
pesquisa social e ao pedaggica

        Desenvolver mtodos e (contedos de outra cincia, uma cincia
de classe,  desafio parA pesquisadores e cientistas. H os

que atuam para lclarnmente ao s tatus quo da cincia tida por lucrativa. tl os que adrrnrtern; ape.nas o desejo profundo de projetar uma sociedade dife=rente do
c=apitalismo, um desejo convertido em ao poltica orientada pela utopia, ser capaz de produzir uma noO cincia, verdadciraimentio comprometida com os anseios
de toda a humanidade e no apenas com uma parcela dela. Esta ltima perspectiva do facr cincia e pesquisa ser perseguida ao
longo deste livro.
        Core as consideraes feitas at aqui,  possvel considerar: todo o rigor de mtodo para elaborar os diversos conhecimentos cientficos das natwrezas
fsica e humana no so isentos da defesa de interesses particulares da classe social que detm o controle da sociedade. Tais ainda so capazes de alimentar preconceitos
e podem, inclusive, dar origem a prticas racistas.

Quanto a essa questo, Hobsl)awm, ao estudar a histria da cincia no
final do sculo XIX, comenta sobre as origens da cinciai
antropolgica, que estuda as diferentes culturas:

O racismo tinha um papEl central em outra cincia social que
se desenvolvia rrapidamente, a antropologia, uma fuso de duas
disciplinas senssivelmente diferentes, a antropologia fsica (basi
camente derivada de interesses anatmicos e similares) e a etno
grafia, ou a descrio de vrias comunidades - geralmente
atrasadas ou prrimitivas. Ambas inevitavelmente confrontaram
e foram de fato dominadas pelo problema da diferena entre
diversos grupos humanos (como estavam calcadas no modelo
evolucionista) pelo problema da descendncia do homem, as
sin como os diferentes tipos de sociedade, dos quais o mundo
burgus parecia sem dvida o mais elevado. A antropologia
fsica automaticamente levava ao conceito de raa, j que as
diferenas entre povos brancos, amarelos, negros, mongis, cau-

cadanos (ou qual fosse a classificao empregada) eram indiscu-

contextos de cincia e pesquisa

tveis. Isso no implicava em si mesmo nenhuma crena em desigualdade racial, superioridade ou inferioridade, embora quando combinado com o estudo da evoluo do 
homem na base do fssil pr-histrico certamente a sugerisse, pois os ancestrais mais identificveis e mais remotos - principalmente o Homem de Neandcrthal - eram 
claramente mais simiescos e culturalmcntc inferiores que os seus descobridores. Logo, se algumas raas existentes poderiam ser demonstradas como estando mais prximas 
ao macaco do que outras, no iria isso provar a sua inferioridade? O argumento  frgil, mas era um apelo natural para aqueles que queriam provar a inferioridade 
racial. [...] o racismo atravessava o pensamento cientfico na transio do sculo XIX ao XX. O liberalismo no tinha nenhuma defesa lgica diante da igualdade e 
da democracia, portanto a barreira ilgica do racismo foi levantada: a prpria cincia, o trunfo do liberalismo, podia provar que os homens no so iguais" (1979: 
275).

        Diversas cincias contm teorias que justificam o preconceito em relao a negros, asiticos ou ndios, a mulheres e crianas, aos portadores de necessidades 
especiais, entre outros.
        A par disso, outras cincias contm teorias que justificam as desigualdades sociais, a pobreza num mundo de fartura, o desemprego... J nos acostumamos com 
as teorias cientficas dos economistas burgueses, que apelam para o controle da inflao por meio da reduo drstica dos salrios e dos direitos das classes trabalhadoras. 
Ainda, diversas cincias com diversas teorias criaram um inundo tecnolgico onde as pessoas

[...] se reconhecem cm suas mercadorias, encontram sua alma em seu automvel, hi-fi, casa em patamares, utenslios de cozinha [...] Em face das particularidades 
totalitrias dessa sociedade, a noo tradicional de "neutralidade" da tecnologia no mais pode ser sustentada. A tecnologia [unia das dimenses da cincia no pode, 
como tal, ser isolada do uso que lhe  dado: a socieda-

49
pesqLjisa social e ao pedaggica

de tecnolgica  ui-vi sistema de dominao que j opera no conceito e na elaborao das tcnicas (Marcuse, 1982: 18 e 29).

        A sociedade industrial (liberal e capitalista) organiza-se de forma que uma classe social controla os meios de produo e organizao do trabalho, includa 
a a tecnologia. A outra classe  desapropriada desses meios de produo, ficando na condio de mera fora de trabalho e subordinada aos desejos de quem controla 
o capital. Ora, nesse contexto histrico  difcil pensar na existncia de uma cincia com pesquisas voltadas para o "bem da humanidade". Apenas no momento em que 
cientistas e pesquisadores esto aliados aos interesses polticos das classes trabalhadoras  possvel falar na produo do conhecimento voltada para os interesses 
da maioria.  preciso, portanto, recuperar a mxima de Marx: Os filsofos tm se limitado a interpretar o mundo de diferentes maneiras; trata-se, entretanto, de 
transformalo. Por isso podemos afirmar que fazer cincia ou fazer pesquisa tambm  uma fornia de exerccio do poder a favor das classes dominadas e contra os dominantes, 
ou o contrrio.
        A questo do pesquisador enquanto trabalhador intelectual inserido na sociedade de classes e vinculado s relaes de poder  objeto de reflexo de Octvio 
lanni:

E  nesse ponto que a contribuio do intelectual [pesquisador] se revela particuhinvrente importante, essencial. Se ele [o pesquisador]  proveniente das classes
mdias, se possui conhecimentos sobre os setores-asariads da n stria c agricultura, se conviveu com humilhados e ofendidos, melhor ainda. Pode contribuir de
modo decisivo para que as foras que compem o poder organizem a sua proposta, o seu pacto, a sua viso da sociedade nacional. Colabora na formulao, [no] acabamento 
intelectual, cultural, ideolgico de problemas sociais, econmicos, polticos,

mfitares, refi          iam o
               igioNos c outros que conformam ou redonde
discurso do poder, o mando dos que mandam. [E continua lanni,

contextos de cincia e pesquisa

citando Marx] quanto mais capaz for uma classe dominante de incorporar os homens mais eminentes das classes dominadas, tanto mais slida e perigosa ser a sua dominao.

O que est em causa nessa histria  o papel que o intelectual [pesquisador] desempenhou e continua a desempenhar na construo e reconstruo do poder estatal no 
Brasil. Pode no ser fcil dizer quem inventou expresses tais como as seguintes: poder moderador, conciliao, consenso, homem cordial, histria incruenta, democracia 
racial, bondade natural do povo brasileiro, identidade nacional, segurana e desenvolvimento, ordem e progresso e outras que aparecem nos discursos do poder durante 
os imprios, as repblicas e as ditaduras. Mas no h dvida de que alguns intelectuais [pesquisadores] contriburam e contribuem decisivamente para a definio 
e o refinamento desses temas, dessas palavras mgicas (1989: 81).

        Aquilo que Ianni nos ensina diz respeito ao fato de o pesquisador estar inserido na histria; por isso, participa dos acontecimentos de sua sociedade, toma 
posies, defende causas, associa-se aos detentores do capital ou aos burocratas do Estado. Por outro lado, h os que se vinculam s lutas dos trabalhadores por 
direitos e por uma vida com dignidade, fazem pesquisas com 0 objetivo de questionar a sociedade de classes. Assim, podemos afirmar que a pesquisa no  uma atividade 
neutra, mas polte: pode estar a servio reproduo ou da transformao social na qual o pesquisador est inserido.
        Alm disso,  preciso considerar que a sociedade capitalista introduziu no sculo XX os processos de industrializao da cincia. A esse respeito Santos 
admite:

A industrializao da cincia manifestou-se tanto no nvel das aplicaes da cincia como no nvel da organizao da investigao cientfica. Quanto s aplicaes, 
as bombas de Hiroshima c Nagasaki foram um sinal trgico, a princpio visto como aci-
pesquisa social e ao pedaggica

dental e fortuito, mas hoje, perante a catstrofe ecolgica e o perigo do holocausto nuclear, cada vez mais visto como manifestao de um modo de produo da cincia 
inclinado a transformar acidentes em ocorrncias sistemticas [...] No domnio da organizao do trabalho cientfico, a industrializao da cincia produziu dois 
efeitos principais. Por outro lado, a comunidade cientfica estratificou-se, as relaes de poder entre cientistas tornaram-se mais autoritrias e desiguais e a 
imensa maioria dos cientistas foi submetida a uni processo de proletarizao no interior dos laboratrios e dos centros de pesquisa (1997: 35).

        Santos nos adverte de que a cincia, em sua maior parte,  patrocinada e gerenciada por grandes empresas, por laboratrios multinacionais. A industrializao 
do fazer pesquisa converteu pesquisadores em proletrios. Da o fato de os cientistas estarem perdendo o domnio sobre suas pesquisas: o controle de como e para 
que fins  usado o conhecimento que produzem.

3.2 Cincia, pesquisa e globalizao

        A sociedade burguesa tem como eixo de seu desenvolvimento a incessante produo do capital. Marx j demonstrou em seus estudos que o capitalismo caracterizou-se 
por separar as condies cientficas da realizao do trabalho a tecnologia daqueles que so os responsveis diretos pela produo - a classe trabalhadora. Tal distino 
possibilitou aos capitalistas o controle sobre o temo de trabalho na produo dos bens econmicos que podem ser comercializados. Assim, a jornada do proletrio divide-se 
entre o temo de trabalho que produz o equivalente a sua subsistncia e o temo de trabalho excedente, que constitui o lucro do capitalista. Quanto menor for o tempo 
de trabalho necessrio  produo dos bens que garantem a sobrevivncia dos

contextos de cincia e pesquisa

trahalhadorcs, maiores sero os lucros dos capitalistas. Nessa l
gica> o conhecimento eient fico fica reduzido  tecnologia e intro
duz, continuamente, novos mtodos de produo, automao
e administrao capazes de "encurtar" o tempo necessrio  ela
l,()raoo de um bem econmico.

        Do sculo XIX ao XXI a cincia foi o principal fator para o clcscnvolvimento da tecnologia que economiza tempo de trabalho. () desenvolvimento da cincia 
implicou maior produtividade com menor nmero de empregados assalariados, isto , maiores lucros  custa do desemprego. Modernizar os modos de produiir, robotizar 
linhas de montagens, informatizar sistemas produtivos e financeiros, dinamizar os meios de comunicao e criar um mercado global passaram a ser palavras de ordem 
no capitalismo contemporneo.  medida que a modernizao dos sistemas fabril, agrrio e financeiro dinamizam-se em ritmo crescente, vemos surgir a ampliao do 
capitalismo em ternos globais:

Pela explorao do mercado mundial, a burguesia imprime um carter cosmopolita  produo e ao consumo em todos os pases. Para desespero dos reacionrios, ela retirou 
 indstria sua base nacional. As velhas indstrias nacionais foram destrudas e continuam a s-lo diariamente. So suplantadas por novas indstrias, cuja introduo 
se torna uma questo vital para todas as naes civilizadas, indstrias que no empregam mais matrias-primas nacionais, mas sim matrias-primas vindas das regies 
mais distantes, cujos produtos se consomem no somente no prprio pas, mas em todas as partes do globo. Em lugar das antigas necessidades, satisfeitas pelos produtos 
nacionais, nascem novas necessidades que reclamam para sua satisfao os produtos das regies mais longnquas e dos climas mais diversos. Em lugar do antigo isolamento 
de regies e naes que se bastavam a si prprias, desenvolve-se um intercmbio universal, uma universal interdependncia das naes. As criaes intelectuais de 
uma nao tornam-se propriedade comum de todas (Marx, 1980: 13).
pesquisa social e ao pedaggica

        Em 1848, ainda no sculo XIX, portanto, Marx detectou a tendncia de o capital tornar-se uma realidade mundial, int(,grando diversas culturas e modos de 
produo entre si. Aglobalizao  o processo histrico pelo qual o modo de produo capitalista torna-sc mundial. A atividade que melhor traduz o desenvolvimento 
global do capital  a cincia convertida em tecnologia. O conhecimento cientfico-tecnolgico possibilitou a informatizao das indstrias e dos bancos: do torno 
mecnico ao torno mecnico eletroinforrnatizado; do caixa bancrio e do vchdedor que manejavam a mquina de calcular ao caixa e ao vendedor que manejam o microcomputador; 
dos investimentos na bolsa de valores com dinmica organizada em horas dirias  organizao em segundos; das notcias a que tnhamos acesso em minutos s notcias 
dos fatos em tempo real; das conversas telefnicas aos e-mails; das compras em locais conhecidos ao comrcio via internet. Profisses comeam a desaparecer - o alfaiate, 
o sapateiro, o soldador - enquanto novas se afirmam - iveb design, gerente de redes integradas, tecnlogo cm mecatrnica.

        A cincia apresenta-se integrada ao processo produtivo global; o reverso dessas transformaes do mundo do trabalho produzem o contexto no qual o mercado, 
com sua dinmica de oferta-procura, determina o que produzir, como faz-lo e para qu. No mundo globalizado a cincia reduz-se  tecnologia produtiva e de mercado. 
Com tal perspectiva, a cincia no produz conhecimentos segundo a lgica do que  melhor para a humanidade, irias segundo a do que  melhor para vender.
        Um exemplo: Robert Nozick, pesquisador norte-americano, discutiu as relaes Estado-mercado-sociedade referindo-se  liberdade de escolha dos cientistas. 
Esse autor admite que atitudes individuais ou institucionais que no agravam os contextos vividos pela comunidade devem ser entendidos como justa liber-
dade Nozick exemplifica com o caso do "pesquisador-mdico

que sintetiza uma nova substncia que combate eficazmente

54

ontextos de cincia e pesquisa

certa doena e se recusa a vend-la" (1991: Z00). Caso a instituio  qual o cientista est vinculado resolva pela no-divulgao da descoberta ou por seu adiamento 
com vistas a obter vantagens comerciais, estaria no uso pleno da liberdade que lhe cabe. Til atitude, segundo Noziek, no modifica o contexto j vivido pela sociedade, 
pois a enfermidade existe independentemente do pesquisador ou do laboratrio. Ao desenvolver a cura, eles teriam o direito de escolher o momento de sua divulgao, 
uma vez que a descoberta  sua propriedade legtima.
        Com esse raciocnio pode-se concluir: seria legtimo que as indstrias farmacuticas optassem pela produo de drogas paliativas no tratamento de vrias 
doenas em vez de realizar os investimentos em processos teraputicos de cura definitiva, se com isso obtivessem maiores chances no mercado. Nesse caso, a tica 
da pesquisa mdica aparece como decorrente dos interesses presentes no livre comrcio. Esse exemplo traduz o movimento capitalista que transforma a cincia em tecnologia 
produtiva e de mercado. Segundo essa lgica, os interesses do bem-estar humano so substitudos pelos interesses de mercado.
        As contradies da globalizao, que busca reduzir todas as dimenses da vida  lgica de mercado, produzem uma cincia instrumental, isto , uma cincia 
que favorece os detentores das grandes fortunas e do poder e ao mesmo tempo desfavorece os desempregados de longo prazo, os trabalhadores no-qualificados, os analfabetos, 
os excludos da escola, os trabalhadores infantis e todos os considerados "sem-habilidades":idosos, portadores de necessidades especiais, desescolarizados... A cincia 
instrumental serve de instrumento para a manuteno das desigualdades sociais por reduzir tudo a uma questo de compra e venda. Lima cicncia em que o instrumento 
do progresso de uns poucos burgueses  o da excluso da maioria da populao mundial.
        Trata-se, ento, de combater e denunciar tal cincia instrumental. Uma possibilidade  construir uma cincia antnstrumen-
pesquisa social e ao pedaggica

tal, isto , unia cincia de classe.  necessrio que os estudos e aqueles que se vinculam  cincia saibam e proponham-se a utilizar teorias ria produo de pesquisas 
que favoream os interesses das classes trabalhadoras em detrimento do mercado. Existe toda urna produo cientfica capaz de questionar a cincia instrumental.
        Pedagogos e educadores podem estar a servio de uma cincia antiinstrurnental por formao e por opo poltica. Trata-se, portanto, de perguntarmo-nos: 
a _ uem serve a cincia? Com qual cincia e com quais valores cientficos podem os pedagogos e educadores formar-se? Corno as cincias humanas podem contribuir para 
a crtica da cincia instrumental? As respostas devem ser construdas por aqueles que imaginam a possibilidade de construir unia nova sociedade. A discusso do carter 
poltico da cincia, da profisso c da tica ajuda-nos a refletir, por outro lado, sobre algumas das possibilidades postas em questo.

3.3 Cincia, profisso e tica

        Vale pensar: a cincia e a pesquisa nem sempre so definidas pelos pesquisadores como um conjunto de atividades industriais e polticas exercidas na sociedade
de classes. Muitos pesquisadores tornam-se intelectuais profissionais - fazem da pesquisa  apenas unia profisso - sem a necessria conscincia desse fato.
 comum observar vrias atividades realizadas por pesquisadores profissionais em universidades, empresas, ministrios pblicos... Tais pesquisadores, entre outros, 
so psiclogos, socilogos, bilogos, qumicos, fsicos, economistas e pedis. Todos esto credenciados a exercer unia profisso e  xercem observando uma srie de 
cdigos e normas legais, inerentes a cada uma dessas atividades. Vale destacar, entretanto, que muitos desses pesquisadores tornam-se pesquisadores profissionais 
porque bus-

conrextoos de cincia e pesquisa

curam estudo de ps-graaduao como o testrado e o doutorado. Florestan Fenandesj cobservou:
A fase verladeiramernte crucial da preparao do pesquisador deve coinidir com oo acesso aos cursos de ps-graduao. A convm etz minar, ricos dois primeiros anos, 
o complemento e o aperfeiiamento noo uso das tcnicas de investigao, e envolver o canadato numn projeto completo de pesquisas, que ele possa leva a cabo, sobb 
superviso discreta ou insistente do professor oriaitador,connforme as circunstncias (1986: 119).

        Formado para o exECrccio da profisso de pesquisador, no h nada de Brado em exKerc-la como uma profisso como outra qualquer. O Fo blema acdvm quando 
pensamos que ser pesquisador signifia apenas is.sso - o exerccio de uma profisso , sem a devida ;onscineiaia das dimenses polticas e econmicas da cincia hoc 
_ E qnanado isso ocorre,

estamos ca face do tcnico.  ele que trabalhar diretamente na formula) de progranmas governamentais e privados, bem como na executo e noconntrole da sua execuo 
(Ianni, 1989: 136).

Alm diso,
se o cienNta no quiriser converter-se cm mero instrumento de
grupos soa is poderoosos, ele precisa ver claro onde os propsitos
extracient icos leia-sse polticos e econmicos ameaam e inter
rompem anarchada a civilizao moderna (Fernandes, 1986:113).

        Portanto,ro realizar r unia pesquisa,  necessrio que seu autor tenha clareza resposta a a algumas perguntas: Por que faz pesquisa? A quem interssa o resulrltado
de sua pesquisa? A pesquisa  feita a favor de quaui? Contraa quem? Qual o compromisso do pesquisador com ser tema de  pesquisa? Quem pode ser prejudicado

pela pesquise Quem ponde ser favorecido? Como os resultados

da pesquisa Adem ser ddivulgados para o maior nmero possvel

de pessoas? A respostasis a tais indagaes so mltiplas e reve-

57
pesquisa social e ao pedaggica

Iam, alm dos contedos poltico e econmico, o contedo tico presente no ato de pesquisar. Ser tico significa posicionar-se

a respeito das noes de bem e mal, justo e injusto, do conjunto de valores que os homens admitem por tradio, por hbito ou pela adeso a um conjunto de crenas 
(Nascimento, 1984: 259).

        No contexto especfico da definio anterior, o pesquisador deve considerar que

a questo tica no se restringe ao plano da aceitao das normas socialmente estabelecidas nem se reduz ao problema da criao dos valores por uma liberdade solitria. 
Nasce na existncia concreta de cada um, da conscincia dos valores envolvidos no reconhecimento da inalienvel dignidade da pessoa e do sentido da responsabilidade 
pessoal diante do outro, cujo rosto  um apelo constante a ser respeitado e promovido (Nogueira, 1989: 16).

        Ao incorporar a tica como uma das dimenses de seu trabalho, o pesquisador deve, ainda, considerar sua historicidade. Cada formao social (Antiguidade, 
Idade Mdia, capitalismo, socialismo) estabeleceu para si os critrios daquilo que  considerado certo/errado, justo/injusto, bom/mau... Existem, portanto, vrias 
ticas. Tambm em uma mesma formao social  possvel encontrar a diversidade de ticas.

        Na origem do capitalismo, a tica dominante incorporou os preceitos de Kant ao ser definida come parte do imperativo categrico que contribui para o indivduo 
atingir a liberdade por meio da prtica do dever. Por outro lado, no devemos esquecer que a histria do marxismo produziu uma tica com outra qualidade, pois estabeleceu 
a igualdade e a liberdade como fundamentos da emancipao social, qie incorporou, entre outros aspectos, no abordados aqui, a prxis da realizao pessoal ntima, 
cotidiano - como uma realizao social- pbli-

58

contextos de cincia e pesquisa

ca, histrica. Trata-se, portanto, de recuperar a tica marxista nos horizontes do fazer-pesquisa.
        A tica no ofcio do pesquisador pode desdobrar-se na direo do respeito a conhecimentos que no sejam exclusivos do universo das vrias cincias. A religio, 
de um lado, e o senso comum, de outro, so exemplos de modos diferentes de conhecer o mundo, alm da perspectiva cientfica.

Para refletir

O captulo 3 destaca que toda atividade cientfica  uma atividade de classe, isto , a cincia no est acima dos interesses dos organizadores do sistema econmico 
e poltico, nem dos grupos sociais subjugados por tais organizadores. No capitalismo globalizado,  significativo perceber as lutas realizadas contra ou a favor 
da educao escolar transformadora. A partir do fragmento a seguir, reflita sobre o significado da cincia da educao num mundo globalizado:

A partir da ressignificao global do educacional, o princpio educativo da direita neoliberal e neoconservadora dirige-se  reformulao de outros conceitos c categorias 
centrais do discurso progressista e, at mesmo, do glossrio liberal clssico. Em muito casos, ir faz-lo substituindo esses conceitos por novos termos, em geral 
retirados do vocabulrio econmico neoliberal. Em outros, eliminando-os simplesmente da linguagem socialmente disponvel. Deste modo, as noes de igualdade e igualdade 
de oportunidades - no incio associadas ao imaginrio democrtico-liberal e, depois, convertidas em palavras de ordem durante o itinerrio das lutas para a democratizao 
das instituies sociais c polticas - so deslocadas paulatinamente pela noo de eqidade, mais vinculada  idia de acordo entre desiguais. Alm disso, as noes 
econmicas e tecnocrtieas de eficcia, produtividade, eficincia e xito tomam o lugar de outras, mais polticas, como a de participao democrtica na tomada de 
decises educacionais, ou relacionadas com problemticas sociais, como a de expanso quantitativa da matrcula escolar. Esta transformao no s tende a tornar 
cada vez mais econmico

59
pesquisa social e ao pedaggica

e menos poltico o discurso educacional como tambm leva a traduzir valores prprios da tica pblica e cvica na clave da tica do livre mercado e do consumo: a 
solidariedade c a cooperao cedem lugar assim  competio e ao mrito individual como metas educacionais finais; ou, de qualquer forma, so reconsideradas meramente 
como estratgias metodolgicas para obter maior rendimento e produtividade.
Na realidade, toda esta transmutao [de palavras e conceitos que fazem parte dos discursos do Banco Mundial, FX-ZI e OMC nas suas "recomendaes" ao papel da educao
escolar] est direcionada para consolidar unia mudana de sentido que envolve a funo do L aparato escolar corri respeito  formao de reproduo dos sujeitos

s1 1 Trata        1         1
oe a s. -se de conduz*r os esforos formativos da escola em direo  constituio de consumidores-mais-que-per feitos redefinindo sua antiga intencionalidade e
tendncia a formar cidados.
lu        -
(SI?REZ, Daniel. O princpio educativo da nova direita: neoliberalismo, tica e escola pblica, in GENTILI, Pablo (org.). Pedagogia da excluso: crtica ao neoliberalismo
em educao. Petrpolis: Vozes, 1995, p. 261.)

Captulo 4

Cincia, religio e senso comum

        No mundo globalizado em que a cincia converte-se, quase que exclusivamente, em tcnicas de poder, em que a tecnologia parece ditar modos de viver e, por 
fim, em que a racionalidade desencantou o mundo, seria de estranhar o continuado desenvolvimento de diversas expresses sociais religiosas. Tal fato indica que o 
pensamento cientfico pode dominar a vida contempornea, mas  incapaz de extinguir outras formas de perceber o mundo, igualmente importantes, como a religio.
        No s a cincia e a religio formam um par conceitual e de prticas sociais a ser discutido em relao ao entendimento do lugar da pesquisa hoje. Tambm, 
consideremos que as expresses de conhecimento e agir cotidianos - o senso comum cxplicm o mundo em perspectiva prpria. Assim como no seria possvel conceber 
a realizao de cirurgias por um mdico de renome que se orientasse apenas pelo senso comum, seria inconcebvel imagin-lo cozinhando com mtodos cientficos. Isto 
, vivemos momentos distintos que exigem conhecimentos distintos. Novamente, no lugar de opor a cincia ao senso co-
pesquisa social e ao pedaggica

A religio nunca  vinculada apenas ao intelecto. Ela envolve
igualmente asle o es,ique so to essenciais na vida humana
quanto o intelecto e a capacidade de pensar. A msica, o canto
e a crena apelam para as emoes. Na maioria das religies, as
pessoas extravasam a tristeza ou a alegria pela msica instrumen
tal e pelo canto: em algumas, tambm pela dana, que  um
meio bastante antigo de expresso religiosa. Nos rituais cristos,
os hinos cantados em coro e a msica de rgo so parte impor
tante da experincia geral. Muitas igrejas e templos contm,
ainda, obras de arte - pinturas, esculturas e peas de altar -
que acendem a imaginao e as emoes (Hellern, Notaker e
Gaarder, 2000: 33).

        No faz sentido perguntar-se qual  a atividade que produz um conhecimento superior ou verdadeiro: a cincia ou a religio. Ambas produzem, no mbito da
lgica que lhes  prpria, conhecimentos que podem ser considerados
veacirs. No sendo possvel hierarquizar cincia e religio, admitimos que ambas so vlidas
como atividades que explicam e interpretam o mundo natural e o social, utilizando para isso modos
diferentes de faz-lo. Enquanto a cincia valoriza mais a objetividade
das relaes e menos a subjetividade, a religio faz o inverso. Enquanto a cincia produz urna acomodao do sujeito  sociedade pela introduo da dvida com mtodo,
a religio produz essa acomodao muito mais por meio de atitudes de aceitao e contemplao.
        Vale ainda destacar: as diferentes religies podem conter divises internas que conduzem os seus
adeptos, dentro de determinados contextos histricos, ao
fanatismo e ao sectarismo:
Por fanatismo se entende unia cega obedincia a uma idia, servida com zelo obstinado, at exercer wolneia para obrigar outros a segui-Ia e punir quem no est
disposto a abra-la [...J O fanatismo est geralmente ligado ao dogmatismo, isto ,  crena numa verdade ou num sistema de verdades que, urna

64

cincia, religio e senso comum

vez aceitas, no devem mais ser postas em discusso e rejeitam a discusso com os outros; a este corresponde no campo prtico o sectarismo, isto , a parcialidade
para com os adeptos e o dio para com os no-crentes (Bobbio et al, 1992: 464).

        A partir da possibilidade do surgimento do fanatismo e do sectarismo, conclui-se que as religies tambm aparecem como um campo frtil de disputas e interesses 
polticos, que podem conduzir  intolerncia e ao racismo e, em situaes extremas, a conflitos armados. A histria est repleta de exemplos de guerras de inspirao 
religiosa e, simultaneamente, contendo interesses polticos e econmicos. Assim,  difcil desvincular as religies e suas diversas igrejas das organizaes de poder.
        No sculo XIX, o filsofo alemo Feuerbach afirmou que os diferentes deuses so uma criao humana, mas, de gerao em gerao, os seres humanos esqueceram-se 
disso e passaram a julgar-se criaturas desses deuses. A alienao religiosa, dizia Feuerbach,  un ougo processo pelo qual a humanidade no se reconhece naquilo 
que criou. Aprofundando essas questes, Chau acrescenta: A anlise de Feuerbach foi retomada por Marx, de quem conhecemos a clebre expresso: a religio  o dio 
do povo. Com essa afirmao, Marx pretende mostrar que a religio amortece a combatividade dos oprimidos e explorados, porque lhes promete uma vida futura feliz. 
Na esperana de felicidade e justia no outro mundo, os despossudos, explorados e humilhados deixam de combater as causas de suas misrias neste mundo.

Todavia, Marx fez outra afirmao que, em geral, no  lembra
da. Disse ele que "a religio  lgica e enciclopdia popular, esp
rito de um mundo sem esprito". Que significam essas palavras?
Com elas, Marx procurou mostrar que a religio  uma forma de
conhecimento e de explicao da realidade usada pelas classes
populares ares - lgica e enciclopdia - para dar sentido s coisas,
s relaes sociais e polticas, encontrando significaes - o
pesquisa social e ao pedaggica

esprito rio mundo sem esprito - que lhes permitem, periodicamente, lutar contra os poderes tirnicos. Marx tinha na ]embrana as revoltas camponesas e populares 
durante a Reforma Protestante, bem como na Revoluo Inglesa de 1644, na Revoluo Francesa de 1789 e nos movimentos milenaristas que exprirnirani, na Idade Mdia 
e no incio dos movimentos socialistas, a luta popular contra a injustia social e poltica.

Se por um lado na religio h a face do  conformismo, h,
por outro lado, a face om`l--twdos que usam o saber religioso
contra as instituies legitimadas pelo poder teolgico-poltico
(1997: 309).

        Com as consideraes feitas at o presente momento, este

captulo destacou a _com lexidade dos conhecimentos c das prticas religiosas. Tambm indicou algumas das diferenas entre a religio e a cincia. Trata-se, agora, 
de refletir sobre outra expresso igualmente importante: o senso comum.

4.2 O conhecimento de senso comum

        U senso comum se constitui como um conhecimento portador de valores, explicaes, orientaes da ao e projees cognitivas associados s prticas dos indivduos 
na vida cotidiana. Por meio do senso comum, o ser humano compreende a si mesmo c define-se em relao ao meio social em que vive. Assim,  capaz de orientar suas 
aes e lidar com esse meio social de modo a garantir sua vida. Nesse contexto,  possvel admitir que o conhecimento de senso comum tem uma dimenso prtica e imediata, 
pois vincula-se ao fazer dirio da pessoa. Por outro lado,  importante considerar que as aes e percepes acerca da vida cotidiana de cada um, alm de sua dimenso 
imediata - utilizar um sistema de transporte, fazer compras, a vida ntima entre amigos, parentes

cincia, religio e senso comum

c famlia, a participao em cultos religiosos, o lazer etc. -, dcfi
ncm-se tambm em relao  tota_lid_ade histrica: o mercado, o
I1,stado e as polticas pblicas, o desemprego, enfim, as relaes
sociais de produo. Assim, o senso comum influencia e  in
fluenciado por dimenses que transcendem aquilo que  prtico
c imediato.
        Por suas caractersticas de espontaneidade e cotidianidade, o senso comum foi visto por muitos pensadores como um conhecimento banal, infantil, dotado de 
curiosidade e destitudo de capacidade crtica, ou como mera opinio. A esse respeito, Plato pronunciou:

Se  a curiosidade que faz o filsofo, vers que filsofos no faltam por a, e entre eles encontrars as criaturas mais estranhas. Todos os aficionados de espetculos 
se deleitam em aprender c devem, portanto, ser includos. Tambm h os amadores de msica, uma gente singularmente deslocada entre os filsofos; esses, por sua vontade, 
nunca viriam assistir a discusses como as nossas, mas, como se tivessem alugado as suas orelhas, correm de um lado para outro a fim de ouvir todos os coros das 
festas dionisacas, sem perder nenhum, seja na cidade ou no campo. Acaso devemos chamar filsofos aos que tm tais gostos e outros do mesmo jaez, bem como aos aprendizes 
das artes mais mesquinhas? (1996: 123)

        Vimos no captulo 2 que Plato distinguia os conceitos por ele denominados episteme (conhecimento puro, filosofia) e doxa (mera opinio"discusses destitudas 
de atributos). Mesmo sem utilizar o termo senso comum - no existente na lngua grega clssica -,esse filsofo deu indicaes precisas de que o conhecimento do dia-a-dia 
no tinha valor para a filosofia, pois o "senso comum" era atributo de "gente singularmente deslada", pessoas que agem "como se tivessem alugado as suas orelhas, 
correm de um lado para outro a fim de ouvir todos os coros das festas dionisacas", isto , pessoas que no possuam capacidade de

67
pesquisa social e ao pedaggica

defender uma idia criticamente, mudando de argumentos como se muda de roupas. Igualmente, sculos depois, Auguste Comte (1815-1857), considerado o precursor da 
filosofia e da sociologia positivistas, procuraria desqualificar o conhecimento de senso comum:

Cr-se muitas vezes que os ferlmcrlos sociais devem ser muito fceis de observar, porque so muito comuns, alm de que o prprio observador, quase sempre, deles 
participa mais ou menos. Mas so precisamente esta vulgaridade e esta personalidade que devem necessariamente concorrer, core unia complicao superior, a tornar 
mais difcil esta espcie de observao, afastando diretamente o observador das disposies intelectuais convenientes a uma explorao verdadeiramente cientfica 
(1978: 88).

        Comte admitia que a observao cientfica dos fenmenos sociais requereria uma formao intelectual superior quela presente nas pessoas comuns. Nesse caso, 
era necessrio superar a "vulgaridade e esta personalidade que [...] afastam o observador das disposies intelectuais convenientes a uma explorao verdadeiramente 
cientfica".
        O que esses dois pensadores no perceberam  a historicidade
do senso comum, que se altera no temo e de acordo co  rar
quizao produzida pela diviso social do trabalho. Por exemplo:
o conhecimento mnimo e necessrio para um habitante da cidade
industrial difere do conhecimento cotidiano que era necessrio a
urn campons da Idade Mdia. Ou, mais prximo a ns, a tendn
cia de escolas de classes mdias desenvolverem o ensino a respeito
da informtica s ganha sentido na medida em que o uso do
computador se generaliza na vida cotidiana dessas classes.
        Outro exemplo recentemente era comum as pessoas pobres possurem o conhecimento dos processos de cura de vrias doenas por meio de# medicamentos caseiros. 
Era um conhecimento que passava de gerao a gerao pela tradio oral. Hoje, esse

68

cincia, religio e senso comum

saber est desaparecendo, ao menos nas grandes cidades, onde as pessoas vo cada vez mais s farmcias em busca dos produtos oferecidos pelo mercado.

        Transformaes nas relaes sociais de produo alteram o cotidiano c, conseqentemente, o senso comum. Em alguns rnomcntos, tais alteraes so to intensas 
e rpidas que no s os mais velhos, mas tambm os mais jovens precisam aprender novos aspectos do conhecimento de senso comum para poderem se adequar  vida cotidiana. 
Tal questo denota que o senso comum no  fragmentado, mas um conhecimento que circula e envolve a todos de uma sociedade. Nesse aspecto, o acesso a esse saber 
no ocorre apenas na experincia particular do indivduo, iras, sobretudo, no seu contato com o outro, implicando constantes relaes de ensinar-e-vir-a-aprender. 
Tais contatos podem ser diretos como aqueles entre pais c filhos, entre namorados, entre professores e alunos ou indiretos - corno os que ocorrem por rncio de jornais, 
internet, rdio, televiso... Nesse ltimo caso, atingem milhes de indivduos ao mesmo tempo: unificam e generalizam experincias que anteriormente eram particulares.

        Os processos sociais de generalizao do senso comum po
dem privar as classes populares d saber que deriva de suas neces
sidades e, simultaneamente, impor outro saber, decorrente das
necessidades e interesses das classes dominantes ou burguesas.
Til fenmeno aponta para as formas de manipulao do senso
comum e revelam seu carter ideolgico, que, mesmo impondo
limites, no nega a dimenso de cultura popular presente nesse
"lodo de conhecer. A esse respeito, Gramsci (1891-1937) foi o
dlrtor que defendeu o senso comum como uma viso de mundo
que ntegra a cultura popular, c esta

 estranhamente ecltica: ela contm elementos da Idade da Pedra e princpios de uma cincia mais adiantada, preconceitos de todas as fases da histria em nvel 
local e intuies de uma futura filosofia que ser a da raa humana unia mundialmente (1978: 1-14).
pesquisa social e ao pedaggica

E mais ainda:

Deve-se destruir o preconceito, muito difundido, de que a filosofia seja algo muito difcil pelo fato de ser a atividade intelec tua] prpria de uma determinada 
categoria de cientistas especializados ou de filsofos profissionais e sistemticos. Deve-se, portanto, demonstrar, preliminarmente, que todos os homens so "filsofos", 
definindo os limites e as caractersticas desta "filosofia espontnea" peculiar a "todo mundo" (1978: 11).

        Estas duas ltimas citaes vo em direo oposta quela
apontada por Plato, de um modo, e por Coorte, de outro. Isso
no significa que Gramsci, pensador italiano do sculo XX, pro
cure igualar o senso comum  filosofia (e/ou  cincia) e afirmar
que so idnticos. Quando Gramsci lota que tod -Flso o
ele usa o termo entre asas e menciona a existncia de uma filo
sofia(h ntencional, esntne:-A ssim, o autor italiano busca
defender que as diferenas entre filosofia c senso comum no
nos autorizam a desqualificar o segundo. Isto , apesar das grandes
diferenas entre o senso comum e a filosofia, ambos so conheci
mentos vlidos para os contextos aos quais se relacionam: no 
possvel cozinhar utilizando apenas atitudes cientficas e, do mes
mo modo,  impossvel sintetizar quimicamente um novo remdio
com base no senso comum. Respeitadas essas diferenas,  possvel
entender que

o senso comum  comum no porque seja banal ou lucro e exte
rior conhecimento. Mas porque  conhecimento compartilhado
entre os sujeitos da relao social. Nela [na relao social] o Signifi
cado aa precede, pois  condio de seu estabelecimento e ocorrn
cia de significado cmji] h de nao  iiltro ,Alm disso,
no h possibilidade de que os pa crparites da intrao [social]
se imponham significados, j que o significado  reciprocamente
experimentado pelos sujeitos. A significao da ao , de certo
modo, negociada por eles. Em princpio, no h um significado

70

cincia, religio e senso comum

prvio ou, melhor dizendo, no  necessrio que haja significaes prcestabclecidas para que a interao se d. Um aspecto essencial dessa formulao  o de que 
esse complicado jogo se desenrola, de fato, em linscl_s fr _cs_ de_Jtcrnh. Se nos fosse possvel

observar o procss interativo em "cmera lenta", poderamos
perceber o complexo movimento, o complicado vai-e-verii de imaginao, interpretao, rfornrulao, reinterprctao, e assim sucessivamente, que articula cada fragmentrio 
momento da relao entre uma pessoa e outra e, mesmo, entre cada pessoa e o conjunto dos annimos que constituem a base de referncia da sociabilidade moderna (Martins, 
1998: 4).

        Concluindo,  preconceito subestimar o senso cornurn e superestimar a cincia. Ambos so conhecimentos vlidos. Da no ser possvel hierarquiz-los de modo 
a colocar a cincia num patamar superior ao do senso comum. Ora, deparando-nos com duas vises de mundo que possuem o mesmo grau de importncia, o que torna a cincia 
diferente do senso comum? A resposta a essa questo complexa est relacionada ao fato de o senso comum ser espontne a cincia, urna atividade intencional O significado 
dessa importante diferena traduz-se na afirmao de que a cincia se faz com mtodo. Esse tema  abordado no prximo captulo.

Para refletir

Neste captulo percebemos que a cincia no  a nica forma de conhecimento para apreender o mundo. Tambm a religio e o senso comum integram a conscincia do ser 
humano, mesmo a de quem pesquisa. Com isso sublinhamos a complexidade da existncia humana. Procure agora refletir sobre a relao possvel entre religio e classes 
sociais:

O proletariado moderno, porm, desde que ocupa na esfera religiosa uma posio particular, com amplas camadas da burguesia moderna propriamente dita,  caracterizado 
por uma atitude indiferente ou negativa em relao  esfera do religioso. A dependncia
pesquisa social e ao pedaggica

do rendimento prprio  reprimida ou completada, neste caso, pela conscincia de depender de constelaes puramente sociais, conjunturas econmicas e relaes de 
poder garantidas pela lei. Por outro lado, est extinta toda a idia de dependncia dos processos natu-
        ruis csmico-meteorolgicos ou que possam ser interpretados como
        casdos-pela magia ou pela providncia, conforme, em seu tempo,
        j bem exps Sombart. O racional_is_m2 poletrio, bem corno o ra
        cionalismo de uma burguesia altamente capitalista e de plena posse
        do poder econmico, da qual  um fenmeno complementar, no
        pode, por isso, ter facilmente carter religioso; em todo caso, dificil
        mente pode gerar uma religiosidade.  que neste caso a religio 
        substituda, em regra, por outros sucedneos ideais. As camadas do
        proletariado, mais baixas, mais instveis, para as quais as concepes
        racionais so menos acessveis, e, ainda, as camadas proletarides
        da pequena burguesia, constantemente carentes e ameaadas de
        proletarizao, podem facilmente ser captadas por misses religiosas,
        sobretudo quando estas apresentam uni carter mgico. Certamente
        sobre esse terreno podem surgir com muito maior facilidade os ele
        mentos emocionais do que os racionais de urna tica religiosa, e em
        todo caso a religiosidade tica jamais encontra aqui seu principal
        alimento. Uma religiosidade especfica de "classe" das camadas nega
        tivamente privilegiadas s existe num sentido limitado. Temos de
        nos ocupar dele no exame da tica e do "direito natural", na medida
        em que, numa religio, o contedo de reivindicaes "poltico-so
        ciais"  fundamentado como vontade de Deus. No que se refere ao
        carter da religiosidade como tal,  facilmente compreensvel que a
        necessidade de "salvao", no sentido mais a nplo da palavra, tenha
        nas camadas negativamente privilegiadas un M posio importante.
                I
(`VLBH;R, Max. Economia e sociedade, vol. 1. Braslia: UnB, 1991, p. 332.)

72

capi+I u9o J

Consideraes a respeito do mtodo

() termo mthodos  composto por duas outras palavras gre-
gas: meta, que significa buscar, perseguir, procurar, e o ds,
 passagem, rota. No sentido figurado, a justaposio dessas
duas palavras significa a maneira de fazer ou o meio fiara fazer.

        thodos pode, ento, compreender uma pesquisa que  realizada a partir de um plano inicial e segue um conjunto de regras -a Tonais, aceitas pela comunidade
dos cientistas.

        A partir do sculo XVI, com a m_undial_izao do comrcio m. rtimo e o surgimento das primeiras manufaturas, a cincia e a  squisa obtiveram um desenvolvimento 
sem precedentes na lri: ria da humanidade. Foi o incio da modernidade, que ating: seu pice no sculo XX:

O turbilho da vida moderna tem sido alimentado por muitas fontes: grandes descobertas nas cincias fsicas, com a mudana la nossa imagem do universo e do lugar 
que ocupamos nele; a ndustrializao da produo, que transforma conhecimento icntfico em tecnologia, cria novos ambientes humanos e desi os antigos, acelera o 
prprio ritmo de vida, gera novas formas
Captulo 5

Consideraes a respeito do mtodo

        O termo mthodos  composto por duas outras palavras gregas: met, que significa buscar, perseguir, procurar,
e ods, caminho, passagem, rota. No sentido
figurado, a justaposio dessas duas palavras significa a maneira de fazer ou o meio para fazer.
-mthodos pode, ento, compreender uma pesquisa que  realizada
a partir de um plano inicial e segue uni conjunto de regras racionais, aceitas pela comunidade dos cientistas.
        A partir do sculo XVI, com a mundializao do comrcio martimo e. o surglnlcnto
das primeiras manufaturas, a cincla e ct Pesquisa obtiveram um
desenvolvimento sem precedentes na histria ela humanidade. Foi o incio da modernidade, que atingiu seu pice no sculo XX.

O turbilho da vida moderna tem sido alimentado por imiitas fontes: grandes descobertas nas cincias fsicas, co lu a nmidana da nossa imagem do rirlncrso c do
lugar que ocupamos nele: a industrializao ela produo, que transforma conhecimento

cientfico em tecnologia, cria novos ambientes humanos c des-

tri os antigos, acelera o prprio

ritmo de vida, gera noras formas
pesquisa social e ao pedaggica

de poder corporativo e de luta de classes; descomunal exploso demogrfica, que penaliza milhes de pessoas arrancadas em direo a novas vidas; rpido e muitas 
vezes catastrfico crescimento urbano; sistemas de comunicao de massa, dinmicos em seu desenvolvimento, que embrulham e amarram, no mesmo pacote, os mais variados 
indivduos e sociedades; Estados nacionais cada vez mais poderosos, burocraticamente estruturados e geridos, que lutaras com obstinao para expandir o seu poder; 
movimentos sociais de massa e de naes, desafiando seus governantes polticos ou econmicos, lutando por obter algum controle sobre suas vidas; enfim, dirigindo 
e manipulando todas as pessoas e instituies, um mercado capitalista mundial, drasticamente flutuante, em permanente expanso. No sculo XX, os processos sociais 
que do vida a esse turbilho, mantendo-o nurn perptuo estado de vir-a-ser, vm a chamarse)mdWzzao((Berrrran, 1992: 16).

        Todo esse processo de mudanas, que se acentua nos sculos XIX e XX, iniciou-se com as transformaes ocorridas nos trs sculos precedentes. Modernidade 
e sociedade capitalista passam a significar realidades muito prximas. Podemos afirmar que a modernidade faz a cincia c a pesquisa assim como estas fazem a modernidade.
        Nesse momento da histria, a cincia e a pesquisa separam-se da filosofia. At o incio do sculo XVI, a filosofia caracte
rizou-se por tomar o conhecimento como uma finalidade: a
reflexo sobre a realidade, sobre  poltica e sobre a arte eram
consideradas um mesmo objeto intelectual. Com o advento da
modernidade, o conhecimento fragmenta-se em mltiplos obje
tos e cada qual se torna uma pequen totalidade: agora temos o
qumico, o fsico, o matemtico, o gegrafo, o socilogo e o peda
gogo, entre diversos outros especialistas da atividade intelectual.
Tais aspectos histricos redefinem a questo do mtodo.  mul-

        74

consideraes a respeito do mtodo

tiplicidade da atividade cientfica correspondeu a multiplicidade do mtodo.
        Descartes (1596-1650)  um dos precursores do racionalismo: um corpo conceptual voltado quase que exclusivamente para a busca de uni mtodo capaz de, ao
compreender a natureza, garantir os meios necessrios  pesquisa. Eis alguns princpios do mtodo cartesiano:

O primeiro consistia em jamais aceitar como exata coisa alguma que eu no conhecesse  evidncia como tal, quer dizer, em evitar, cuidadosamente, a precipitao 
e a precauo, incluindo apenas nos meus juizos aquilo que se mostrasse de modo to claro e distinto  minha mente que no subsistisse razo alguma de dvida; o 
segundo consistia em dividir cada dificuldade a ser examinada
em tantas partes quanto possvel e necessrio para rcsolv-las; o terceiro, pr ordem em meus pensamentos, comeando pelos assuntos rasais simples e mais fceis 
de serem conhecidos, para atingir, paulatinamente, gradativamente, o conhecimento dos mais complexos, e supondo ainda unia ordem entre os que no se precedem normalmente 
uns aos outros; c o ltimo, fazer, para cada caso, enumeraes to exatas c revises to gerais que estivesse certo de no ter esquecido nada (Descartes, 1972: 27).

        C) ponto de partida no mtodo cartesiano consistia, portanto, em duvidar de todo o conhecimento j produzido em relao ac) fenmeno que o pesquisador investigava. 
"Jamais aceitar como exata coisa alguma que eu no conbecesse  evidncia corno tal", isto , apreender o ferirneno eras estudo por meio de conceitos racionais: 
objetivos (destitudos da possvel carga emocional do pesquisar), claros (didaticamente compreensveis) e coereri- t tcs (sem dar rnargerrr a erros lgicos).
        A construo dos conceitos  possvel a partir do exerccio da drrida metdica: como os fatos que atingimos por meio de nossa percepo (com o uso dos sentidos) 
podem conduzir-nos a en-

75
pesquisa social e ao pedaggica

ganos, apenas alcanamos o conhecimento verdadeiro se o ato da pesquisa permitir questionar - pelo uso da razo - tudo aquilo que se nos apresenta como verdade.
        Apesar de todo fenmeno investigado ser unia totalidade, no momento da pesquisa no deve ser tratado como tal. E preciso "dividir cada dificuldade a ser 
examinada em tantas partes quanto o possvel e necessrio para resolv-las", isto , proceder  decomposio de uma totalidade em unidades menores, estudar uma a 
uma e, por ltimo, "fazer, para cada caso, enumeraes to exatas e revises to gerais que estivesse certo de no ter esquecido nada", isto , recompor esses aspectos 
em estudo num todo coerente. Assim, o mtodo cartesiano consiste em pesquisar dada realidade, fato ou fenmeno a partir da Razo: aqui o real no  compreendido 
apenas empiricamente, mas pela cognio. Da essa proposta de mtodo ser denominada racionalismo ou metafsica.
        Na modernidade, a multiplicidade de mtodos tem o seu lugar. Neste livro, devido ao seu carter introdutrio, destacaremos apenas quatro mtodos para uma 
maior discusso: o Positivismo, a dialtica marxista, a fenomenologia e o estruturalismo.

5. I O positivismo

        Desenvolvido principalmente por AugusteCorute (1789-1857), Herbert Spencer (1820-1903) e Emile Durkheim (1858-1917), o positivismo constituiu-se em uni mtodo 
cujo esforo consistia em abandonar qualquer vestgio de religiosidade c emoo - a subjetividade - no trabalho com a cincia. Coorte admitia que o sculo XIX marcava 
um momento de transio na histria da humanidade: a observao racional dos fatos, sua classificao, a experirncntao e o estabelecimento de leis cientficas 
indicavam que a humanidade, cada vez mais, afastava-se do pensamento mitolgico, religioso e metafsico em direo ao "progresso".

considera5es a respeito do mtodo

Coorte explicava:

 medida que as cincias se tornaram positivas, e que, em conseqncia, fizeram progressos sempre crescentes, uma massa cada vez maior de idias cientficas penetrou 
na educao comum, ao mesmo tempo que as doutrinas religiosas perdiam pouco a pouco a sua influncia. Constituram-se escolas especiais para as cincias, nas quais, 
por assim dizer, era nula a ao da teologia c da metafsica. Enfim, mudou de tal modo o estado dos espritos a este respeito que, atualmente, o sistema de idias 
de cada indivduo, desde o cidado menos instrudo at o mais esclarecido, corresponde quase em sua totalidade s cincia positivas, e as antigas crenas ocupam 
a, comparativamente, um lugar muito pequeno, nas prprias classes em que essas crenas conservam maior fora (apud Moraes Filho, 1978: 55).

        Para Coorte, a humanidade viveu uma poca a Antiguidade - em que a explicao religiosa e mitolgica, com suas definies da natureza, ocupava o ccme da 
organizao social, econmica e poltica. Essa fase da evoluo do conhecimento foi denominada estado teolgico.
        Depois, na Idade Mdia, a filosofia desempenhou o papel outrora exercido pelos mitos. Nesse outro momento, o ser humano no recorre ao sobrenatural para 
explicar o mundo, mas ao uso da Razo, buscando categorias e argumentos destitudos de explicacs mgicas a respeito dos fenmenos naturais e sociais. Para os positivistas, 
esse segundo momento da histria representa um Cf maior da evoluo humana, pois  com a filosofia que a Razo abre novos caminhos para a organizao da vida social. 
Defrontamo-nos com o estado metafsico do conhecimento.
        Por ltimo, o sculo XIX inaugurou o perodo de ascenso da cincia sobre a filosofia: o conhecimento multiplica-se com as suas diversas especializaes 
e a humanidade pode, finalmente, usufruir a etapa superior de sua evoluo. 0 conhecimento deixa
pesquisa social e ao pedaggica

de ser abstrato para ser concreto.  claro, objetivo, sinttico. E a fase do predomnio do estado positivo.
        Para Comte, o conhecimento  positivo quando fundado na observao. Destaca, por outro lado, que a observao constituinte do fazer cientfico  aquela orientada 
por um mtodo, isto , no se trata da observao espontnea, de senso comum, que realizamos cotidianamente. Ao contrrio, o conhecimento elabora-se pela observao 
com mtodo porque tal observao  intencional, realizada de acordo com regras cientficas e preestabelecidas.
        Esse autor distingue a observao emprica da observao positiva: a primeira  entendida como unia observao vulgar, pois significa perceber os fatos em 
si, sem estabelecer vnculos entre diferentes fatos observados. Na observao emprica, os diferentes fenmenos so apenas relatados, urn independente do outro, 
como mera coleo de acontecimentos. A segunda  verdadeiramente cientfica porque  realizada com mtodo. Observar positivamente , portanto, observar com regras: 
1) selecionar o observado; 2) dcsmenibrar ou fragmentar os fatos observados; assim procedendo, estudar a parte separada do todo; 3) relacionar, comparar, medir c 
estabelecer similaridades entre as partes estudadas anteriormente: estudar o todo e, para tanto,
rffi        1
cuni ffi as partes sob uma nova organizao; 4) perceber as
repeties daquilo que ocorre em cada fato observado, detectar
a sua regularidade, os movimentos idnticos e desprezar aquilo
que  episdico no fato em questo; 5) estabelecer leis que possi
bilitem a previso de movimentos, regularidade e comportamen
tos futuros do fato estudado.
        Obtendo um conjunto de leis a respeito do fato observado,  possvel e at necessrio usar essas leis para observar outros fenmenos. Assim, o pesquisador 
volta ao estgio inicial da observao, agora enriquecida com a elaborao de leis que contribuiro para pensar seu objeto de pesquisa ainda mais cientificamente. 
Por ltimo, deve-se registrar que a observao positiva

78

consideraes a respeito do mtodo

permite a experimentao pela recriao artificial das condies 0111 que emerge o fato estudado. Isso possibilita o controle por parte do observador - do processo 
no qual determinado fato se manifesta.
        A observao positiva conduz o cientista a elaborar um conllccimento a respeito daquilo que investiga. Tal conhecimento  possvel uma vez que a natureza 
fsica e social apresenta seus fcilinenos segundo determinadas ordenaes, isto , existe unia espcie de mecnica que move os eventos fsicos e sociais; ao observar 
essa mecnica,  possvel cntend-la e, finalmente, prevcr os seus movimentos. Coro esse raciocnio, chegamos  mxima positivista: saber para prever, prever para 
poder. Quando o cientista consegue, com suas pesquisas, antecipar os movimentos dos fenmenos fsicos e sociais (saber para prever),  possvel domin-los, determinar 
as leis que os regem e, com isso, usufruir melhor o mundo em que vivemos (prever para poder). Nesse contexto,  pela cincia que a humanidade pode desenvolversc, 
 conhecendo a ordem dos fenmenos fsicos e sociais que progredimos: ordem e progresso  o lema dos positivistas.
        Uni exemplo  ilustrativo daquilo que afirmamos. No julga
incnto prximo ao positivismo, surgiram vrios estudos para a
compreenso da agressividade no ser humano. As observaes in
dicavam unia multiplicidade de atitudes agressivas: fsica: infligir
dLinos a pessoas, animais ou objetos; simblica: atingir pessoas por
meio de linguagem ofensiva, por ameaas, por atitudes extrava
uttcs, rompendo as normas de convivncia ou, simplesmente,
utilizando-se de vesturio considerado agressivo. As observaes
classificaram as diferentes formas de agresso em brandas ou ino
f cli,sivas e aquelas consideradas ameaadoras. Em 1939, os pesqui
sadores Doob, Miller c Sears estabeleceram uma nica lei para dc
fi1iir as vrias modalidades da agressividade. Afirmaram: "agresso
c qualquer seqncia de comportamentos cujo objetivo  causar
dano  pessoa a quem  dirigida" (apud Biaggio, 1980: 153).

79
pesquisa social e ao pedaggica

        Nas dcadas de 1960 e 1970, aprofundando tal observao e orientados pela lei de Boob, Miller e Sears, pesquisadores associaram  agressividade fatores genticos, 
como o da predisposio hereditria e sexual. Nesta perspectiva ulterior, Bruton c Melville afirmaram que agresso decorre da organizao de cromossomos: os homens 
normais possuem um par de cromossomos XY e as mulheres tm o par XX, sendo o Y indicador da masculinidade. Tais autores relataram uma incidncia alta da Sndrome 
XYY em deficientes mentais internados por crimes violentos. Atriburam, ento, a predisposio  agresso hedionda aos portadores do cromossomo Y extra. Concluram 
que a agressividade estaria relacionada ao sexo masculino. (Esse exemplo foi construdo a partir das informaes contidas em Biaggio, 1980.)
        No exemplo acima, a adoo da perspectiva positivista afirma-se na: 1) diviso da agressividade em vrias modalidades, catalogando-as, comparando-as e reunificando-asem 
definies originadas da observao positiva; Z) tentativa de estabelecer, a partir de vrias definies, uma lei que explique o fato em questo; 3) associao da 
agressividade  fisiologia humana, com base sexual e hereditria, isto , anlise de uni fto humano reduzindo-o a fato biolgico, para, assim, estabelecer uma nova 
e nica lei da predisposio gentica  agrcssividade.
        Os limites dessa perspectiva do fazer cincia so apontados por Biaggio (1980) ao relatar que outros pesquisadores, corno Bandura, questionaram a metodologia 
dessa pesquisa que serviu ao nosso exemplo. O principal problema apontado deveu-se  existncia de outro grupo de portadores do cromossomo Y extra que no eram agressivos. 
A existncia de pessoas no padro hereditrio agressivo sem o comportamento agressivo ps abaixo as concluses de Bruton e Melville. A nosso ver, entretanto, a questo 
principal no  aquela detectada por Bandura e outros. O maior problema das pesquisas de orientao positivista  a reduo de questes humanas e sociais a leis 
regidas por princpios

80

consideraes a respeito do mtodo

exclusivamente biolgicos. Os positivistas negligenciam aspectos da cultura, da vida social, da estrutura econmica e poltica em favor de fundamentos de carter 
biolgico, supondo as sociedades humanas como mero coro vivo. Percebemos assim que o positivismo  mais capaz de lanar as bases do preconceito de gricro ou tnico 
e menos de propor as concluses cientficas s quais tanto almeja.
        A nsia de legitimar o positivismo como cincia necessria ao desenvolvimento tecnolgico da sociedade produziu a valorizao da neutralidade como a principal 
condio do fazer cientfico. Buscou-se desse modo aproximar as cincias humanas clas naturais para atingir tal desenvolvimento. Analisando a obra de Cornte, uma 
interessante reflexo  realizada por Moraes:

[...1 do ponto de vista das relaes sociais, todas as relaes particulares se estabelecem, pouco a pouco, sobre bases industriais e a atividade da produo torna-se 
o nico e permanente objetivo.  essa idade instaurada pelo positivismo, idade "pacfica c industrial", idade em que a cincia, core a descoberta das leis naturais, 
se empenha em realizar a total submisso da natureza ao homem: saber para prever, prever para poder. Isto , segundo Comtc, o conhecimento das relaes constantes 
entre os fenmenos torna possvel determinar o seu futuro desenvolvimento. A previsibilidade cientfica permite o desenvolvimento das tcnicas, e assim o estado 
positivo corresponde  indstria, rio sentido da explorao da natureza pelo homem (1995: 117).

        Assim, e de acordo com Moraes (1995 ), os positivistas caracterizain-se por acreditar que a cincia seria capaz de organizar a vida Social, econmica e poltica 
de modo racional e visando ao bem da humanidade. A era da industrializao, somada  ao dos homens "esclarecidos" de cincia, traria o progresso e o bem comum 
dentro ela ordem. Essa viso, otimista e ingnua, definia a cincia corno mecanismo de progresso social e a histria como uma evoluo
pesquisa social e ao pedaggica

linear. Seu objetivo era a tentativa de construir uma interpretao da histria assentada no mtodo proveniente da matemtica c das cincias naturais. Tal possibilidade 
- o uso das regras do conhecimento matemtico para a compreenso da sociedade c da natureza-levaria os cientistas a prever aspectos futuros, pois a caracterstica 
dessa interpretao seria dada por uni mtodo capaz de estabelecer as leis gerais da evoluo humana e do domnio dessa evoluo sobre a natureza. Nas palavras de 
Comtc:

 pelas matemticas que a Filosofia positivista comeou a formar-se;  delas que nos vem o mtodo. Era, por conseguinte, naturalmente inevitvel que, quando a mesma 
maneira de proceder teve de se estender a cada uma das outras cincias fundamentais, esforou-se por introduzir o esprito matemtico, nurn grau mais lato do que 
o admitiam os fenmenos correspondentes (Coorte, apud Moracs Filho, 1978: 81).

        O mtodo positivista foi, portanto, um esforo de matematizar todas as demais cincias. Para Coorte, as diversas cincias biologia, qumica, fsica, sociologia, 
economia, pedagogia e as demais atingem o seu grau de maioridade cientfica no momento ern que so capazes de utilizar a linguagem da matemtica para compreender 
os seus devidos objetos de estudo. Essa a linguagem que permitiria aos cientistas ser neutros, determinar as leis para a humanidade, accssar o conhecimento e o controle 
dos seres vivos, dos elementos naturais, da matria, da sociedade, da produo industrial e da educao.
Ainda sobre o mtodo, Coorte definia:

 incontestvel hoj que a observao dos fatos  a nica base slida dos conhecimentos humanos. [...J Nossa arte de observar compe-se, em geral, de trs processos 
diferentes: 1", a observao propriamente dita, isto , o exame direto do fenmeno tal como se apresenta naturalmente; 2, a experincia, isto , a contemplao 
do fenmeno mais ou menos modificado por circunstncias

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consideraes a respeito do mtodo

artificiais, que realizamos expressamente visando a uma explorao mais perfeita; 3, a comparao, isto , a considerao gradual de uma srie de casos anlogos, 
nos quais o fenmeno se simplifica cada vez mais" (Coorte, apud Moraes Filho, 1978: 85).

        () mtodo positivista produziu e ainda produz uma qualidade ele cincia voltada para a enumerao e a catalogao dos fenmenos, que valoriza as relaes 
quantitativas e numricas e destaca os fatos que possuem semelhanas entre si, que se repetem de modo uniforme, passveis de serem tratados estatisticamente. Para 
os positivistas, a valorizao da experincia no procedimento cientfico conduz a um ponto em que admitem: somente o que pode ser testado e experimentado pode ser 
comprovado. a11m disso, apenas o comprovado torna-se lei em uma teoria.
        U positivismo, com sua crena ilimitada no progresso do conhecimento, era otimista e ingnuo, pois, conforme vimos no captulo 3, a atividade cientfica 
no  neutra (mas poltica), nem est relacionada ao bem da humanidade de modo unilateral. Cientistas e pesquisadores exercem a profisso participando da sociedade 
de classes (capitalista) c, via de regra, no so capares de questionar os vrios usos dos conhecimentos e das tecnologias que ajudam a desenvolver. Presos aos grandes 
laboratrios de empresas multinacionais ou s universidades burocratizadas, os cientistas e pesquisadores dificilmente encontram mecanismos para evitar que a cincia 
sirva tambm  indstria blica,  destruio do meio ambiente ou ao racismo.
        Deve-se considerar ainda que a pretenso comtiana de matematizar as cincias humanas  um erro. Quando se reduz as interaes e os conflitos sociais a dados 
quantitativos, no se explicam sua essncia ou sua dinmica real. Examinar as relaes aociais como se fossem "objetos de laboratrio", buscar suas leis, gcncraliz-las 
indistintamente, prever seu desenvolvimento e sua histria tm prestado mais  desinformao que o seu contrrio.

83
pesquisa social e ao pedaggica

5.2 O marxismo

        Em Marx encontramos uma concepo filosfica que define a cincia e a tecnologia como produtos da histria. Marx critica, portanto, a idia da "cincia pura", 
acima das relaes sociais, que por ser desvinculada da poltica e da economia seria capaz de orientar o desenvolvimento da sociedade. A cincia , ao contrrio, 
produto da histria e continuar a s-lo enquanto houver relaes dos indivduos entre si c com a natureza. Isto , s posso conhecer, conceituar e pesquisar o mundo 
quando admito que o indivduo age socialmente com ou contra seus semelhantes.
        Para que homens e mulheres conheam seu tempo e a natureza  preciso que conheam tambm as relaes sociais de produo sob as quais vivem. Por exemplo, 
se a educao emerge como questo a ser examinada num momento especfico e torna-se objeto de uma cincia, apenas a pesquisaremos de modo efetivo

ao percebermos que ela  uri fato histrico, no s uma questo cognitiva. Isto , devemos examinar a educao dentro do contexto balizado pelas relaes de classe, 
pela economia, pela poltica c que decorrem de determinado modo da organizao social, pois

antes de poderem se entregar  divagao, antes de poderem formular teorias, os seres hurnanos so pressionados por necessidades materiais urgentes e precisam se 
empenharem resolver os problemas que elas lhes apresentam: precisam comer e beber, precisam se vestir (para que no morram de frio) e lhes cabe reproduzirem a espcie 
a que pertencem. As exigncias materiais, ento, ao longo da histria, tm precedncia sobre as aspiraes espirituais dos homens, na influncia que exercem sobre 
as aes histricas, sobre o processo de transformao das sociedades humanas. O mtodo dialtico do materialismo histrico [desenvolvido por Marx] consiste em reconhecer 
essa

situao e em procurar extrair as conseqncia

1995: 52).

84

consideraes a respeito do mtodo

s dela (Konder,

        () conhecimento da natureza e do ser humano realiza-se por meio da influncia que os indivduos recebem das relaes sociais tornadas econmicas. Da, para 
obter o significado do fazer cincia em nossa sociedade capitalista, faz-se necessrio 0 conhecimento das relaes sociais de produo e de sua distribuioo, isto 
, das condies produtoras da riqueza e da misria. U l concepo conduziu Marx ao estudo da economia burguesa n ao para legit;m-la, mas para p-la sob suspeita. 
Nessa tica, as leituras que Marx realizou das obras dos economistas burgueses, como Adam Smith e David Ricardo, partiram da mesma perspectiva com a qual abordou 
lIegel. Se a filosofia hegeliana c idealista elabora-se distante do mundo material, os economistas burgueses, por sua vez, reduzem sua cincia ao domnio exclusivo 
dos clculos racionais para "o se dar bem" na sociedade cm que se vive. Para Marx, ao contrrio, os contextos econmicos que norteiam adinmica do capitalismo devem 
ser entendidos na medida em que revelam as contradies desse sistema, por

apontarem os caminhos para sua negao/superao.

Marx preleciona:

Com o desenvolvimento da burguesia, isto , do capital, desenvolve-se tambm o proletariado, a classe dos operrios modernos, que s podem viver se encontrarem trabalho 
e que s o encontram na medida em que este aumenta o capital. Esses operrios, constrangidos a vender-se diariamente, so mercadoria, artigo de comrcio como qualquer 
outro; em conseqncia, esto sujeitos a todas as vicissitudes da concorrncia; a todas as flutuaes do mercado.

O crescente emprego de mquinas e a diviso do trabalho, despojando o trabalho do operrio de seu carter autnomo, tiraram-lhe todo atrativo. O produtor passa a 
um simples apndice da mquina e s se requer dele a operao mais simp_es, mais montona, mais fcil de aprender. Desse modo, o custo do operrio se reduz, quase 
exclusivamente, aos meios de manuteno

85
pesquisa social e ao pedaggica

        Ao converter a fora de trabalho em mercadoria, as relaes sociais de produo capitalistas criaram uma sociedade na qual: 1) as interaes entre as pessoas 
assumem sempre uma forma de troca, isto , relaciono-me com as pessoas oferecendo algo que elas esperam encontrar comigo e, do mesmo modo, as peswas interessam-me 
pelo que podem me oferecer; Z) convertido 2m mercadoria, o trabalho deixa de pertencer  maioria das pesoas. No posso decidir sobre as condies da produo e 
tamouco a respeito daquilo que  produzido. Ou seja, a sociedade encontra-se cindida entre aqueles poucos que decidem o que produzir, quais salrios devem ser pagos 
e no que investir, e, de autro lado, a maioria obrigada a aceitar todas as condies ecoymicas a ela impostas; 3) o trabalho passa a representar um fardo - em virtude 
de sua baixa remunerao - e perde toda  sua dimenso ldica, de criao e de realizao pessoal.
        A tarefa poltico-terica de Marx teve incio, ento, com a hcrcepo de que o capitalismo aparente  um grande depsito ele mercadorias. Buscando a sua 
essncia, indaga: o que pode existir alm das mercadorias? Que relaes sociais elas escondem?
        Em resposta a essas questes, Marx admitiu que antes das yercadorias e das relaes de troca encontramos sua produo. hstudando o modo de produo capitalista, 
concluiu pela exisf.ncia de classes sociais bsicas: os proprietrios dos meios de produo e os proprietrios da fora de trabalho. Sem outro recur-

que lhe so necessrios para viver e procriar. Ora, o preo do trabalho, como de toda mercadoria,  igual ao custo de sua produo. Portanto,  medida que aumenta 
o carter enfadonho do trabalho, decrescem os salrios. Quanto mais se desenvolvem o maquinismo e a diviso do trabalho, mais aumenta a quantidade de trabalho, quer 
pelo prolongamento das horas, quer pelo aumento do trabalho exigido em um tempo determinado, pela acelerao do movimento das mquinas (1980: 16).

consideraes a respeito do mtodo

so, os detentores da fora de trabalho vendem-na por um valor manifesto no salrio. Ento, a capacidade para o trabal)IO tamhm torna-se mercadoria. Os proprietrios 
dos meios de produo, por sua vez, sabem que ao comprar a fora de trabalho adquirem uma mercadoria peculiar a nica presente ria natureza capaz de produzir mais 
do que o necessrio para a sua recomposio. Em outros termos, uma mercadoria que produz lucro para a classe empresarial.
        As classes trabalhadoras, sempre produzindo mais do que recebem, encontram em seus salrios um valor inferior aos bens que elaboram. Todo esse excedente 
econmico fica com o eipitalista, que, quanto mais trabalho compra, mais enriquece. Essa anlise simplificada do pensamento de Marx aponta para uma laracterstica 
de seu mtodo, qual seja, os fenmenos s podem ser compreendidos em sua contradio: os capitalistas e burgueses a firmam-se ao negarem s classes trabalhadoras 
uma parcela significativa do valor que elas produziram e a que teriam direo.

O trabalhador cai na misria e esta cresce ainda mais rapdamente que a populao e a riqueza. E; pois, evidente que a blrguesia seja incapaz de continuar desempenhando 
o papel ce classe dominante e de impor  sociedade, como lei suprema, 5 condies de existncia de sua classe. No pode exercer o seu lomnio porque no pode mais 
assegurar a existncia de seu escravo, mesmo no quadro de sua escravido, porque  obrigados deixlo cair numa tal situao, que deve nutri-lo em lugar defazcr-se 
nutrir por ele. A sociedade no pode mais existir sob sia dominao, o que quer dizer que a existncia da burguesia , loravante, incompatvel com a da sociedade.

        A condio essencial da existncia e da supremacia r classe burguesa  a acumulao da riqueza nas mos dos particulares, a formao e o crescimento do 
capital; a condio de existqicia do capital  o trabalho assalariado. Este baseia-se exclusivarr--nte na

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pesquisa social e ao pedaggica

concorrncia dos operrios entre si. O progresso da indstria, de que a burguesia  agente passivo e inconsciente, substitui o isolamento dos operrios, resultante 
de sua competio, por sua unio revolucionria mediante a associao. Assim, o desenvolvimento da grande indstria solapa o terreno era que a burguesia assentou 
o seu regime de produo e de apropriao dos produtos. A burguesia produz, sobretudo, seus prprios coveiros. Sua queda e a vitria do proletariado so igualmente 
inevitveis (Marx,1980: Z4).
        A partir das consideraes anteriores, percebemos que o mtodo de Marx indica o fato de que a negatividade da luta de classes carrega em si e por si uma 
dimenso positiva: o capitalismo, ao submeter as classes trabalhadoras  realizao dos intentos burgueses, cria, contraditoriamente, as condies da organizao 
poltica desses trabalhadores na luta por direitos e na elaborao de uma nova e futura sociedade, que combine a liberdade poltica com a igualdade econmica. Atualmente, 
os trabalhadores aprendem como agir politicamente, percebera que no tm "nada a perder a no ser as suas cadeias, e tm uni mundo a ganhar". Revigoram-se assim 
c empenham-se a cada dia rias lutas necessrias  transformao da realidade capitalista em uma nova - a socialista.
        O mtodo de Marx concebe os fenmenos em anlise como
sendo histricos, dotados de materialidade e movidos pela con
tradio: afirmao-negao-nova afirmao. Desse mtodo re
sulta a tese que concebe o conhecimento como um movimento
que se d no marco da luta de classes e, assim, a cincia e a
pesquisa afirmam-se como fenmenos que contribuem para
aa mnteno da atual sociedade capitalista. Por outro lado, as
classes trabalhadoras e aquela intelectualidade que se aliar a
seus interesses tornar-se-o os sujeitos da contradio dessa so
ciedade tambm no campo do conhecimento, isto , capacitar
se-o a estabelecer uma nova afirmao: a luta por urna nova
cincia e por pesquisas comprometidas com os valores populares.

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consideraes a respeito do mtodo

r;in relao ao objeto deste captulo, podemos afirmar: a cincia que domina pode vir a ser uma cincia que liberta.
        Por outro lado, Marx no considera que somos em sociedade aporias membros de classes sociais. O pertencer a uma classe social traduz que as estruturas econmicas 
agem sobre os indivduos, organizando-os em dois grandes segmentos principais: burguesia e proletariado. Ao lado destes, aparecem outros: pequena burguesia, classe 
mdia, subproletariado, enrpresariado rural, burgueses modernos... O significativo  entender que Marx admitia a influncia dessas classes na vida de cada indivduo 
e, do mesmo modo, cada indivduo poderia influir sobre elas:

Deve-se evitar antes de tudo fixar a "sociedade" como outra abstrao ante o indivduo [...] assim como  a prpria sociedade que produz o homem enquanto homem, 
assim tambm ela  produzida por ele (Marx, 1991: 169).

        Essa concepo em que o indivduo faz e  feito pela sociedade permite valorizar a prxis individual alm da prxis de classe. Ou seja, minha ao pessoal 
 to importante quanto uma ao dc classe. Assim, ao ser professor, tenho conscincia de que a aula que ministro pode vir a ser uma interveno social capaz de 
contribuir para transformar ou reproduzir a sociedade. lgualmentc, o cientista tem conscincia de que a pesquisa que realiza pode N -ir a ser interveno social, 
tambm capaz de contribuir para trans-

formar ou, reproduzir a vida social. E assim o  com todos: estudantes; operrios, profissionais liberais, artistas...  medida que tema ao individual assemelha-se 
 outra e mais outra tornam,,e mltiplas na transformao ou reproduo da vida social: constituem-se em aes de grupos e depois em aes de classe.

5.3 A fenomenologia

        O termo fenomenologa decorre do verbo grego phainomai, c0m significado abrangente: eu apareo e/ou aquilo que aparece.

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pesquisa social e ao pedaggica

Quando Ilusserl (1859-1938) iniciou o movimento filosfico que originaria a fenomenologia, tinha em mente o desafio de estudar, descrever c interpretar aquilo que 
aparece, isto , qual a essncia de um fenmeno c como se manifesta ao seu observador o eu (o Ser). Portanto, para estudar, descrever e interpretar as essncias 
dos fenmenos que compem o mundo no qual os sujeitos esto inseridos  preciso dar-se conta de que, antes mesmo de a filosofia entrarem cena, os sujeitos j experimentam 
o mundo e mantm interaes com outros sujeitos, que tambm experimentam esse mundo. A experincia pessoal com o mundo e a que  partilhada com os outros permitem, 
antes de pensar o mundo, ou simultaneamente a isso, sentir os fenmenos.
        Para atingir a essncia daquilo que ocorre no inundo, entretanto,  preciso partir das aparncias com que os fenmenos se manifestam: a atitude natural. 
Todos ns estamos mergulhados cm acontecimentos cotidianos, interaes, emoes e sensaes a respeito dos quais criamos representaes simblicas, isto , do mesmo 
modo que vivemos uma experincia, somos capazes de pens-la, tirar concluses, escolher como melhor agir. O pensamento que advm da vida cotidiana  designado por 
1Iusserl como uma atitude natural diante dos fenmenos. Produzir conhecimento, fazer filosofia ou elaborar uma pesquisa  possvel quando sabemos problernatizar 
o mundo das aparncias, isto , a atitude natural. Tal problematizao significa, portanto, colocar a atitude natural sob suspenso: dar-se conta de que este mundo 
afeta as pessoas cotidianamente. Assim, a questo do conhecimento apresenta-se ao fenornenlogo no momento em que ele  capaz de perguntar-se sobre como se d esse 
afetar ria conscincia das pessoas. Inicia-sc, ento, um processo que permite ao fenomenlogo ir das aparncias s essncias dos fenmenos. Em sntese, toda filosofia 
c toda cincia decorrem do mundo vivido e da percepo que os seres humanos tm desse mundo. Segundo o prprio Husserl,

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consideraes a respeito do mtodo

Normalmente falamos do conhecimento c da classificao do objeto da percepo como se o ato se exercesse sobre o objeto. N/Ias, como j dissemos, o que est na prpria 
vivncia no  nenhum objeto, e sim uma percepo, um estado de esprito determinado de tal ou tal maneira; portanto, na vivncia, o ato do conhecimento se fundamenta 
na percepo (2000: 44).
        I Na perspectiva apontada, o que fundamenta o ato de conhe-

cer e, portanto, a filosofia, a cincia e a pesquisa  a percepo que temos do mundo vivido por meio da atitude natural. Assim,

a atitude natural desenvolve-se pela percepo, que, nesse caso, no significa apenas o conjunto das sensaes que me chegam por meio dos sentidos - viso, tato, 
olfato, audio, paladar e o que cls podem me afirmar a respeito do mundo, tampouco uma idia ou um conceito a respeito desse mundo. A percepo  uma totalidade
que envolve a sensao, a cognio, as representaes simblicas decorrentes das minhas interaes com os outros, as emoes, o sonhar, o desejar, o imaginar...
em suma, a totalidade de meu Ser com o inundo e no apenas uma parte dele.

A respeito dessa definio de percepo, Chau (1997: 122) nos fornece um belo exemplo:

O prprio mundo exterior no  uma coleo ou uma soma de coisas isoladas, mas est organizado em formas e estruturas h14complexas dotadas de sentido. Uma paisagem
[eis o exemplo]

no  uma soma de coisas que esto apenas prximas umas das outras, mas  a percepo de coisas que formam um todo complexo e com sentido: o vale s  vale por causa 
da montanha,
cuja altura e distncia s podem ser avaliadas por que h o cu, as rvores, um rio e um caminho; o verde do vale s pode ser percebido por contraste com o cinza
ou o dourado da montanha;

o azul do cu pode ser percebido por causa do verde da vegetao e o marrom da terra; essa paisagem ser uni espetculo de contemplao se o sujeito da percepo
estiver repousado.

Seu paciente sente a orao Ter
der loeorovr-s. Por outro ldo d-lhe ser "esquecido" por aqueles
pesquisa social e ao pedaggica

que ama e, ao estar sozinho no hospital, di-lhe ficar dependente dos outros, di-lhe o medo...

        O enfermeiro pesquisador de nosso exemplo define que a dor no  um processo que se inicia apenas com o ferimento do paciente em questo. Antes mesmo do
ferimento ocorrer, existia sua predisposio em relao  dor: o isolamento cotidiano do paciente em relao a seus familiares, seu medo da solido, uma vida que
o levou a ser independente das pessoas. Estes e outros aspectos formam um conjunto de fatos que potencializa a dor do paciente com a perna ferida. Nesse exemplo,
o ficar ferido acentuou uma dor fsica e localizada que possua uma dimenso existencial anterior.

        Enquanto a cincia mdica prope medicamentos que atuem diretamente no ferimento e, conseqentemente, diminuam a dor localizada, o enfermeiro pesquisador,
neste caso, lanar mo de recursos como a adoo de medidas multidisciplinarcs no trato com os paciente: conversas com psiclogos, assistentes sociais, cuidados
de enfermagem mais tolerantes e mesmo uma relao dialgica entre funcionrios do hospital e o paciente. No exemplo, adotar uma perspectiva fenomenolgica em pesquisa
significaria relacionar as causas da dor com uma ao ambulatorial humanizada. Desse modo, o problema seria entendido como uma totalidade.

        Em sntese, toda produo do conhecimento em fenomenologia tem como meta compreender
um fenmeno em suas mltiplas determinaes. E aqui reside a maior
crtica que a fenomenologia recebe: a indeterminao quanto  existncia de um mtodo definido na elaborao do conhecimento. Igualmente, para muitos pesquisadores,
lidar com a variedade dos mtodos torna-se mais um problema que uma soluo. Alm disso, a defesa que a fenomenologia faz dos procedimentos de pesquisa centrados
na descrio do objeto de estudo e muito pouco em sua anlise leva a aceitar que apenas a subjetividade do ser humano

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consideraes a respeito do mtodo

tenha um estatuto filosfico. Uma sntese dessa crtica: no desejo de criar um mtodo que tudo abarque, a fenomenologia corre o risco de nada abarcar.

5.4 O estruturalismo

        Compreender que dado fenmeno, determinada relao social ou mesmo um conceito tenham sentido e validade como parte de um conjunto de fenmenos, de um sistema
social ou de uma ordenao conceptual  a maior caracterstica do mtodo estruturalista. O termo estrutura diz respeito, portanto, ao mtodo em que uma parte s 
 cognoscvel quando entendida em sua relao com as outras partes de uma mesma totalidade. Nessa proposta, a noo de sistema  fundamental, pois define que uma 
totalidade se faz por fartes independentes c, simultaneamente, integradas a um gruo, c de tal modo que as modificaes ocorridas em uma das fartes que compem o 
gruo  capaz de alterar n comportamento do grupo.

        Segundo Lvi-Strauss (1908), considerado um dos precursores desse mtodo na antropologia, o princpio fundamental :

A noo de estrutura social no se refere a realidade emprica, mas aos modelos construdos em conformidade com esta. [...] Pensamos, com efeito, que, para merecer 
o nome de estrutura, os modelos devem, exclusivamente, satisfazer a quatro condies.

Em primeiro lugar, uma estrutura oferece um carter de sistema. Ela consiste cm elementos tais que uma modificao qualquer de um deles acarreta uma modificao 
de todos os outros.

Fm segundo lugar, todo modelo pertence a um grupo de transformaes, cada uma das quais corresponde a um modelo da mesma famlia, de modo que o conjunto destas transformaes 
constitui um grupo de modelos.

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pesquisa social e ao pedaggica

Em terceiro lugar, as propriedades indicadas acima permitem prever de que nodo reagir o rnodclo, em caso de rnodifieao de um de seus elementos.

Enfim, o modelo deve ser construdo de tal modo que seu funcionamento po>sa explicar todos os fatos observados (1996: 316).

        Lvi-Strauss notabilizou-se por suas pesquisas em antropologia, cincia na qtal exercitou o mtodo estruturalista. As sociedades tribais eramo seu alvo. 
Seriara elas compreensveis na medida em que pensadas como um sistema: a linguagem, a magia, o parentesco, a produo c as trocas materiais e simblicas formam, 
cada qual, parte dc) grupo que  a tribo. Ora, uma parte dessa sociedade - o parentesco, por exemplo -  compreendida quando relacionada  produo dos meios que 
garantam a subsistncia da tribo, subsistncia por sua vez passvel de compreenso quando relacionada  diviso sexual e do trabalho predominante.

        Ao analisar aspectos da organizao familiar de tribos brasileiras como os xerentes, por exemplo, Lvi-Strauss (1996: 143 e

144) constatou na dinmica do casamento matrilinear vrias possibilidades de parentesco. Simplificando, poderamos afirmar que o modelo matrilinear  constitudo 
por esposas que se distinguem em relao a seus maridos, pois os filhos resultantes do casamento so educados pelo irmo da me e no pelo pai biolgico. O tio, 
assumindo as responsabilidades paternas sobre seus sobrinhos, passa a trabalhar para sua irm no provento da famlia. Como o pai biolgico no trabalha para sua 
esposa,  natural que trabalhe para sua irm. Essa relao de parentesco, que difere muito da capitalista e ocidental,  compreendida como integrante de uma estrutura, 
isto , relaciona-se a rnccanismos geradores de redes sociais que, ao unificar o trabalho de diferentes famlias na figura do irmo da me (o tio), permitem uma 
produo e uma troca de bens ria forma comunitria e reduzem os possveis conflitos entre as diversas famlias que compem as tribos.

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consideraes a respeito do mtodo

        A pesquisa dessa relao de parentesco demonstra, no caso descrito, que no h como compreend-lo sem que o pesquisador considere as outras dimenses do 
sistema em questo: a linguagem c os smbolos das tribos, as formas que a diviso sexual e a do trabalho assumem, a produo e a distribuio dos bens nas trilos, 
a religiosidade que permeia essas relaes etc. No mtodo estruturalista, admite-se que qualquer alterao/modificao em uma parte do sistema tem implicaes para 
sua totalidade.
        Para o estruturalismo, a parte  compreendida quando relacionada com o todo. Isso implica admitir que os fatos tidos como episdicos so, na verdade, expresses 
de uma estrutura: nada do que ocorre na natureza fsica ou social  acidental. Por outro lado, o fenmeno tido por acidental, estranho, extico e que transcende 
a vida rotineira do grupo estudado aparece com tais caractersticas ao observador que ainda no se familiarizou com o acontecido. A medida que os fatos tidos por 
acidentais ou exticos so conhecidos pelas relaes que mantm com estruturas fsicas ou sociais, o que era estranho torna-se familiar, compreensvel. Vale notar: 
as estruturas no esto apenas na natureza fsica ou social, mas, mais do que isso, tambm so formas organizadas de pensar e pelas quais nos propomos a compreender 
o mundo, com seus fenmenos e objetos. Assim,  possvel identificar essas formas organizadas de pensar como sinnimo de modelos:

As pesquisas estruturais no ofereceriam interesse algum se as estruturas no fossem traduzveis em modelos cujas propriedades formais so comparveis, independentemente 
dos elementos que as compem. O estruturalista tem por tarefa identificar e isolar os nveis de realidade que tm um valor estratgico do ponto de vista em que ele 
se coloca, ou, em outras palavras, que podem ser representados sob forma de modelos, qualquer que seja a natureza destes ltimos (Lvi-Strauss, 1996: 3Z1).

        Esta citao apresenta o segundo e fundamental aspecto desse mtodo do conhecimento: a noo de modelo. Os estru-

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pesquisa social e ao pedaggica

turalistas - no s aqueles que se dedicam  antropologia, mas tambm os dedicados  sociologia,  psicanlise,  economia,  cincia da educao, entre outros - 
entendem que um modelo consiste na organizao de conjuntos formados por conceitos relacionados um ao outro. Esses conceitos so construdos pelos pesquisadores 
e derivam da associao entre o pensamento e a experincia emprica, operada pelo raciocnio. Um conjunto de conceitos contm, portanto, uma srie de definies 
que permitem captar a totalidade do fenmeno investigado e, alm

disso, indicam o mtodo - "o caminho"
lisar a realidade.

        O problema est em tomar os modelos cientficos como "cpias fiis c artificiais" da realidade estudada, pois, nesse caso, qualquer excentricidade presente 
na realidade e que no se encaixe no inodclo de sua investigao  posta de lado, descartada. Nasce a idia segundo a qual o modelo cientificamente aceito  aquele 
que no erra no julgamento do real.

        Um exemplo: um cientista poltico deseja compreender as razes que, em determinada fbrica, levaram os operrios de origem migrante a no aderirem a um movimento 
grevista. Em sua pesquisa, ele observou que as greves so, em sua maior parte, articuladas pelos operrios mais qualificados, com maior grau de instruo e no-migrantes. 
Tambm entre os proletrios qualificados encontra-se o maior ndice de sindicalizao. Concluso: os operrios no-qualificados esto vivendo h pouco tempo

nas grandes cidades, encontram dificuldades quanto  socializao no meio urbano c, devido  pouca instruo, so incapazes de desenvolver uma conscincia de classe.

        Esse cientista poltico, orientado pelo estruturalislno, criaria um modelo explicativo para o comportamento poltico do proletariado do pas a partir de 
sua pesquisa realizada sobre urna greve em uma fbrica. Para tanto, desenvolveria e articularia os seguintes conceitos: greve, qualificao profissional, socializao

- para o cientista ana-

consideraes a respeito do mtodo

urbana, comportamento poltico, conscincia de classe, vanguarda operria e falsa conscincia.
        Na posse desse conjunto de conceitos, elaboraria seu rnodclo: a qualificao profissional decorre, primeiro, da socializao cm meio urbano, que propicia 
uma viso mais ampla da realidade capitalista. A maior qualificao garante melhores salrios e, por conseqncia, maior grau de instruo. A cada greve que esses 
operrios qualificados enfrentam, mais e mais s suas conscincias agregam-se questes polticas. Tais operrios tornamsc a vanguarda das lutas operrias. Assim, 
operrios sem um passado recente de migrao tm uma conscincia de classe maior que os operrios migrantes, ainda orientados por valores tradicionais do mundo rural 
e portanto mais conservadores.
        Nesse modelo, qualquer comportamento poltico diferente do abordado, como um quebra-quebra de trens de subrbio realizado por operrios com baixa qualificao 
profissional, ser definido como um comportamento alienado, como expresso de uma falsa conscincia de classe. E bvio que esse exemplo  uma caricatura, pois as 
pesquisas estruturalistas no campo social no so realizadas com tanta simplicidade. Por outro lado, essa caricatura traz embutidos aspectos reais, que indicam o 
perigo para as cincias humanas de organizarem-se a partir de modelos, sem correlacion-los  historicidade dos fatos. Alis, esta  a maior crtica feita ao estruturalismo: 
trabalhar com modelos tericos afasta o pesquisador da

compreenso histrica dos fenmenos que analisa. A maior censuao estruturalismo coube a Thompson, quando afirmou:

[...]  excepcionalmente difcil verbalizar, como "teoria", a histria como processo; e, cm particular, nenhuma analogia com estruturas orgnicas ou mecnicas, e 
nenhuma reconstituio esttica, pode dar conta da lgica do processo histrico indeterminado, um processo que permanece sujeito a certas presses. Em ltima anlise, 
a lgica do processo s pode ser descrita em ter-

mos de anlise histrica (1981: 97).

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pesquisa social e ao pedaggica

        Tal comentrio dirige-se, sobretudo, ao modelo terico desenvolvido por Louis Althusser (1918-1990), filsofo que realizou uma leitura estruturalista da 
obra de Karl Marx. Para Althusser, o nvel econmico do capitalismo (a infra-estrutura) est intimamente relacionado ao nvel da cultura (a superestrutura). Ponderava 
ele que no seria marxista o mtodo que superestimasse o econmico em detrimento da superestrutura. Essa concepo levou Althusser  anlise da superestrutura com 
o objetivo de recuperar aspectos que admitia negligenciados por outros marxistas: o estudo da ideologia, no apenas como uma aparncia da sociedade de classes, mas 
como uma fora material. Isto , a ideologia devia ser interpretada como urna estrutura porque as idias e os valores das classes dominantes eram mais que simples 
idias e valores: implicavam prticas influenciadas pelo Estado e possuam uma organizao material - os chamados Aparelhos Ideolgicos do Estado (AIE) - que perpassava 
a vida de todos aqueles que viviam sob as relaes sociais de produo capitalistas. Para Althusser,

As idias desaparecem enquanto tais (enquanto dotadas de uma existncia ideal, espiritual), na medida mesma [em] que se evidencia que sua existncia estava inscrita 
nos atos das prticas reguladas por rituais definidos em ltima instncia por um aparelho ideolgico. O sujeito portanto atua enquanto agente do seguinte sistema: 
a ideologia existente em um aparelho ideolgico material, que prescreve prticas materiais reguladas por urn ritual material, prticas estas que existem nos atos 
materiais de um sujeito, que age conscientemente segundo sua crena (1983: 92).

        A ideologia no  mera soma de idias e valores.  o mecanismo pelo qual as classes burguesas dominam as classes trabalhadoras por meio do controle que obtm
sobre o Estado. Este, por sua vez, detm o controle do sistema de instituies do capitalismo, de sorte que as igrejas, os sindicatos, os partidos polticos, os


consideraes a respeito do mtodo

nais e as escolas convertem-se em Aparelhos Ideolgicos do Estado.
Assim, a ideologia relaciona-se com as prticas dos sujeitos no interior de instituies, que
existem por meio de urna materialidade. Esse mtodo do conhecimento, quando utilizado em procedimentos de pesquisa emprica, exige, por superestimar a noo de controle,
presente no sistema de instituies do capitalismo, chie se faa uma descrio das estruturas ideolgicas.
        Se Lvi-Strauss analisou as sociedades tribais a partir de suas estruturas e Althusser o fez com a ideologia, vrios pensadores utilizaram o mtodo estruturalista:
Jacques Lacan na psicanlise (o inconsciente como uma estrutura) e Michel Foucault na filosofia (o discurso como uma estrutura). A maior crtica que esse mtodo
recebe diz respeito ao valor excessivo que atribui aos processos de reproduo das sociedades, deixando de lado os processos de transformao social. Ou seja, se
o estruturalismo gerou uma srie de pesquisas capazes de criticar os contextos de dominao, presentes em quase todos os campos da vida social, por outro lado foi
incapaz de mostrar as possibilidades de mudana que aparecem nesses contextos. Isso deve-se ao pouco valor que esse mtodo atribui aos estudos histricos: o campo
de anlise do estruturalismo aparece fora do temo. Ao superestiinar a teoria e os modelos dela decorrentes, desqualificaria e secundaria os processos histricos,
sobretudo quando eles contradizem os mdelos tericos que defende.

5.5 Sobre a escolha do mtodo

        Apresentamos de forma muito simplificada quatro`Tr-riportantes mtodos: o positivismo, o marxismo, a fenomenologia e o estruturalismo. A respeito de cada 
um deles j foram escritos milhares de livros com teorias e pesquisas que concordam, refutam ou revisam aspectos e at mesmo a totalidade do mtodo exami-
pesquisa social e ao pedaggica

nado. A lio indicada neste livro introdutrio : no se faZ pesqusa sem o domnio de uni mtodo. Uma vez que o mtodo  indissocivel da prtica do pesquisador, 
este se v s voltas corri outra questo: qual mtodo escolher? Qual o que melhor contribui no dLsenvolvirnento de uma pesquisa? A resposta a essas perguntas demonstra 
que a opo por um mtodo do conhecimento  sempre uma escolha poltica e tica: aceito uni e descarto outra de acordo com rnirlhas convices, situadas em contextos 
histricos.
        A questo do mtodo permite (de novo!) perceber que a cincia c a pesquisa no so atividades neutras. De qualquer modo, unia pesquisa de qualidade implica 
que o pesquisador tenha uma boa formao no mtodo que escolheu para realizar sua investigao. Pior do que trabalhar com um mtodo considerado conservador por muitos 
 lidar mal e superficialmente com um mtodo visto como progressista.

        Mtodos diferentes conduzem a diferentes resultados. Uma pesquisa conduzida sob a influncia do positivismo tende a valorizar abordagens quantitativas, como 
o uso de estatsticas e as estratgias para "medir" a realidade. No caso de unia pesquisa dirigida  educao escolar, por exemplo, o positivista valorizaria seu 
plano formal - o sistema escolar, ndices numricos de reteno ou aprovao, anlises das normas e dos cdigos que regem o sistema -, desvinculando-o de contextos 
histricos (econmicos, sociais e polticos). Apegar-se-ia tambm ao entendimento da realidade escolar mais pela anlise da legislao do que pela ao dos sujeitos 
inseridos na instituio. E bvio que essas caractersticas de pesquisa no so exclusivas do positivismo c aparecem cm outros mtodos. Por outro lado, o modo como 
uni positivista trataria os dados obtidos implicaria aceitar a realidade como ela se apresenta, buscando localizar e examinar a moral que regula as interaes sociais 
presentes via escola. Os conflitos da realidade escolar seriam definidos como uma disfuno

consideraes a respeito do mtodo

(uma anormalidade do funcionamento regular da instituio) que deveria ser extirpada daquela realidade em exame.

        A fenomenologia, por sua vez, valorizaria mais as abordagens
qualitativas, como a observao e a descrio que o pesquisador fizesse do fenmeno em estudo.
No caso da educao escolar, o
nosso exemplo, a coleta de depoimentos, as entrevistas e as anotaes de conversas informais entre os diversos sujeitos de determinada escola dariam o matiz  pesquisa.
Nesse caso, o fenmeno em destaque no seria tratado de modo geral, isto , na feno-
menologia, mais importante que o sistema escolar seriam as escolas concretas e as vivncias reais dos sujeitos inseridos em insti-
tuies localizadas. Assim, o pesquisador centraria sua Investigao em poucas escolas, localizadas no tempo e no espao. No
ousaria indicar leis gerais para aquilo que ocorre na realidade focada. O objetivo primordial seria a descrio e no a anlise. Importaria mais o olhar sobre a
prtica dos sujeitos que atuam rio interior da instituio, menos as normas que a regem. O fenomenlogo
poria cm destaque os acontecimentos "exticos" e "extraordinrios", aquilo que passa despercebido a todos. Para tanto, a rotina escolar seria posta "em suspenso" 
e o pesquisador a olharia como admiraria um filme: seus detalhes, as combinaes, os sentidos da ao, o perfil dos sujeitos, a organizao do espao etc.
        O pesquisador influenciado pelo mtodo estruturalista, numa investigao de dada realidade escolar, por outro lado, provavelmente aproximar-se-ia de seu
campo de estudo munido de um modelo terico. Ao examinar dado contexto, observaria, entrevis-
taria sujeitos e analisaria documentos com o propsito de encontrar os elementos que apresentassem uma relao da estrutura escolar emprica (aquela sob anlise)
com a estrutura do sistema
escolar de determinada formao social. Destacaria em sua anlise os mecanismos de controle sobre os sujeitos inseridos na insti-
tuio, as formas de sociabilizao, a disciplina e como o poder seria exercido naquela realidade. Tais aspectos, considerados re-

pesquisa social e ao pedaggica

levantes para o pesquisador, diriam respeito s formas de reproduo social que se manifestam na escola.
        No caso da pesquisa movida pelo mtodo desenvolvido por Karl Marx, o princpio bsico seria a anlise do conflito, isto , a realidade nunca seria uniforme
e padronizada de modo a ser compreendida mecanicamente. Nessa proposta, os conceitos seriam importantes, porm no dariam origem a modelos tericos rgidos e inflexveis. 
Ao investigar a educao escolar, os conceitos de luta de classes, ideologia, formao social, relaes sociais de produo e Estado (que auxiliam na interpretao 
do modo de produo capitalista) seriam considerados no momento da insero do pesquisador na realidade escolar; por outro lado, no seriam determinantes de sua 
interpretao. No momento da pesquisa, os conceitos de Karl Mrx seriam revisitados e novos poderiam surgir. O pesquisador no seria refm da teoria c, igualmente, 
no o seria do momento emprico. Diante da pesquisa da realidade escolar, a postura decisiva nesse mtodo consistiria na identificao dos dissensos, mais que dos 
consensos; isso significaria que a crtica daquilo que  investigado no visa apenas negar experincias e prticas de sujeitos, mas o exerccio de "ler" nos conflitos 
das prticas analisadas sinais de inovao e transformao. Da o significado da palavra crtica, para Marx, traduzir-se no contextualizar o objeto de estudo e relacion-lo 
aos outros objetos. Perceber que uma questo localizada (uma escola)  influenciada por questes de uin mbito maior que a transcendem. Sobre o mtodo desenvolvido 
por Marx, vale unia citao:

No  verdade que a teoria pertena apenas  esfera da teoria. Toda noo, ou conceito, surge de engajamentos empricos e, por mais abstratos que sejam os procedimentos 
de sua auto-interrogao, esta deve ser remetida a um compromisso com as propriedades determinadas da evidncia e defender seus argumentos ante juzes vigilantes 
no "tribunal de recursos" da histria (Thompson, 1981: 53).

104

consideraes a respeito do mtodo

A maior contribuio de Marx  questo do mtodo foi de-
monstrar que qualquer cincia e pesquisa se fazem pela c na histria. Quando esse princpio  incorporado por socilogos, antroplogos, historiadores e pedagogos, 
entre muitos outros, redefine-se a relao pesquisador-pesquisa, pois a teoria converte-se apenas num meio de orientar e no na determinao do trabalho cientfico. 
Redefine-se tambm a relao sujeito-obje-

to, pois tanto o pesquisador  influenciado por aquilo que estuda como a realidade  modificada em razo da pesquisa.
        Por fim, outro ponto merece destaque: quando se reflete sobre a utilizao de um mtodo na realizao de pesquisas, logo ima-

gina-se um roteiro semelhante a uma "receita de bolo" - faa isso, adicione aquilo, separe isso e acrescente tal. Ora, um mtodo no  uma receita. O que os mtodos 
contm e demonstram so determinados estilos de pensamento que inspiram a cada qual

um "olhar" diferente sobre a realidade. Os mtodos do conhecimento contribuem na realizao de pesquisas por apresentarem

procedimentos que ensinam o pesquisador a pensar de determinada maneira e no de outra.

Para refletir

Lima pesquisa de aspectos da realidade educacional tem significado quando a compreenso do fato emprico  orientada por um mtodo do conhecimento, isto , por procedimentos 
lgicos, cognitivos e conceituais contidos cm determinado estilo de pensamento. Conhecer, mesmo preliminarmente, o positivismo, o marxismo, a fenomenologia e o estruturalismotem 
a sua importncia na medida em que tal conhecimento contribui para determinados modos de pensar a realidade focada pela pesquisa. O texto a seguir demonstra que 
os diferentes estilos de pensamento tambm s adquirem significao por estarem relacionados  prcticu:

O conhecimento da realidade  indispensvel ao desenvolvimen-
to da conscincia de si e este ao aumento daquele conhecimento.

Mas o ato de conhecer, que, se autntico, demanda sempre o des-
pesquisa social e ao pedaggica

velamento de seu objeto, no se d na dicotomia entre objetividade e subjetividade, ao e reflexo, prtica c teoria.

Da se faa importante, na prtica do desvelamcnto da realidade social, no processo conscientizador, que a realidade seja apreendi-

da no como algo que , mas como devenir, como algo que est sendo. NMas se est sendo, no jogo da permanncia c da mudana, e se no  ela o agente de tal jogo, 
 que este resulta da prtica de seres humanos sobre ela.
Impe-se, ento, discernir a razo de ser desta prtica - as finalidades, os objetivos, os mtodos, os interesses dos que a comandam, a quem serve, a quem desseme, 
com o que se percebe, afinal, que esta  apenas uma certa prtica, mas no a prtica, tomada corno destino dado. Desta maneira, na prtica terica, desveladora da 
realidade social, a apreenso desta implica a sua compreenso como realidade sofrendo sempre uma certa prtica dos seres humanos. Sua transformao, qualquer que 
seja ela, no pode verificar-se a no ser pela prtica tambm.
Agora bem, se no h conscientizao sem desvclamcnto da realidade objetiva, enquanto objeto de conhecimento dos sujeitos envolvidos cm seu processo, tal desvclamento, 
mesmo que dele decorra uma nova percepo da realidade desnudando-se, no basta ainda para autenticar a eonscicntizao. Assim cones o ciclo gnosiolgico no termina 
na etapa da aquisio do conhecimento existente, pois que se prolonga at a fase da criao do novo conhecimento, a conscientizao no pode parar na etapa do desvclamento 
da realidade. A sua autenticidade se d quando a prtica do desvclamcnto da realidade constitui uma unidade dinmica c dialtica com a prtica da transformao da 
realidade.

(FKOtrtr., Paulo. Ao cultural para u liberdade. So Paulo: Paz e ferra, 1976, p. 1-15. )

106

s e g u n d a

A categoria pesquisa serve  indicao e  articulao das idias e dos autores que fundamentam

esta segunda parte.

Trata-se de oferecer ao leitor, pela apresentao dos principais mtodos da pesquisa emprica, um caminho possvel e preliminar na elaborao de projetos de iniciao 
cientfica que, somados s proposies de exerccios e vivncias na organizao da pesquisa, concluam nossa proposta.
Captulo 6

Mtodos em pesquisa emprica

        A distino entre empirismo como mtodo e mtodos em Pesquisa emprica  um importante ponto de partida. No item 2.2 do captulo Z, vimos como, para Jolm
I,ocke,  possvel produzir conhecimento. Tal definio refere-se ao mtodo do empirismo, que constitui um estilo de pensamento: determinada forma de conceber a
realidade, os fenmenos c as relaes sociais. Aprendemos que sua maior caracterstica  atribuir  sensao e  expe-
rincia os nicios que possibilitariam ao ser humano elaborar o co-
nhecimento. Por outro lado, quando discutimos os mtodos em Pesquisa entprica no
estamos necessariamente, vinculados ao empirismo enquanto estilo de pensamento.
Pelo contrrio, mtodos como estudo de comunidade, etnografia, estudo de caso, histrict de vida, depoimento e enquete relacionam-se a determinados procedimentos
que indicam o modo mais apropriado de abordagem de mltiplos e localizados objetos da investigao. Esses mtodos (em pesquisa emprica) so pertinentes a < <riosestilos
de /pensamento: o positivismo, o marxismo, a fenomenologia ou o
estruturalismo, entre outros. Em sntese, enquanto tais abor-

109
pesquisa social e ao pedaggica

dagens referem-se a estudos do modo como o conhecimento se elabora, os mtodos em pesquisa emprica referem-se s maneiras de o pesquisador abordar seu obieto de
pesquisa.
        Os vrios mtodos em pesquisa emprica indicam diferentes caminhos e tcnicas de investigao na realizao de estudos monogrficos. A monografia constitui
uma dissertao minuciosa, que se prope esgotar determinado tema relativamente restrito. Com isso, entendemos que
uma pesquisa emprica consiste ria estudo e
na apresentao para o debate de um tema circunscrito e abordado exaustivamente. No campo da educao, o fracasso escolar, as polticas de alfabetizao de adultos,
o livro didtico, a formao docente, a escola na memria de professores, a educao sexual, as vrias modalidades de ensino (sociologia, cincias da natureza, geografia...),
os movimentos sociais de educao, a organizao sindical dos professores, o processo ensino-aprendizagem, o papel do pedagogo na escola, a relao escola-comunidade,
a rotina escolar, a histria do sistema escolar, o currculo, a organizao escolar, as reformas do ensino, a violncia escolar, as novas tecnologias de ensino e
muitos outros constituem-se em exemplos do que foi e ainda  objeto de pesquisas empricas: do origem a diversas monografias, que pretendem dissertar exaustivamente
sobre o objeto escolhido.

        Estudo de comunidade, etnografia, estudo de caso, histria de vida, depoimentos e enquetes so estudos de explanao descritiva ou explanao interpretativa. 
Para Queiroz (1972), a primeira diz respeito a um tema em que o pesquisador simplesmente descreve a realidade, o fenmeno ou a relao social que investiga. Por 
exemplo, observar e relatar o que ocorre em uma escola durante um ano letivo. Aqui, os dados obtidos circunscrevem-se ao mbito do objeto abordado. No segundo caso, 
o pesquisador procura explicar a realidade, o fenmeno ou a relao social. Por exemplo, relacionar o observado e descrito sobre unia escola com outros estudos semelhantes, 
buscando aspectos que podem ser Eenera-

mtodos em pesquisa emprica

lixados s demais instituies escolares de uma localidade. Assim, na explanao interprctativa, os dados coletados so tratados com o objetivo de obter-se o sentido 
possvel daquilo que  investigado; por isso, o pesquisador no se detm apenas no objeto abordado e busca estabelecer relaes com outros estudos
j" realizados a respeito do tema que investiga.
        Estudo de comunidade, etnografia, estudo de caso, histria de vida ou enquete podem ser vistos como instrumentos para destacar o presente (valorizando contextos 
histricos contemporneos), por exemplo uma escola no momento cm que o investigador a visita e insere-se nela, ou o passado (no qual se buscam as origens e as explicaes 
ou descries de processos histricos emergentes), por exemplo uma escola lembrada pelo trabalho de memria daqueles professores que no passado estiveram inseridos 
em uma instituio destacada.
        O investigador tambm pode ater-se  realidade, ao fenmeno ou  relao social em que o objeto  captado em seu todo (as diversas partes que compem o seu 
objeto de pesquisa), por exemplo uma ou vrias escolas, ou em uma farte (o investigador destaca um aspecto do objeto de pesquisa para abord-lo exaustivamente), 
por exemplo uma ou vrias salas de aula. Tais caractersticas - explanao descritiva, explanao interpretativa, destaque do presente, destaque do passado, captao 
do todo, captao da parte so escolhas do pesquisador quando utiliza um mtodo em pesquisa emprica.
        Uma produo numrica e significativa de monografias con-

tbu"        1 1         IS, po-
ri i para a compreenso dos processos sociais, cultura
is, po lticos e econmicos mais abrangentes. Nesse ponto surge outra modalidade de pesquisa, que lida com o resultado de diversas monografias j concludas e busca 
uma
reflexo de carter mais abrangente, pois realiza as snteses de vrias pesquisas empricas sobre determinado tema. Nas palavras de Queiroz, a importncia desses
trabalhos de sntese se deve  necessidade de
pesquisa social e ao pedaggica

ultrapassar a fase fragmentria das pesquisas, seja tentando formular os problemas de maneira a englobar aqueles que j foram estudados sobre o assunto, seja ensaiando 
a construo de snteses a partir de trabalhos existentes [...]  preciso tambm que pelo menos uma parte dos estudiosos esteja capacitada a efetuar a passagem do 
estudo sistemtico de um problema  sua apreciao em nveis mais elevados de crtica, de sntese e de generalizao (1972: 524) .

        A pesquisa emprica  importante em todas as reas de conhecimento das cincias humanas e, no seio delas,  oportuno que os pesquisadores da cincia da educao 
(pedagogia) fomenteis a formao de novos quadros profissionais, capazes de lidar com as vrias perspectivas metodolgicas; capazes, tambm, de abrir outras perspectivas 
de investigao que contribuam para a reflexo rigorosa a respeito dos maiores desafios presentes na educao e na escola.

6.1 Estudo de comunidade

        O mtodo que orienta os estudos de comunidade leva a unia pesquisa emprica circunscrita s peculiaridades da histria das sociedades capitalistas. As contradies 
inerentes a essa formao social apontam para a modernizao - industrializao, urbanizao, fluxos de migrao, relaes impessoais, excesso de tecnologia e consumo 
de bens sofisticados - como processo que no  homogneo, isto , no atinge a todos os indivduos ou classes sociais do mesmo modo e com a mesma intensidade. Muitas 
das caractersticas sociais e culturais dos temos da prindustrializao permanecem e, mesmo, recriam-se: a agricultura de subsistncia, a pesca artesanal e o extrativismo 
podem reunir em um mesmo local geogrfico grupos de famlias que vivem sob relaes, hbitos e crenas que foram dominantes no passa-

mtodos em pesquisa emprica

do, bem diferentes daqueles experimentados nos grandes centros urbanos. Segundo lanni,

Alenta mas sistemtica destruio da antiga sociedade agrria no Brasil, devida ao nascimento e  expanso do mundo urbano-industrial, tem provocado a elaborao 
de uma nova cons-
cincia histrica em grupos extensos da sociedade, da qual
deveria fazer parte essencial as categorias cientficas criadas pelas cincias humanas. Da a nfase em estudos sobre mudanas sociais, aculturao e assimilao,
problemas educacionais, condies de modalidade social, causas e efeitos das migraes, configuraes de estruturas demogrficas, "ciclos" econmicos, crises e conflitos
polticos, estrutura da formao da sociedade de classes, destruio dos remanescentes da sociedade escravocrata, de castas ete. (1996: 57).

        Os estudos de comunidade procuram compreender o conflito que se estabelece entre o avano da modernizao de um pas e os grupos sociais tradicionais, cujas 
organizao e mentalidade apresentam-se diferentes aos presentes nos processos de industrializao. Tais estudos partem da anlise de contextos concretos: 1) uma 
comunidade de pesca artesanal; 2) uma comunidade de pequenos agricultores negros, descendentes diretos de escravos; 3) uma aldeia indgena que ainda subsiste ao 
lado de uma grande metrpole; 4) ndios ou agricultores expulsos de suas terras e que avanam para as fronteiras agrcolas do pas, formando pequenas comunidades 
de coletores extrativistas, entre outros. Os estudos de comunidade procuram descrever e compreender como vivem esses trabalhadores pobres, interpretar suas crenas 
e sua religiosidade, suas formas de educao c seus hbitos, a viso de mundo que possuem e, sobretudo, o efeito devastador da modernidade em suas vidas.
        Nos espaos modernos tambm  possvel identificar algumas comunidades que se enquadram nesse conceito de pesquisa.
pesquisa social e ao pedaggica

Gr-upos de migrantes, geralmente vindos de uma mesma localidade - de fronteiras agrcolas e dos sertes do pas -, podem fixar-se en-r um mesmo bairro perifrico 
de uma grande rnctrpole: nesse novo espao de moradia descnvolvcm festas e ritos senl(elhantes queles que existiam no local de origem, continuam a conviver e ajudam-se 
de modo comunitrio. Qual  o impacto que o novo mundo urbano exerce em suas vidas? Qual o comportamento poltico desses grupos? Como ocorre a insero dessas pessoas 
no mundo moderno quando conseguem freqentar unia escola pblica? Todas essas questes sugerem os chamados estudos de comunidade. Para Queiroz, tais pesquisas permitem 
estudar contatos culturais; relaes entre personalidade e grupo; as formas de organizao social, Vale ainda notar que os trabalhos se desenvolvem sem que seja 
possvel traar um limite claro entre unia abordagcrn sociolgica e uma abordagem antropolgica (1972: 513).

        A partir dessas observaes, vale ressaltar que os estudos de comunidade no so adequados ao exame de qualquer realidade social. O que est em jogo nessa 
modalidade de pesquisa  o inkcressc em captar a tenso existente entre o "ioderno c o tradicio"ial dentro de contextos crnpncos. Trata-se tambm de urna ,modalidade 
de pesquisa que requer a presena e a insero do

irlvestigador na realidade em foco: participar, por uni perodo

determinado, da vida da comunidade, observar sua rotina e as atvidades que a "qucbralii", conversar com as pessoas, buscar o eu tcndimcnto e o sign ificado de suas 
aes, escrever uni dirio da experincia de pesqLiisador com a comunidade, coletar depoini(-.ntos que narrem a vida dos sujeitos observados; enfim, o pesquusador 
deve "mcrguliiar" no espao de criao da pesquisa.

6.Z Etnografia

        Muito daquilo que consta dos estudos de comunidade foi decorrncia do aproveitamento que os socilogos fizeram da etno-

mtodos em pesquisa emprica

grafia e que, originalmente, foi o grande mtodo de fazer cincia na etnologia ou, como preferem alguns, na antropologia cultural, cincia nascida no sculo XIX 
que buscava compreender

as sociedades longnquas s quais so atribudas as seguintes caractersticas: sociedade de dimenses restritas; que tiveram poucos contatos com os grupos vizinhos; 
cuja tecnologia  pou-

co desenvolvida em relao  nossa; e nas quais h uma menor especializao das atividades e funes sociais. So tambm qualificadas dc "simples"; em conseqncia, 
elas iro permita a compreenso, como numa situao de laboratrio, da organizao "complexa" de nossas sociedades (I,aplantine, 1988: 14).

        A curiosidade de estudar e a possibilidade de comparar diferentes sociedades tribais, que estavam  margem do desenvolvi-

mento capitalista porque ainda mantinham-se distantes e isoladas das sociedades urbano-industriais, originou um novo mtodo de pesquisa emprica: a etnografia. Novo 
mtodo, pois o pesqui-

sador defrontava-se com uma realidade totalmente diversa da sua, de origem. Como compreender o outro dor ele mesmo e no belo que o pesquisador densa a seu respeito? 
Eis a grande questo do mtodo etnogrfico! Para Malinowski, um dos precursores da etnologia, tratava-se de estudar as sociedades "simples" e seus modos de produo 
econmica, suas organizaes da poltica e da justia, seus sistemas de parentesco, suas crenas e sua reli-
giosidade, suas lnguas c seus smbolos, suas criaes artsticas... Enfim, descrever uma microssocicdadc que se apresentam aos olhos do ctnlogo ou antroplogo 
como um laboratrio, que poderia explicar aspectos e desdobramentos da histria ocidental
ao compar-la com outra, diversa.
        Entretanto, o etnlogo precisou aprender a despojar-se de seus preconceitos, pois, como vimos no captulo 3, a antropologia olhou
primeiro para o outro, inferiorizando-o. Somente com muitas pesquisas  que os antroplogos souberam ver as diferenas de cultu-
pesquisa social e ao pedaggica

rs sem hierarquiz-las. E esse foi um dos mritos de Malinowski: aprendeu e ensinou os antroplogos a relativizar a sua cultura de origem para, com isso, decifrar 
os povos diferentes daquele que habitava seu "mundo" de pesquisador. Sem tal despojamento, seria impossvel compreender as sociedades dos "outros".
        Na etnografia os procedimentos de observao so essenciais ao mtodo da pesquisa emprica, pois

se  possvel, e at necessrio, distinguir aquele que observa daquele que  observado, parece-me, em compensao, impensvel dissoci-los. Nunca somos testemunhas 
objetivas observando objetos, e sim sujeitos observando outros sujeitos. Ou seja, nunca observamos os comportamentos de uni grupo tais como se dariam se no estivssemos 
ou se os sujeitos da observao fossem outros. Alm disso, se o ctngrafo perturba determinada situao, e at cria uma situao nova, devido a sua presena,  por 
sua vez eminentemente perturbado por essa situao. Aquilo que o pesquisador vive em sua relao com seus interlocutores (o que reprime ou sublima, o que detesta 
ou gosta)  parte integrante de sua pesquisa. Assim, uma verdadeira etnografia deve sempre colocar o problema das motivaes extracientficas do observador c da 
natureza da interao em jogo. Pois a antropologia  tambm a cincia dos observadores capazes de observarem a si prprios, e visando a que unia situao de interao 
(sempre particular) se torne o mais consciente possvel (Laplantine, 1988: 169).

        Desse modo, concebe-se que marxistas, fenomenlogos, estruturalistas e at inesrno positivistas faam pesquisas empricas de carter etnogrfico. Aos positivistas 
 necessrio uin esforo adicional: devem admitir a possibilidade de envolver-se com os sujeitos investigados, alm de aceitar que as condies subjetivas do pesquisador 
(suas emoes, paixes e preferncias) interfiram na pesquisa que realiza. No mtodo etnogrfico, a observao

mtodos em pesquisa emprica

dos sujeitos investigados pelo pesquisador torna-se, ento, uma observao particip ante, e esta  sua marca. Aqui, no  possvel conhecer sem estabelecer interaes 
com a realidade investigada;

deve-se: 1) entrar ria rotina dos sujeitos investigados; 2) participar de suas festas, de seus ritos e de seu trabalho; 3) conversar,

rir ou chorar junto? Ao mesmo tempo, essa interao no significa que o pesquis;dor v concordar ou aceitar tudo aquilo que ele presencia no espao de pesquisa. 
A necessidade do pesquisa-
dor de manter o distanciamento crtico com a realidade investigada  a segunda condio desse mtodo de pesquisa emprica.

Existe uma frase utilizada pelos antroplogos que define bem as questes de interao e distanciamento crtico: E preciso familiarizar-se com o estranho e estranhar 
o familiar.

        Por isso, ao mesmo tempo em que o investigador deve interagir com o contexto de pesquisa e notar as possibilidades desse seu envolvimento - propiciadas pela 
observao participante -, deve tambm saber colocar-se como um estranho, como um viajante, que sabe okservar coisas que as pessoas observadas no conseguem ver, 
dada a imerso total dessas pessoas na cultura

em anlise. Alm cjisso, o pesquisador no deve esquecer que  sempre um pesquisador, que est num espao cultural que no  o seu. Da a importncia de manter uma 
conduta tica c de respeito com os sLileitos investigados.
        Ao contrrio dos estudos de comunidade, que se reportam a uma problemtica muito especfica (a tenso emprica entre o moderno e o tradicional), o mtodo 
etnogrfico passou, no

sculo XX, a ser muito utilizado na compreenso da prpria sociedade urbano=industrial: o etnlogo olhando fiara si mesmo, observando a sua prpria cultura ocidental. 
A vantagem de ser ctnlogo em sua prpria sociedade apenas ocorrer, entretanto,

quando o pesquisador souber olhar para a realidade de modo a praticar o saber estranhar o familiar e familiarizar-se com o estranho. Desse modo, tambm  possvel 
pesquisar dada realidade
pesquisa social e ao pedaggica

escolar, utilizar a observao participante e interagir na rotina de uma escola ou sala de aula.
        Foram as pesquisas etnogrficas de vrias e diferentes escolas que permitiram a descoberta de outra e nova realidade da educao escolar, pois investigaram 
c destacaram detalhes que outros mtodos deixaram passar. Por exemplo: gangues juvenis que atuam no interior das escolas de periferia das grandes cidades; os fatores 
que fazem os profissionais da educao distanciaremse dos problemas vividos pelos alunos fora da sala de aula; ou como determinada arquitetura dos prdios escolares 
influencia no comportamento das pessoas que convivem em tais espaos.
        Por outro lado, deve-sc ter a clareza de que a etnografia por si mesma no esgota as possibilidades de pesquisa. Aqui, vale uma advertncia feita por um 
eminente antroplogo:

Pesquisando e escrevendo na mesma Inglaterra de onde o polons Malinowski sara para Trobriand, o alemo Marx invertia a questo. No  necessrio que o pesquisador 
se faa operrio ou como ele para conhec-lo.  necessrio que o cientista e sua cincia sejam, primeiro, um momento de compromisso e participao com o trabalho 
histrico e os projetos de luta do outro, a quem, mais do que conhecer para explicar, a pesquisa pretende compreender para servir. A partir da uma nova coerncia 
de trabalho cientfico se instala e permite que, a servio do mtodo que a constitui, diferentes tcnicas sejam viveis: o relato de outros observadores, mesmo quando 
no cientistas, a leitura de documentos, a aplicao de questionrios, a observao da vida e do trabalho. Est inventada a participao da pesquisa (Brando, 1984: 
12).

6.3 Estudo de caso

        O estudo de caso  definido como um mtodo de pesquisa emprica que conduz a uma anlise compreensiva de uma uni-

mtodos em pesquisa emprica

dado social significativa. Anlise corepreensvapois o signficado que os sujeitos pesquisados atribuem a suas idas, aos faimenos e s relaes sociais so um dos
centros de beno do pesquisador. Que a pesquisa incide sobre uma
unidade social significativa
a s gni ica concentrar a pesquisa cin uni obict) circunsc
tudar determinada escola e no o sistema escc ar; estuda determinado grupo de jovens, no a juventude em g ral; estuda- certas prticas religiosas mais do que as
religies coro um todo; analisar um partido poltico e no a totalidade dos partidos em im sistema poltico.
        Centrar-se na unidade social significativa implica realiaar uma pesquisa intensiva em que o investigado  percebido em ua amplitude e em sua profundidade.
Pesquisa inteisva tradu:-se em abordar relaes de modo abrangente: desde o perfil dosalunos de determinada escola at a organizao em2spaos fsicos da instituio,
por exemplo. Alm dessa amplitude, o estudo e caso deve atingir a unidade estudada em
profundidade, isto  lanar mo de vrios recursos na obteno dos dados de
pesquisa: no caso de uma instituio escolar, desde as anotaes que cmstam nos cadernos dos alunos at os documentos oficiais que i escola recebe; ou desde as conversas
com os alunos at as conver as com os funcionrios responsveis pela limpeza do cstabelemento escolar. Tal perspectiva de mtodo obriga a pesena do :)esquisador
na unidade investigada c, de modo um pouco mais simples do que na etnografia, sua interao com os
sujeitos pesquisados. Alm desses, outros aspectos devem ser considerados:

Os pesquisadores no se preocupam em buscar evidncias que comprovem hipteses definidas antes do vcio dos estudos. As abstraes se formam ou se consolidam basicamente
a partir da inspeo dos dados num processo de baixo para cima.

O fato de no existirem hipteses ou questes especfcas formuladas a priori no implica a inexistnciade um quadro te-
pesquisa social e ao pedaggica

rico que oriente a coleta e a anlise dos dados. O desenvolvimento do estudo aproxima-se a um funil: no incio h questes ou focos de interesse muito amplos, que
no final se tornam mais diretos c especficos. O pesquisador vai precisando melhor esses focos  medida que o estudo se desenvolve (Ldke & Andr, 1986: 13).

Considere-se ainda:

O estudo de caso  uma investigao que se processa sobre uma configurao de vida social apenas. E conveniente pesquisar o mesmo tema em outras configuraes - 
se se tiver em vista verificar o grau de generalidade das caractersticas apreendidas pelo estudo de uma nica (Pereira, 1976: 11).

        Um pesquisador pode, por exemplo, desenvolver um interesse temtico sobre determinadas prticas de ensino: analisar as concepes de professores de uma escola 
a respeito do processo de avaliao sobre os discentes. Esse  o interesse que conduz, neste exemplo, a busca de uma unidade social significativa. Em nosso caso, 
poder ser uma escola cuja principal caracterstica  manter altos ndices de reteno c evaso escolar. Realizados os contatos iniciais, autorizada a entrada do 
pesquisador ria escola selecionada e, ainda, com a predisposio de seus professores e alunos a colaborar com a pesquisa, tem incio o processo de interao do pesquisador 
com seus sujeitos pesquisados. Nas primeiras visitas, conversas e nas horas em que permaneceu na escola, o pesquisador descobre, entretanto, que aquela comunidade 
escolar  atingida pela violncia desencadeada por gru fios de narcotraficantes. Tal problema chega ao ponto de comprometer a regularidade das aulas, cria ameaas 
aos professores que denunciam os fatos e atinge os alunos que resistem aos meios de cooptao utilizados pelos narcotraficantes. Os atos de violncia concretizam-se 
sobre as pessoas e sobre o patrimnio da escola.

mtodos em pesquisa emprica

Teria sentido, nesse cenrio, o pesquisador insistirem sua investigaao sobre o processo de avaliao dos discentes? Utilizando sua sensibilidade e notando a gravidade 
dos problemas que afetam aquela escola, imediatamente o pesquisador se v obrigado a modificar suas intenes temticas de pesquisa: deve ento centrar seus esforos 
na compreenso da relao entre o narcotrfico ea comunidade escolar. O tema geral da pesquisa deixa de ser a avaliao para ser a violncia.
        Com esse exemplo, conclumos que um estudo de caso no  um mtodo em que o pesquisador tem de antemo (a priori) todos os elementos da pesquisa que ir 
conduzir. Uma importante caracterstica desse mtodo em pesquisa emprica  a sua flexibilidade, isto , a possibilidade de, em seu transcurso, alterar os procedimentos 
da investigao. Ainda outra questo: no  possvel que, uma vez concluda a pesquisa, seus resultados sejam generalizados na caracterizao de todas as escolas 
de uma cidade ou, menos ainda, de um pas. Em nosso exemplo, o tema que o pesquisador investigou naquela escola diz respeito apenas a uma realidade localizada. A 
"generalizao", nesse caso, seria possvel apenas se houvesse uma dezena de outros estudos de caso que apontassem para a mesma temtica; mesmo assim, as peculiaridades 
da violncia escolar iriam variarem cada escola analisada. Por isso, Pereira (1976: 11) considerou que um estudo de caso se processa sobre uma configurao da vida 
social, e a busca de generalizao das concluses requer o estudo em outras configuraes.

6.3.1 A diversidade das fontes de pesquisa

        No estudo de caso, o procedimento para obteno dos dados referentes  unidade sob pesquisa , convencionalmente, qualitativo. Entende-se por dados qualitativos 
aqueles obtidos pelas mais variadas fontes: 1) entrevistas dirigidas com roteiro de temas,
pesquisa social e ao pedaggica

questes e assuntos sobre os quais o entrevistado responde, um a um; Z) entrevistas semdirigidas o roteiro existe apenas para o pesquisador orientar-se, cabe ao 
entrevistado abordar temas, assuntos e questes de seu livre interesse; 3) dirio de campo ou de observao - caderno com o registro de tudo aquilo que o pesquisador 
presenciou e experimentou no decorrer de seu contato com a unidade investigada; 4) registro de conversas informal s - anotaes em caderno prprio de tudo o que 
o pesquisador lembra dos "bate-papos" dos quais participou ou daqueles que ouviu; 5) produo textual ou de imagens elaboradas pelos sujeitos pesquisados - o pesquisador 
pode solicitar que os sujeitos pesquisados escrevam suas opinies sobre determinados assuntos ou consultar materiais por eles escritos/desenhados; 6) gravaes sonoras 
ou de imagens - utilizar gravador sonoro ou filrnadora, com a devida permisso dos sujeitos investigados, para o registro de conversas ou entrevistas; e 7) documentos 
de qualquer espcie, quando houver - catalogao de informaes extradas de arquivos, fichas, atas, fotos, dirios etc., desde que relacionados  unidade de pesquisa.
        Lidar com diversas fontes de informao constitui, no estudo de caso, um procedimento qualitativo porque no h preocupao corri a generalizao das concluses 
obtidas a partir do exame da realidade abordada. No  possvel utilizar uma explicao localizada para compreender outras realidades que no foram abordadas num 
estudo de caso. Ou seja, no se busca um tratamento estatstico e o estabelecimento de probabilidades, pois o objetivo do pesquisador  compreender o seu caso
particular e especfico - sem se preocuparem buscar leis aplicveis a qualquer outra realidade semelhante. Se o estudo de caso fornece ao pesquisador o conhecimento 
a respeito da violncia em determinada escola, por exemplo, trata-se de pensar essa questo somente na instituio analisada. Aqui, o pesquisador no pode tirar 
concluses gerais do tipo "a violncia escolar no

mtodos em pesquisa emprica

Brasil" ou "a violncia no sistema escolar". Ao contrrio, apenas conclui: "a violncia na escola tal". Em sntese,  uma pesquisa qualitativa porque se atm apenas 
 unidade investigada e por isso pode utilizar, simultaneamente, vrios instrumentos de coleta de dados sem dar a eles uni tratamentc estatstico.
        A versatilidade dos procedimentos de coleta de dados faz o investigador deparar-se com um nmero muito grande de informaes, diante das quais poder perder-se. 
D<r ser importante proceder  seleo criteriosa: desde o primeiro momento da pesquisa, o pesquisador vai escolhendo aquilo que considera relevante, descartando 
o irrelevante.  bvio que algo tido por irrelevante pode, no decorrer do estudo, revelar-se fundamental. Por outro lado, problemas dessa natureza so evitados com 
o acmulo de experincias em pesquisa empirica. Aps alguns anos de trabalho, o pesquisador ter a sensibilidade necessria para saber que fontes ou dados so mais 
importantes que outros.
        Na realizao de estudo de caso  oportuno salientar o seu maior objetivo:

promover o confronto entre os dados, as evidncias, as informaes coletadas sobre determinado assunto e o conhecimento terico acumulado a respeito dele. Em geral 
isso se faz a partir do estudo de um problema, que ao mesmo tempo desperta o interesse do pesquisador e limita sua atividade de pesquisa a uma determinada poro 
do saber, a qual ele se compromete a construir naquele momento. Trata-se, assim, de uma ocasio privilegiada, reunindo o pensamento c a ao de uma pessoa, ou de 
um grupo, no esforo de elaborar o conhecirmento de aspcetos da realidade que devero servir para a composio de solues propostas aos seus problemas. Esse conhecimiento 
, portanto, fruto da curiosidade, da inquietao, da inteligncia e da atividade investigativa dos indivduos, a partir e em continuao do que j foi elaborado 
e sistematizado pelos (que trabalharam o assunto anteriormente. Tanto pode ser confirmado como nega-
pesquisa social e ao pedaggica

do pela pesquisa o que se acumulou a respeito desse assunto, mas o que no pode  ser ignorado (Ldke & Andr, 1986: 2).

        Mesmo que o estudo de caso tenha por peculiaridade ser unia pesquisa emprica cru que o estabelecimento de hipteses a priori e a utilizao de modelos tericos, 
sem unia referncia direta s prticas sociais, so dispensveis, vale notar que o pesquisador no pode iniciar o trabalho de campo de "mos abanando". E preciso 
que haja problemas (questes pouco ou mal respondidas em outras pesquisas semelhantes) a ser investigados. Tambm faz-se necessrio o domnio de conceitos inerentes 
s cincias humanas com as quais o pesquisador lida (sociologia, antropologia, histria, psicologia etc.). Fernandes j advertiu:
Sc os dados imediatos da experincia pudessem apreender, de forma direta, esses aspectos da realidade, os procedimentos analticos seriam dispensveis. [...] Como 
isso no ocorre, os procedimentos analticos servem de instrumento e de guia  nossa capacidade de percepo e inteleco do prprio mundo em que vivemos e das bases 
reais do nosso comportamento (1986: 95).

        Essa advertncia indica que a pesquisa empirica no  mera descrio do real como este se apresenta aos olhos do investigador. Ao contrrio,  preciso que 
tais "olhos" sejam municiados de instrumentos analticos: conceitos, teorias, concepes de filosofia, entre outros. A teoria no estudo de caso no deve converter-se 
num modelo rgido como uma "camisa-de-fora" -, mas, por outro lado, tambm no  dispensvel. Sem as referncias tericas que so construdas antes mesmo do momento 
da pesquisa, no  possvel realizar um estudo de caso.

6.4 Histria de vida

        A histria de vida  um mtodo em pesquisa emprica que utiliza o trabalho de memria. Definindo a memria como a

124

mtodos em pesquisa emprica

faculdade da inteligncia de reter idias, impresses e conhecimentos adquiridos anteriormente, a atividade do investigador aqui consiste em "fazer vir  tona" o 
maior nmero possvel de informaes do sujeito pesquisado a respeito de sua vida. Tratase de colher, por meio de gravao sonora ou filmagem, a narrativa do sujeito 
pesquisado: o modo como ele reinterpreta seu passado por recortes mediados pelo acmulo de experincias adquiridas, por sua viso de mundo, por seus valores/projetos, 
tudo isso orientado pelas vivncias do presente. Ou seja, o passado nunca  descrito de modo a saber-se o passado, mas a partir de uma viso particular e localizada 
de mundo (a do sujeito pesquisado) e com referncia ao presente.

        A procura dos sujeitos que narram suas vidas , no contexto da caracterizao desse mtodo, um procedimento fundamental. Uma vez definido o tema geral de 
pesquisa c sua hiptese,  preciso localizar depoentes que sejam pessoas si gni ficativas. Isso se obtm por informaes prvias, que o pesquisador coletou antes 
de iniciar as gravaes das histrias de vida. Por pessoas significativas entendem-se os sujeitos portadores de referncias precisas em relao ao tema e  hiptese 
escolhidos e que integram, pelas razes apresentadas pelo pesquisador, o grupo de narradores investigados. No caso de pesquisa a respeito da escolarizao formal, 
localizada em uma cidade e vivida h cinqenta ou sessenta anos, por exemplo, no cabe selecionar pessoas que viveram nesta cidade por um curto perodo (dois ou 
trs anos). Ao contrrio, aqueles que viveram por dcadas podem abordar o tema em questo com maior nmero de informaes.
        Na escolha das pessoas significativas, igualmente vale ter claro o lugar social vivido pelo narrador na poca enfocada e na atualidade: lembram da escolarizao 
na condio de alunos, na condio de fiais, de professores ou de administradores? Ter clara que a questo do gnero ou da etnia influencia no modo como olharo 
para o passado: uma mulher dir coisas que no so percept-
pesquisa social e ao pedaggica

veis no universo masculino; um afro-brasileiro ter experincias diferentes para narrarem relao s experincias de uni imigrante portugus, por exemplo. Tambm 
a situao de classe tem o seu valor: uni trabalhador manual lembrar de unia escolarizao bem diversa daquela vivida por quem foi ou  empresrio, e assim por 
diante. Escrevendo sobre a prtica do registro de histrias de vida ria rea da educao, Demartini acrescenta:

E impossvel, a nosso ver, realizar entrevistas utilizando como entrevistadores pessoas que no estejam profundamente rteressadas nos temas pesquisados. Neste caso, 
considera-se o risco de obter-se informaes valiosas, enquanto registro de uma poca, mas que contribuem muito pouco para a discusso dos problemas propostos.  
muito fcil c interessante escutar os relatos dos professores - o difcil , enquanto pesquisador, resolver na situao mesma da entrevista a questo de tentar aprofundar 
os relatos em alguns pontos, sem com isso truncar os depoimentos, interferir no ritmo de suas recordaes ou direcion-las para alguns aspectos apenas. A esse respeito, 
a experincia mostrou-nos que a liberdade de expresso dos entrevistados  fundamental, pois de temas os mais variados c sem relao direta com os problemas por 
ns pesquisados brotaram muitas inforinacs valiosas (1988: 60).

        O trabalho com a memria, que est na base da coleta das histrias de vida, leva o pesquisador a uma situao de entrevista em que o depoente narra integralmente 
a sua vida. Mesmo que o tema geral da pesquisa seja a caracterizao do cotidiano escolar de unia localidade lia cinqenta ou sessenta anos, o depoente no deve 
comear a narrar sua experincia escolar, e sim sua infncia, descrever a famlia, os amigos, a juventude, o trabalho, os problemas, conflitos, projetos, sonhos 
e realizaes. Desse modo, a coleta de histrias de vida no tem uni roteiro prvio, que o pesquisador poderia utilizar para conduzir a entrevista. Ao contrrio, 
quanto menos dirigir e intervir na fala do outro, melhor.

mtodos cem pesquisa emprica

Tal caracterstica aponta para o fato de que uma nica conversa com o depoente no ser o suficiente; para que a histria de vida se construa, sero necessrios
vrios encontros; por isso,  comum o pesquisador lidar com umi nmero menor e selecionado de pessoas e, por outro lado, aprofLandar-se mais em cada histria colhida.
        Outro aspecto a considerar, o lembrar como processo de reconstituio e rc-significao do passado revela que a memria dos sujeitos pesquisados  mltipla, 
constitui-sc de elementos msticos, conceitos cicntfWos, valores, preconceitos, viso crtica, viso ingnua etc. Assim, ,organizando-se por noes heterogneas, 
a memria  capaz d e apresentar elementos que tambm questionam as concepes aparentes. E possvel buscar nas histrias de vida os aspectos crticos que contradizem 
a viso idealizadora do passado. No aprofundamento de suas falas, os entrevistados narram casos nos quais  pc)ssvcl encontrar contradies daquilo que afirmaram 
anteriormente. Isso porque o trabalho de memria apresenta um primeiro lembrar que  conservador/nostlgico: idealiza-se o passado para, por meio dele, valorizar 
a histria pessoal. Ao dignificar temas e con textos do passado, o entrevistado se dignifica. Porm, o trabalho de memria no se esgota na idealizao do passado. 
Ao aprcfunar a narrativa, o depoente coloca fatos/situaes/detalhes do cotidiano em que  possvel notar os liniitcs daquela primeira lclnbzan a. No s o sujeito
pesquisador  capaz de perceber a heterogeneidade do trabalho de memria; tambm o entrcvistadc o p ercebe e, assim, a coleta da histria de vida pode converter-se
no momento da tonutdet de cons-
cIncia das contradies pr.-sciites nos casos narrados.
IC
        A dinmica do trabalho de memria leva o pesquisador a lidar com pessoas idosas e iorn.-las seus infornoantcs privilegiados. Sobre os limites e as pessil-)ilidades
dessa dn mica, o exemplo de situao de pesquise  relatado:

        Fm alguns casos, certas] ifiCuldades prprias  idade, chie limi-
        tavam a conversa, ou a;rav ao. assim, alguns narradores es-
pesquisa social e ao pedaggica

tavam um pouco surdos, e nossas perguntas nem sempre ficavam claras. Em outros casos, sua voz estava debilitada, ou rouca, ou ainda, como uma informante, sofria 
de asma; nestes casos, a gravao saa prejudicada, implicando um trabalho posterior bastante grande para o pesquisador. Alguns poucos estavam com o corpo fraco, 
e as entrevistas mais longas os deixavam cansados. Mas esta no era a norma, pois, ao contrrio, geralmente era difcil terminar a entrevista, saindo a pesquisadora 
mais cansada que os entrevistados, ao seu final.

Por se referirem a pocas muito remotas, sobre as quais muitos dos informantes h muito no tinham oportunidade de falar, as emoes eram muito freqentes: sofriam 
e ao mesmo tempo alegravam-se com as recordaes que lhes vinham  memria. Tais situaes exigiam do entrevistador muita habilidade, o que se tornava s vezes difcil, 
pois o prprio pesquisador emocionava-se com os relatos (Demartini, 1988: 58).

        Com origem na psicanlise e na psicologia social, o mtodo da histria de vida em pesquisa emprica  utilizado com certa freqncia ria sociologia e na 
pedagogia, entre outras cincias humanas. Vrios pesquisadores utilizam esse mtodo por no desconsiderarem a subjetividade do sujeito que narra e at por definirem 
tal subjetividade corno um trao essencial das cincias humanas. As emoes, as expresses faciais, o comportamento, as manifestaes c os traos de carter so 
elementos que afloram no momento da entrevista e possuem relao com o contedo oral da narrativa. Por isso  comum que o pesquisador tambm registre os aspectos 
da subjetividade que emergem durante a fala daquele que narra. A partir da reflexo sobre os aspectos subjetivos,  possvel encontrar pistas para o significado 
das aes passadas.
        Por suas peculiaridades e para tornar-se vivel, a histria de vida envolve urrr nmero restrito de informantes: trata-se com poucos e, a cada um, com a 
maior profundidade possvel; pois,

mtodos em pesquisa emprica

mais que buscar nos elementos particulares (do sujeito que narra) uma explicao para a totalidade (da sociedade, da histria), busca-se entender a totalidade (da 
sociedade, da histria) em sua manifestao em elementos particulares (do sujeito que narra).

6.5 Depoimento

        O depoimento consiste em um mtodo de organizao da coleta de dados a respeito de determinado tema e a partir da realizao de entrevistas no-diretivas 
ou semi-estruturadas. Diferente da histria de vida, em que o trabalho de memria  levado  exausto na reconstruo da narrativa de vida do sujeito investigado, 
o depoimento prope um corte de tempo c de espao nessa narrativa. Isto , de posse do tema de sua investigao, o pesquisador localiza sujeitos significativos que 
narrem suas experincias apenas em relao ao tema proposto. Por exemplo, em uma investigao sobre o comportamento poltico de professores, o depoimento deve organizar-se 
de modo a levar o sujeito investigado a narrar suas experincias docentes que considera polticas; quando o tema so as concepes cm torno da elaborao de livros 
didticos, o pesquisador pode eleger seus autores como informantes privilegiados e solicitar que narrem suas experincias enquanto profissionais produtores de tal 
material pedaggico. Nesses dois exemplos de temas, processa-se um "corte" na memria daquele que narra, pois no est em questo discutir os vrios aspectos da 
vida do depoente, mas somente aqueles relacionados a um tempo c a um espao de sua vida. Por isso, o depoimento se faz pela entrevista no-diretiva. Para Thiollent,

a entrevista no-diretiva, contrariamente  dirigida, no prope ao entrevistado uma completa estruturao do campo de investigao:  o entrevistado que detm a 
atitude de explorao do tema. A partir da instruo transmitida pelo pesquisador, por

129
pesquisa social e ao pedaggica

exemplo: "Pode me dizer o que a poltica e os partidos polticos representam para voc?", o entrevistado define como quiser o "campo a explorar" sem se submeter 
a uma estruturao predeterminada (1982: 85).

        Desse modo, enquanto a histria de vida  um inventrio completo e a enquete (que abordaremos a seguir) uma entrevista com um conjunto de perguntas s quais 
o investigado responde uma a uma, o depoimento, por sua vez, nem se prope a inventariar e nem  uma entrevista predeterminada. Situando-se no meio-termo desses 
dois plos, o depoimento possibilita entrevistar um maior nmero de sujeitos sem tornar-se uma entrevista de carter estatstico - o que requereria tratamento especfico, 
por amostragem.
        Considere-se ainda que o depoimento  um mtodo que se associa a outros, sobretudo ao estudo de caso. O carter qualitativo do depoimento conduz o pesquisador 
ao trato com as concepes de mundo, os valores e as narrativas dos sujeitos investigados, capazes de explicar aspectos de suas prticas e das interaes sociais 
passadas ou presentes. Aprofundando essa questo, Michelat pondera:

Numa pesquisa quantitativa,  a amostra, constituda por indivduos escolhidos ao acaso, que  considerada como representativa. Ela , de algum modo, um modelo reduzido 
da populao total, na qual os diferentes grupos sociais se encontram com os pesos respectivos que tm na populao. Numa pesquisa qualitativa, s um pequeno nmero 
de pessoas  interrogado. So escolhidas em funo de critrios que nada tm de probabilistas e no constituem de modo algum uma amostra representativa no sentido 
estatstico. ;, sobretudo, importante escolher indivduos os mais diversos possveis. E, na verdade, em funo do que dissemos mais acima,  o indivduo que  considerado 
como representativo pelo fato de ser ele quem dctrn uma imagem,

mtodos em pesquisa emprica

particular  verdade, da cultura (ou culturas)  qual pertence. lenta-se apreender o sistema, presente de um modo ou de outro em todos os indivduos da amostra,
utilizando as particularidades das experincias sociais dos indivduos enquanto reveladores da cultura tal como  vivida (1982: 199).

        Em sntese, no  o fato de o depoimento (e tambm os
demais mtodos da pesquisa emprica abordados neste texto at
o momento) ter carter qualitativo que o invalida enquanto pro
duto de uma cincia. Para o conhecimento cientfico entendido
na perspectiva do positivismo, no h dvida de que um mtodo
qualitativo  aceito sob suspeita, pois nessa perspectiva busca-se
transformaras cincias humanas em cincias naturais; os fenme
nos devem ser compreendidos na medida em que podem ser me
didos, comparados e quantificados. Da aquilo que no pode ser
expresso matematicamente no ser reconhecido como cincia.
Por outro lado, no marxismo, na fenomenologia e no estruturaiismo,
apesar de suas grandes diferenas na definio do carter do co
nhecimento e da .EL guisa, o mtodo qualitativo  definido como
to cientfico quanto o quantitativo, pois, como afirma Michelat,
cada individualidade (o particular) carrega em si os elementos da
cultura (a totalidade) na qual se insere e, assim, as pesquisas com,
mtodos qualitativos "tentam apreender o sistema, presente de
um modo ou de outro em todos os indivduos da amostra, utilizan
do as particularidades das experincias sociais dos indivduos
enquanto reveladores da cultura tal como  vivida".
        A entrevista no-diretiva, semi-estruturada ou, como preferem outros, no-padronizada  aquela que caracteriza o depoimento cm mtodos qualitativos: abordar 
o tema da pesquisa cole entrevistas que, apesar de seguirem um roteiro elaborado previamente e com subtemas do interesse do pesquisador, garantem aos sujeitos pesquisados
uma livre manifestao de pensamento c de opinio. Nessa modalidade, espera-se que
um nmero um
pesquisa social e ao pedaggica

pouco maior de entrevistas sejam realizadas em relao ao mtodo da histria de vida.
Na coleta de um depoimento, de incio,  importante atentar para o carter de interao que permeia a entrevista. Mais do que outros instrumentos de pesquisa, que 
em geral estabelecem uma relao hierrquica entre o pesquisador e o pesquisado, como na observao unidirecional, por exemplo, ou na aplicao de questionrios 
ou de tcnicas projetivas, na entrevista a relao que se cria  de interao, havendo uma atmosfera de influncia recproca entre quem pergunta c quem responde. 
Especialmente rias entrevistas no totalmente estruturadas, onde no h a imposio de unia ordem rgida de questes, o entrevistado discorre sobre o tema proposto 
com base nas informaes que ele detm e que no fundo so a verdadeira razo da entrevista. Na medida em que houver um clima de estmulo e de aceitao mtua, as 
informaes fluiro de maneira notvel e autntica (Ldke & Andr, 1986: 33).

        Registre-se ainda que o relato contido num depoimento no se confunde e nem deve ser tomado pelo pesquisador como fonte nica e unilateral da verdade e da 
explicao do real. Como afirma Fernandes, "[...J se os dados imediatos da experincia pudessem apreender, de forma direta, a realidade, os procedimentos analticos 
seriara dispensveis". Como isso no ocorre, continua o autor, "os procedimentos analticos servem de instrumento e de guia  nossa capacidade de percepo e inteleco 
do prprio mundo em que vivemos e das bases reais do nosso comportamento" (1986: 95). Simplificando, o depoimento tomado como sinnimo do real tornaria a cincia 
intil: por que pesquisar se a oralidade das pessoas j explica o mundo? Porm, tal indagao no  verdica, porque o depoimento contm apenas um ponto de vista 
que precisa ser questionado e reinterpretado pelos mtodos de conhecimento de que o pesquisador dispe, como bem advertiu Fernandes.

132

mtodos em pesquisa emprica

6.6 Enquete

        Denominamos enquete o mtodo quantitativo em pesquisa emprica que lida com um grande nmero de informante, com objetivos definidos a respeito da informao/opinio 
que se quer obter dos sujeitos entrevistados ou como instrumento preliminar da explorao temtica a ser trabalhada posteriormente - com uma parcela selecionada 
do total dos sujeitos investigalos e, desse modo, utilizando os mtodos qualitativos.
        A enquente lida com questionrios estruturados, dirgidos ou padronizados, isto , antes de qualquer contato com o universo de sujeitos a serem entrevistados, 
o pesquisador elabo-a um conjunto de perguntas cujas respostas podem ser mensuradas, quantificadas.
        Todo questionrio  organizado era partes, indo de perguntas reais gerais a mais especficas. Uma caguete primeiro Flentifica no entrevistado sua localidade 
de origem, idade, sexo, profisso, renda familiar, entre outros dados. Em seguida, faz-se as perguntas relacionadas ao tema de pesquisa: comportamento sexual, violncia 
escolar, inteno de voto em determinadas eleies, opinies a respeito de temas polmicos etc. Essa segunda parte do questionrio exige que o entrevistado responda 
de modo sinttico e objetivo, por isso as perguntas que lhe so dirigidas tambm so sintticas e objetivas. E comum apresentar questes cujas respostas apresentam-se 
na forma de mltipla es-olha, facilitando quantificao posterior dos dados.
        O censo demogra fico, aplicado periodicamente pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatstica (IBGE), o censo escolar, empregado pelo Ministrio da 
Educao e Desporto, c as modalidades de avaliaes das condies de sade da populao,entrc outros, constituem-se em exemplos de caguete estatstica. Devem-se 
somar ainda a essa modalidade de mtodo em pesquisa emprica os estudos vinculados ao marketing de bens de corsumo

133
pesquisa social e ao pedaggica

ou as pesquisas de inteno de voto e prvias aos processos eleitorais. Genericamente, o objetivo  a avaliao de determinados contextos, sejam econmicos, polticos, 
culturais ou sociais. Tal avaliao, entretanto, tem a pretenso de abordar populaes inteiras e, por isso, o mtodo  quantitativo:

Quando se pretende levantar rpida c superficialmente as tendncias eleitorais ou as preferncias por determinados produtos de mercado, ento  o caso de se aplicar 
uma entrevista padronizada, que permita reunir em curto espao de tempo a opinio de um grupo nunierosos de pessoas (Ldkc & Andr, 1986: 35).

Portanto,

Numa pesquisa quantitativa,  a amostra, constituda por indivduos escolhidos ao acaso, que  considerada como representativa. Ela , de algum modo, um modelo reduzido 
da populao total, na qual os diferentes grupos sociais se encontram com os pesos respectivos que tm na populao (Thiollent, 1982: 199).

        A validade da enquete estatstica ocorre quando a organizao da amostragem - o nmero de informantes representativos da Populao total abrange indivduos 
das mais diversas origens socioeconmicas, escolhidos de modo aleatrio, isto , ao acaso, mas respeitando-se os devidos pesos de representao socioeconmica c 
cultural. Por exemplo, pessoas de menor renda so entrevistadas em maior nmero do que aquelas com maior poder aquisitivo, pois a populao total  composta por 
uni nrmeu-o maior de pessoas de baixa renda; pessoas com menor grau de instruo tm peso diferente daquelas com maior escolarizao, e assim por diante. Portanto, 
a enquete estatstica est preocupada com o rigor de sua organizao porque se prope a mensurtir, medir c quantificar opinies ou contextos de vida.
        Por outro lado, existem enquetes que no pretendem ser-rigoroscas, na acepo estatstica do termo. Uru nmero significativo

mtodos em pesquisa emprica

delas tem por objetivo "explorar" opinies ou contextos de vida que serviro  organizao de futuras pesquisas qualitativas. A enquete exploratria, nesse caso, 
leva o pesquisador a claborarhipteses sobre o tema que pretende desenvolver. A aplicao de um questionrio padronizado a uni grande nmero de pessoas permite obter
uma viso geral do tema em questo. Num segundo momento da pesquisa, o tratamento do tema pelas hipteses levantadas com os resultados do questionrio padronizado)
ser aprofundado com a seleo de uni pequeno grupo de informantes destacado do universo de pessoas que responderam  enquete. Com esse pequeno grupo, o pesquisador
utilizar -.rm mtodo qualitativo.
        Por exemplo: uma pesquisa cujo -erra geral  investigar aspectos da formao de professores do ensino fundamental em determinado municpio. O uso de questionrio 
padronizado permitiria ao pesquisador colher opinies preliminares de 1% a 5% do total de professores que atuam profissionalmente na cidade em questo. O pesquisador 
teria em mos uma soma considervel de informaes, que facilitaria o levantamento das hipteses de Pesquisa. Vamos supor, ainda em nosso exemplo, que a organizao 
c a leitura dos dados obtidos no questionrio padronizado apontem para uni fato que, inicialmente, passou despercebido: que papel o uso do livro didtico tem na 
formao do professor? Tal indagao seria confirmada ou no; ampliada; reduzida ou reclaborada no momento em que o pesquisador trabalhasse com depoimentos sobre 
uni pequeno grupo daquela amostra de 1% a 5% de professores que responderam  enquetc, digamos O,Z5%. Talvez o pesquisador "descobrisse" que, ao organizar suas aulas, 
a categoria de professores em questo utiliza-se rnais dos ensinamentos contidos no livro didtico do que aqueles acessados no perodo de formao acadmica. Ao 
lado desta proposio, talvez percebesse que um nnicro significativo dos depoentes , tambm, recm-ingresso no exerccio da profisso: alm de formar-se pelo uso 
do livro didtico, utiliza-se das conversas
pesquisa soe%Jal e ao pedaggica

e conselhos recebidos de professores mais antigos nas instituies
escolares em que lecionam. Tais ponderaes contribuiriam para uma reflexo mais profunda
das conseqncias do uso do livro didtico na formao de professores ou do papel da universidade nessa formao, entre ouras possveis consideraes.
        O objetivo desse breve exemplo, indica ser satisfatrio
convergir aplicao da enquete com o depoimento, pois a primeira pode ter
uma funo exploratria
do tema da pesquisa, e a segunda, garantir o aprofundamento e a confirmao de hipteses em contextos mais bem localizados.
Em sntese, mtodos quantitativos
e mtodos qualitativos no esto necessariamente contrapostos,  possvel a
realizao de pesquisa em que o investigador saiba fazer um bom e simultneo uso desses
dois mtodos, desde que conhea as possibilidades e os limites de cada um deles, percebendo o contexto oportuno para sua aplicao.

Para refletir

Todo Mtodo em pesquisa emprica leva  obteno de informaes a respeite do objeto investigado. Tais informaes, entretanto, aparecem de fornia dispersa e fragmentada. 
O trabalho de anlise dos dados obtidos  uhia etapa fundamental da pesquisa. O texto que reproduzimos abaixo -Iprofunda a discusso dessa inter-relao entre as 
informaes coletadas e o processo de anlise:

O essencial, e que precisa ser retido na presente discusso,  que o
sujeito-investigador no procede de forma arbitrria ou "livre", mesmo nas fases exploratrias
da investigao. O levantamento de dados brutos, seu tIatainento crtico e a manipulao analtica
        -i dos materiais com signficao postiva ligam-se, de modo inelutVel, a alvos cognitivos mais profundos e amplos, fornecidos pelas prnposicies iniciais 
dos projetos de pesquisa. Desde que o sujeito-nivestigador possua urvla noo clara do que pretende "conbeccr" e "explicar", inipoe-se lidar com certos tipos de 
dados brutos; coto as tcnicas de inNestigao por meio das quais aqueles dados Podem ser levantados, expurgados e classificados; e com os mto-

mtodos em pesquisa emprica

dos de investigao adequados  natureza das evidncias enyPricas coligidas e ao seu tratamento analtico. Em particular, suas al Lvidadcs cognitivas, como e enquanto
observador, passam a inspirar-sc em objetivos lgicos inerentes aos propsitos tericos da
pesquisa. Com isso, duas conseqncias importantes se revelam com nitidez.
]primeiro, que a manipulao analtica dos dados brutos, a Qlarborao das instncias empricas relevantes para a construo (]: tipos empricos e a formulao
de "generalizaes empricas" eus(-3lvem princpios lgicos, derivados do sistema de referncias, implcita ou explicitamente explorado na pesquisa. Segundo, que 
todo lprojeto de pesquisa pressupe um mnimo de princpios lgicoss que do ao sujeito investigado a possibilidade de reconstruir o corncrcto atravs de categorias
abstratas, mas empiricamente vlidas, produzidas por meio da anlise.

(IaNm, Octvio (org.). Florestan Fernandes. So Paulo: tica, 1986, p. 89 - coleo Grandes Cientistas Sociais.)

137
Captulo 7

Exerccios e vivncias

        Na Apresentao deste livro, mencionei que seu objetivo  apresentar aos leitores, de forma didtica, os principais
conceitos e mtodos que orientam as prticas
de pesquisa. No captulo 1, A pedagogia como cincia , evidenciei a necessidade de pensar-
mos a formao do professor e do pedagogo como atividade que deve incorporar a prtica da pesquisa. No se trata
de transformar pedagogos e professores em pesquisadores,
mas, repito, de incorporar alguns dos princpios de pesquisa na formao desses profissionais.
Desse modo,  possvel construir com os sujeitos da

ao, professores e pesquisadores para que atuem na educao.

        Educar com a pesquisa contribui para a modificao da con
bcepo, do planejamento, dos objetivos e da organizao de projetos vinculados s prticas escolares. Assim, o contedo proposto at o presente momento pretendeu
oferecer subsdios conceituais para a reflexo dos pressupostos do fazer pesquisa. Neste captulo, o principal objetivo  experimentar a partir de algu-
mas tcnicas de interao - situaes que levem a pensar em
pesquisa social e ao pedaggica
        exercCios e vivncias

algumas qualidades necessrias para uma postura inventiva e criadora, inerente  cincia.
        Em vrios momentos dos cursos de pedagogia, sociologia, servio social, tambm nas diversas licenciaturas c mesmo no ensino mdio, encontramos a possibilidade 
da realizao de estgios ou lidamos com disciplinas propicias  experimentao. Pretendemos aqui indicar exerccios e vivncias que podem ser praticados nesses 
momentos citados, pois a discusso do significado da cincia e do fazer pesquisa deve revelar possibilidades de experimentar algumas prticas inerentes ao fazer 
pesquisa, tais corno: observar contextos, ouvir sujeitos pesquisados, colher dados, organizar e problematizar dados, elaborar hipteses. Quando educamos nossa sensibilidade 
com elementos oriundos da prtica de pesquisa, redimensionamos nossa prtica profissional.
        O que apresentamos a seguir nada mais  do que um conjunto de exerccios para desenvolver nossa sensibilidade e visar a uma postura investigadora nas prticas 
sociais. Tais exerccios constituem-se a partir de alguns jogos e tcnicas que devem ser postos  prova cm contextos determinados. Passemos a eles.

7.1 Praticando a observao participante

LOCAL: Sala de aula da 5 srie do ensino fundamental.
ATIVIDADE: Observar e anotar tudo aquilo que ocorrer em aula. Pedir Autorizao da direo do estabelecimento escolar e dos professores que lecionam
na sala em questo.
TEMPO: Cinco dias consecutivos por um perodo parcial (matutino, vespertino ou noturno).
COMENTRIO: No  aconselhvel realizar essa atividade por um perodo menor ao mencionado, pois  preciso que os sujeitos observados acostumcin-se com a presena
do sujeito observador em sala de aula, estabelecendo um clima de espontaneidade nas interaes que ocorrerem nesse espao. O contexto ideal

140

 aquele em que alunos e professor consigam "esquecer" a presena do sujeito observador. Portanto,  fundamental que ele no interfira nas interac)es que presenciar, 
mantendo-se discreto e em silncio, apenas anotando suas observaes. MAFERIAL: Bloco ou caderno de anotaes.

OBSERVAR/DESCREVER:

1. Todos os objetos contidos na sala de aula
2. O espao fsico c a disposio dos objetos
3. Corno os objetos so manipulados
4. Ventilao e iluminao do ambiente
5. Materiais pedaggicos em uso
6. Corno o quadro-negro  utilizado
7. Corno as pessoas se vestem
8. Corno gesticulam e como usam o olhar

9. 0 que falam e como falam (contedos e entonaes)

Valeres e crenas enaltecidos e/ou rcpiovados.

11. Normas ou regras de convivncia
12. Gestos, atos e falas considerados

consensuais

13. Conflitos
14. Transgresses
15. Gestos c falas de solidariedade
16. Me(--allismos de colaborao c ajuda mtua
17. Lideranas
18. Corno os presentes observam a si mesmos

Avs A OBSERVAO: Partilhar com os colegas e com o professor (que orienta suas atividades de formao) os resultados obtidos por meio da atividade realizada.
COAFNTRIO: Caso no seja possvel observar e realizar as anotaes simultaneamente,  importante que o sujeito observador escreva tudo o que lembrar imediatamente 
aps sair da sala de aula.
Tais anotaes devem assemelhar-se  descrio de uma pintura


pesquisa social e ao pedaggica        exerccios e vivncias

        ou de unia paisagem. Nesse momento, o observador deve evitar        MArh,RIAl,: Gravador de udio, fitas cassetes e bloco de anotaes.
        as concluses e fazer apontamentos daquilo que considera nele-        O(vIR/GRAVAR:        1. Explicar as razes do trabalho (acionar o gravador
        vante. Note-se bem que na observao participante o ponto de                                de udio)
        vista do observador no deve aflorar: o que importa  captar o                        2. Pedir que conte as coisas mais importantes que
        ponto de vista do outro, esforando-se por aceit-lo como se apre-                                ocorreram na vida
        senta e descrevendo-o. Isso no significa que tal descrio seja                        3. Indagar sobre lembranas da infncia, famlia
        catica,  preciso buscar uma ordenao daquilo que  observa-                                c amigos
        do, isto , trata-se de buscar os sentidos e significados da ao                        4. Deix-lo  vontade para falar o que lhe convier
        dados pelos prprios observados. O observador pode relatar aqui-                        5. No interromper a fala do outro
        lo que mais lhe pareceu estranho e, tambm, o que considerou                        6. Em momentos oportunos, indicar as questes de
        normal. O importante  evitar que os pr-julgamentos, as pr-                                interesse do trabalho, que podem ser aprofundadas
        noes, as pr-concluses e os preconceitos tornem "mopes os                        7. Caso o tema em questo seja a educao escolar:
        olhares do observador" diante da realidade em questo.                                7.1. Procurar saber sobre caractersticas das esco
                                                las freqentadas
                                        7.2. Pedir descrio dos bons/maus professores
7.2 Praticando a coleta de depoimentos                                7.3. Lev-lo a falar dos amigos, de suas conversas
                                        7.4. Lembrar os bons e maus momentos escolares
LOCAL: Instituio asilar de idosos (albergue, clnica de repouso,                                7.>. Pedir descrio das aulas, do material pedaggico
        asilo de caridade, casa de amparo ou de assistncia social).                                7.6. Solicitar comentrios a respeito das formas
AI IVIDAOE: Ouvir e gravar a fala do sujeito-que-narra.                                        de avaliao
PR-REQ1 rISITO: Autorizao da direo da instituio asilar esco-                                7.7. Pedir para rclcmbrar como era o espao fsico
        lhida e consentimento do idoso escolhido para a entrevista.                                7.8. Pedir a narrao de jogos, brincadeiras, valores,
TRN9PO: Duas ou trs visitas com durao mdia de duas horas                                        normas
        cada uma.                        8. Se alguma questo for evitada pelo sujeito que
COXIFNTARIo: Geralmente os idosos de instituio asilar so sol-                                narra, no insistir
        eitos e apreciam uma boa conversa, mesmo com pessoas que                        9. !Quando o narrador deter-se em questo que no
        no sejam de sua famlia. Muitas situaes de solido fazem                                seja do interesse do ouvinte, no o interromper
        com que tais pessoas encontrem no sujeito ouvinte um compa-                        10. No ter pressa
        nheiro, por isso as atitudes de respeito e pacincia so impres-                        11. Se necessrio, voltar outro dia e continuar a
        cindveis. O acmulo de vivncias passadas torna rica a me-                                ouvi-lo
        mria do idoso - tudo aquilo que narrar pode conter dados        Aps OUVIR: Transcrever as fitas gravadas e fornecer uma cpia
        vlidos aos que procuram trabalhar com as tcnicas de histria                ao entrevistado. Depois, partilhar com os colegas e com o pro
        oral. Porm,  preciso lembrar de procurar uni idoso que no                fessor (que orienta as atividades de formao) os resultados
        tenha problemas graves de sade ou de memria.                obtidos com a atividade.
pesquisa social e ao pedaggica

COMENTRIO: O processo de transcrio das fitas gravadas com a narrativa  longo e penoso. Mesmo assim, por ocasio da transcrio  importante no perder nenhum 
detalhe da fala do outro. Pode-se, tambm, registrar as emoes vividas pelo sujeito-que-narra ao longo de sua exposio; nesse caso, escrever entre parnteses no 
texto transcrito as notaes pessoais. O menor detalhe pode revelar-se importante na reflexo sobre a narrativa.

7.3 Praticando a coleta de documentos

LOCAL: Sede de sindicato ou associao de professores da rede municipal ou estadual.
ATLvIDADE: Consultar e ler documentos.
PR-REQUISITO: Autorizao da direo da entidade de classe em questo.
TEMPO: Duas a trs visitas de trs ou quatro horas cada uma.
CobIENTRiO: Trata-se de, ao explicar os motivos e intenes da atividade, obter o consentimento para a consulta c a leitura de materiais ou documentos impressos 
pela entidade de classe visitada. Pode ocorrer urn clima de desconfiana ein relao quilo que se pretende core a visita. Por conta desse "clima"  provvel que 
tanto funcionrios como diretores da entidade apresentem uns poucos documentos para leitura, oferecendo mais os jornais ou boletins informativos da instituio. 
Tal material impresso no deixa de ser importante;  preciso ler todos. Por outro lado,  medida que se estabelecer um clima de confiana e respeito mtuos,  provvel 
que se possa ter acesso a outros tipos de documentos. Dado o grande volume de material escrito a ser encontrado, vale definir um tema de orientao para a leitura 
e as anotaes a serem feitas.
MATERIAL, NECESSRIO: Bloco ou caderno de anotaes.
SUGESTO DE TEIA ORIENTADOR DA LEITURA: A educao sindical de professores.

exerccios e vivncias

LEr, ANOTAR DADOS DO TEMA CONTIDOS EM:

1. Jornais
2. Boletins
3. Cartazes
4. Folders
5. Correspondncias
6.Atas de assemblias
7.Atas de reunies
8.Aes judiciais
9. Projetos
10.Acordos coletivos
11. Legislao
APS LER E ANOTAR: Estabelecer critrios de seleo, divididos em
subtemas, sob os quais sero catalogadas as informaes obtidas. Sugesto: 1) projetos de educao
sindical; 2) cursos; 3) seminrios e palestras; 4) aes educativas; 5) estratgias de mobilizao da categoria; 6) caractersticas da estrutura e material disponvel
 formao sindical; 7) materiais pedaggicos de formao. COMENTRIO: Terminadas as atividades de leitura e a catalogao dos dados, solicitar autorizao  direo 
da instituio visitada e reproduzir cpia dos documentos que foram catalogados. Em seguida, organizar o material c apresent-lo aos colegas c ao professor (que 
orienta as atividades de formao).

7.4 Organizando e problematizando

        Os exerccios anteriores podem ser experimentados por pequenos grupos de alunos, cada qual detendo-se em uma atividade especfica. Assim, enquanto alguns 
grupos observam, outros ouvem e ainda outros lem. Aps realizarem a partilha do proposto,  importante cumprir, agora, outra etapa: a organizao do material obtido 
e sua problematizao.
        O primeiro passo consiste em reunir todos os pequenos grupos que observaram para ler/discutir/reler as diferentes notaes
pesquisa social e ao pedaggica

que possuem; o mesmo deve ser feito entre os que ouviram e entre os que leram. Essa atividade deve ser permeada pelo levantamento de categorias: nesse caso em particular, 
identificar as palavras-chave que contribuem para dividir as notaes ern partes a serem, depois, reagrupadas em subterras.
        A respeito da prtica de organizar o material obtido com exerccios de pesquisa empirica, Ldke & Andr observam:

Para formular essas categorias iniciais,  preciso ler c reler o material at chegar a uma espcie de "in~pre~nao" do seu contedo. Essas leituras sucessivas devem 
possibilitar a diviso do materia] em seus elementos componentes, sem contudo perder de vista a relao desses elementos com todos os outros componentes. Outro ponto 
importante nesta etapa  a considerao tanto do contedo manifesto quanto do contedo latente do material.  preciso que a anlise no se restrinja ao que est 
explcito no material, mas procure ir mais a fundo, desvelando mensagens implcitas, dimenses contraditrias e temas sistematicamente "silenciados".

E possvel que, ao fazer essas leituras sucessivas, o pesquisador utilize alguma forma de codificao, isto , uma classificao dos dados de acordo com as categorias 
tericas iniciais [citadas no incio deste livro] ou segundo conceitos emergentes. Nessa tarefa ele [rio caso, os grupos] pode usar nmeros, letras ou outras formas 
de anotaes que permitam reunir, numa outra etapa, componentes similares (1986: 48).

        Por exemplo, no decorrer dos exerccios de observar, ouvir e ler surgiram questes recorrentes. Vamos suor que a imagem ou perfil de bom professor tenha 
sido unia constante nos diversos materiais e por isso destacada (sublinhada a lpis ou grifada com letras ou nmeros e lateralmente nas folhas). Nesse caso,  oportuno 
destacar e reunir  parte todos os fragmentos encontrados a respeito da imagem do bom professor. Ler repetidas vezes o

exerccios e vivncias

material, agora recortado em funo de um subterra, permite aos sujeitos do exerccio criar a categoria inicial de bom professor na verso dos sujeitos visitados. 
Ao relacionar a categoria inicial com o restante do material ser possvel identificar outras categorias, que em nosso exemplo poderiam ser: rigor, pontualidade, 
empenho, autoridade etc. A categoria bom professor e as decorrentes dela, rigor, pontualidade, empenho, autoridade, devem ser, em outra etapa, problernatizadas.
        Problcmatizar significa dar uma forma de dvida ctegorias que foram identificadas pelos sujeitos do exerccio. O problema constitui a dvida que perpassa 
as concluses advindas com as categorias destacadas. Caso a categoria de bom professor vincule-se sempre  escola de temos atrs, isto ,  escola do passado,  
possvel concluir que as escolas do presente so piores do que as outras. Problelnatizar significa perguntar: isso  verdade? Pelo simples fato de aparecer na verso 
dos sujeitos visitados deve ser tomado como sinnimo de realidade? E, diante dessas indagaes, recorrer novamente ao material colhido no exerccio, reler aquilo 
que ficou fora do recorte e procurar fatos observados, narrados ou lidos que talvez contradigarn o contedo da categoria bom professor na escola do passado.
        Aps redigir todo esse exerccio de anlise - organizando-o, problematizando-o , os grupos de alunos que se tornaram os sujeitos do exerccio devem retomar 
o estudo dos captulos 5 e 6 deste livro, "Consideraes a respeito do mtodo" e "Mtodos em pesquisa empirica", para relacion-los com o contedo da redao do 
exerccio de anlise com alguma concepo presente nos captulos indicados. Feito isso, ser possvel localizar algurrr elemento terico que contribua na explicao 
das categorias iniciais e postas em dvida nesse outro momento do exerccio proposto.
        O conjunto desses procedimentos devem ser entendidos apenas como exerccios e vivncias. Sua maior caracterstica  a busca do aprimoramento de uma sensibilidade 
 pesquisa. No

147
pesquisa social e ao pedaggica

decorrer de sua realizao, talvez surjam novas perguntas a respeito das diversas questes que esses exerccios permitiram abordar. fiais indagaes so as mais
importantes, pois a partir delas  que, nascer um projeto de pesquisa.

Para refletir

Exerccios e vivncias so momentos a ser previamente preparados. Sua utilizo sem um maior cuidado induz a erros e ao sentimento de descredito por parte daquele 
que se inicia em atividades cientficas. O texto a seguir aponta para problemas que podem ser evitados no mornent5 denominado trabalho de campo, isto , dos exerccios 
da coleta de dados propostos neste captulo.
Em primeiro lugar, devemos buscar uma aproximao com as pessoas da rea selecionada para o estudo. Essa aproximao pode ser facilitada atravs do conhecimento
daquelas pessoas que mantm laos de intercmbio com os sujeitos a serem estudados. De preferncia, deve ser uma aproximao gradual, onde cada dia de trabalho
seja refletido e avaliado, com base nos objetivos preestabelecidos.  fundamental consolidarmos uma relao de respeito efetivo pelas pessoas e pelas suas manifestaes
no interior da comunidade pesquisada.
Em segundo lugar, destacamos como importante a apresentao da proposta de estudo aos grupos envolvidos. Trata-se de estabelecermos uma situao de troca. Os grupos
devem ser esclarecidos sobre aquilo que pretendemos investigar e as possveis repercusses favorveis advindas do processo investigativo. F preciso termos em r~iente
que a busca das informaes que pretendemos obter est nzscrida num jogo cooperativo, onde cada momento  uma con9luista baseada no dilogo e que foge  obrigatoriedade. 
Com isso, qlueremos afirmar que os grupos envolvidos no so obrigados a cima colaborao sob presso. Se o procedimento se d dentro dessa forma, trata-se de uni 
processo de coero que no permite a realiizao de uma efetiva investigao.

(NETO, Otvio Cruz. O trabalho de campo como descoberta e criao, in IN-AY0 Maria Ceclia de Souza. Pesquisa social: teoria, mtodo e
criatividade. Petrpolis: Vozes, 18 ed., 2002, p. 55.)
Captulo 8

A elaborao do projeto de pesquisa

        Neste captulo apresentamos as etapas que delimitam a organizao escrita de projetos cie pesquisa em nvel de iniciado ~ent fica. As discusses e prticas
realizadas a partir dos conte1c7~ do captulo anterior constituem pr-requisito ao dcsenvolviocnto da atividade agora proposta. A redao do projeto reducr, ,intccipadamente>
uma aproximao mnima com realidades empricas. `rale notar tambm que no lia regras a definir de modo_milateral os contedos e o mtodo a ser utilizado cm determinado 
projeto de pesquisa'. C) que apresentamos a seguir, portanto, so indicaes possveis da redao de etapas dessa qualidade de proposta.
        Um projeto de pesquisa inicia-se pela formulao do problema e pela indicao da pergunta a ser respondida pela investiga-
o. Para aprofundar as discusses a respeito do processo de elaborao
da pesquisa, ver BIANCHETTI, L., MACHADO, A. M. N. (orgs.). A bssola do es-
crever:  estratgias e desafios na orientao de teses e dissertaes.
Florianpolis: Editora da LFSC, 2002



149
pesquisa social e ao pedaggica

Antes de sua redao,  importante ter claro um tema capaz de sugerir um
problema, algo que inquiete o redator do projeto. Podemos afirmar que a proposio
da pesquisa comea no plano da subjetividade do pesquisador:  preciso mobilizar sensaes, emoes, crenas c imaginao diante do possvel tema de pesquisa. O
que orienta a formulao da pergunta de pesquisa  a percepo dos elementos contidos em determinado tema
e que instigam o pesquisador.  preciso identificar os
elos de ligao do pesquisador com a escolha de determinado tema e no de outro: o que lhe chama a ateno, o que o inquieta, o que desperta sua curiosidade. Faz-se
necessrio, portanto, que o pesquisador "olhe para dentro de s" e localize os elementos subjetivos que o levam  construo do tema de pesquisa como um problema,
como uma pergunta. Ao realizar isso, o pesquisador dar o primeiro passo em direo  formulao de seu projeto de pesquisa.
        Um exemplo: as consideraes reproduzidas a seguir foram escritas pelo eminente socilogo e pesquisador Jos de Souza Martins. Perceba corno, na introduo
de um relatrio de pesquisa, este autor narra de modo significativo as questes de sua subjetividade, que o levaram a problematizar determinado tema de pesquisa:

Ainda adolescente, com 17 anos, fui testemunha de um inslito acontecimento na fbrica cm que trabalhava, em So Cactario do Sul, no subrbio da cidade de So Paulo:
o aparecimento

do demnio para

        vrias operrias de uma nova seo onde se

fama a escolha, classificao e encaixotamento de ladrilhos na Cermica So Caetano S. A. Durante vrios e sucessivos dias, no ano de 1956, h 37 anos (o Relatrio
data de 1993, portanto, diversas operrias desmaiaram ao longo da jornada de trabalho. Socorridas, quando voltavam a si alegavam ter visto o demnio a espreit-las
de um canto do imenso salo em que trabalhavam. As vises terminaram quando a direo da empresa decidiu chamar o sacerdote da parquia para celebrar uma missa e
benzer as novas instalaes da fbrica.

a elaborao do projeto de pesquisa

Sempre tive presente na memria esse acontecimento. Depois que me tornei socilogo e professor da Universidade de So Paulo, pensei em registrar o que havia testemunhado
e fazer um pequeno estudo sobre aquela ocorrncia. Justamente a sua raridade permite um melhor conhecimento do que  o trabalho c a experincia do trabalho na concepo
do prprio trabalhador. Meu intuito  o de produzir um documento para a histria das relaes de trabalho no Brasil e uma contribuio ao estudo das particularidades
da vida cot idiana na fbrica. O acontecimento a que me refiro pode ser metodologicamente examinado como revelador e analisador de certas caractersticas do processo
de trabalho em crise (Martins, 1994: 1).

        O fragmento posto em destaque  parte da Introduo da pesquisa `A apario do demnio na fbrica, no meio da produo", publicada na revista Temo Social
(5 [1-2], 1-29, 1994, So Paulo, Universidade de So Paulo). O estudo discute as relaes do modo de produo capitalista na tenso contraditria do tradicional
com o moderno, a partir das representaes de sujeitos envolvidos com um caso do cotidiano fabril. Diante do objetivo deste captulo,  significativo reter o exemplo
do modo como experincias pessoais e partilhadas na vida do pesquisador Jos de Souza Martins o levaram  problematizao de um tema capaz de engendrar uma pesquisa.
Esse exemplo refora a idia defendida de organizao da redao de um projeto de pesquisa, em que se destaca a importncia de pensar como a dimenso da subjetividade
- nascida nas experincias da vida cotidiana do pesquisador a partir do "olhar para dentro de si"  o ponto de partida que possibilita localizar um problema e fazer
uma pergunta cuja soluo requer a realizao de pesquisa.

        A partir do exemplo citado,  possvel determinar, ento, o primeiro passo na organizao e redao de um projeto: a problematizao do tema de pesquisa.
Segundo Bachelard,
pesquisa social e ao pedaggica

O esprito cientfico probe que tenhamos uma opinio sobre questes que no compreendemos, sobre questes que no sabemos formular com clareza. Em primeiro lugar,
 preciso saber formular problemas. E, digam o que disserem, na vida cientfica os problemas no se formulam de modo espontneo.  justamente esse sentido de problema
que caracteriza o verdadeiro esprito cientfico. Para o esprito cientfico, todo conhecimento  resposta a uma pergunta. Se no h pergunta, no pode haver conhecimento
cientfico. Nada  evidente. Nada  gratuito. Tudo  construdo (1996: 18).

        Da a redao do projeto de pesquisa pressupor experincias e vivncias anteriores: contato com textos cientficos, com teorias e mtodos da pesquisa emprica,
com certa prtica na coleta de dados o "ouvir, observar e ler". Na posse de tais pr-requisitos,  possvel ao redator do projeto de pesquisa realizar uma espcie
de "inventrio de aspectos de sua subjetividade", capazes de lev-lo  formulao de um problema, de urna pergunta.
Escrever sobre o modo como o pesquisador chegou
ao problema/ pergunta a respeito de determinado tema constitui o momento da hiptese de pesquisa -  por ela que um projeto comea a constituir-se.
        No exemplo do estudo realizado por Jos de Souza Martins, a hiptese de pesquisa consistia em responder ao seguinte problema: para algumas operrias da Cermica
So Caetano, os conflitos que experimentavam na esfera do trabalho apareciam na representao tradicional do mal, na figura do demnio. Tal representao  tpica
das sociedades agrrias e tradicionais. Como, ento, explicar que essa representao aparecesse em espao moderno e urbano? Ou, rias palavras do prprio autor: "Por
que os operrios da moderna indstria esto sujeitos  invocao do imaginrio arcaico para compreender as mudanas tecnolgicas na produo? (1993: 1). Tal hiptese
traduz a possibilidade de a

a elaborao do projeto dei pesquisa

moderna produo capitalista poder realizar-se mantendo aspectos da sociabilidade pr-capitalista. Til fenmeno, aparentemente uma contradio, requer estudos empricos
que ajudem a revelar a estrutura capitalista brasileira: "medir" como os valores modernos podem aparecer permeados pelos tradicionais. O estudo desse problema contribui
para a compreenso de aspectos do desenvolvimento capitalista brasileiro em contraposio  histria do capitalismo em pases do prirmeiro mundo, como a Inglaterra,
por exemplo.
        Ultrapassando as questes propostas nesse exemplo, o segundo momento da elaborao do projeto  a tentativa de viabilizar a hiptese, isto , a grande 
pergunta
de pesquisa conduz o investigador social ao recorte d realidade: quais os possveis sujeitos investigados? Onde localiz-los? Como contat-los? De outro lado, e
ainda tendo em mente o problema/pergunta que o investigador est abordando, quais os documentos que oferecem uma soma de dados significativa? Como obt-los? Em outras
palavras, uma vez pensada e redigida a hiptese, sua viabilizao ocorre por meio da reflexo e da redao de aspectos que compem o item metodologia:

a) decidir a respeito da melhor estratgia para a coleta de dados (documentos, depoimentos, enquete, histria de vida...) e sua devida justificativa;
b) definir os sujeitos a serem investigados e em que nmero; como localiz-los e contat-los;
c) determinar o tipo de informao que se deseja obter com a coleta de dados e relacion-la aos interesses delimitados pela hiptese de pesquisa.
        Retomando, agora, o exemplo da pesquisa realizada por Jos de Souza Martins, a metodologia que o permitiu responder a sua hiptese consistiu em localizar
pessoas que presenciaram o caso e em coletar seus depoimentos:

Entrevistei demoradamente dois engenheiros diretamente
envolvidos nos acontecimentos, o antigo chefe da seo do pes
soal, o antigo mestre da seo de ladrilhos e o padre que foi
pesquisa social e ao pedaggica

chamado para celebrar a missa e benzer as novas sees e as operrias (1993: 2).

        O pesquisador apontou que foi impossvel localizar as operrias que presenciaram o acontecido:

Fiz tentativas infrutferas de localizar, nos bairros vizinhos  fbrica, antigas operrias que tivessem testemunhado as conseqncias do aparecimento do demnio. 
Esses bairros sofreram muitas transformaes desde aquela poca, afetados pelas migraes que tm marcado a regio industrial do ABC paulista. Isso talvez explique 
essa dificuldade (1993: 23).

        Apesar dessa dificuldade, o pesquisador conseguiu realizar sua pesquisa, pois, alm dos cinco depoimentos que coletou, pde recorrer  sua memria - uma 
vez que tambm era funcionrio da empresa na poca dos acontecimentos analisados. Pensar aspectos metodolgicos e redigi-los considera as potencialidades reais do 
proponente do projeto. Em outras palavras, deve-se superar a tentao do exagero: evitar a utilizao simultnea de vrias estratgias de coleta de dados, isto , 
devcse indicar uma, no mais. Torna-se mesmo impraticvel trabalhar com depoimentos, enquetes e histrias de vida simultaneamente. Quanto ao nmero de pessoas que 
podem compor a amostra dos sujeitos investigados, deve-se definir primeiro as condies reais de pesquisa: caso se opte por depoimentos coletados pelo uso do gravador 
sonoro,  importante considerar que duas horas de gravao correspondem, em mdia, a oito horas de trabalho para a transcrio das fitas. Da que o nmero de depoentes
varia no s em funo da hiptese de pesquisa, mas, sobretudo, da disponibilidade do tempo e dos prazos para a realizao da pesquisa. Tais procedimentos foram 
considerados por Jos de Souza Martins no exemplo citado. Tambm vale ponderar: quais as possibilidades reais de localizar os sujeitos pes-

a elaborao do projeto de pesquisa

quisados? Deve-se evitar a pesquisa em que, por exemplo, as relaes entre escolarizao e dependncia qumica sero construdas a partir das representaes de narcotraficantes. 
Como localiz-los? Alm disso, o pesquisador no iria colocarem risco sua vida? Todas essas questes devem ser consideradas antes da redao definitiva do projeto
de pesquisa.
        Uma vez que o proponente do projeto tenha o esboo da hiptese de pesquisa, as indicaes metodolgicas da coleta de dados, os possveis sujeitos a serem
pesquisados e os meios para atingi-los, torna-se imperativo justificar as opes escolhidas, como j nos lembrou Bachelard: em pesquisa cientfica "nada  evidente,
nada  gratuito; tudo  construdo". Assim, a redao da justi ficatva traduz as razes que levaram o proponente do projeto a escolher um tema de pesquisa c no
outro, a adotar uma metodologia c no outra, a responder a algumas questes e no a outras. Tudo deve ser redigido por meio de argumentos que retratem a qualidade
daquilo que  proposto.
        Uma justificativa tambm deve apresentar o que o proponente do projeto j conhece a respeito do tema de sua investigao. Caso o tema seja a avaliao escolar
no cotidiano de uma sala de aula da Escola Municipal Alfa, digamos, o redator do projeto de pesquisa deve ter conscincia de que sua investigao no comear da
"estaca zero". Em outras palavras, o que o proponente do projeto j estudou acerca da avaliao escolar? Que outras pesquisas leu a respeito do assunto em questo? 
Assim, a justificativa tambm  o espao do registro c do comentrio a respeito das leituras j realizadas acerca do tema a ser pesquisado.
        At o momento, percebemos que um projeto de pesquisa  elaborado pressupondo alguns momentos especficos, mas articulados entre si:
        1) Elaborao da hiptese e de seus objetivos
        2) Definio da metodologia
        3) Justificativa da pesquisa
pesquisa social e ao pedaggica

        Por outro lado, esse caminho do "projetar" um projeto e de sua primeira redao no se constituem em sua forma final, que obedece a outro critrio de organizao:
        1) Tema: Em uma ou duas frases citar o tema da proposta de
        pesquisa. Espera-se clareza e uma definio objetiva, isto ,
que no seja ambgua.
2) INTRODUo. Escrever entre quatro e oito pginas de um rpido balano de outras pesquisas que abordam tema semelhan-

te.  oportuno citar e definir alguns conceitos que ajudem na compreenso do tema da pesquisa. Alm disso, elaborar um rpido comentrio de algum ou de alguns autores
que considera importantes na orientao terica do terna - so os as-
pectos da escolha do mtodo de conhcimento (rever acima, captulo 3).

3) HIPTESE E, OBJETIVOS DA PESQUISA. Em dois ou trs pargrafos,

apresentar ao leitor o problema/pergunta de pesquisa. E o mais

importante do projeto e, tambm, o mais difcil e criativo da etapa de formalizao. Na preparao da redao deste item, talvez - no  determinante - surjam hipteses 
secundrias e decorrentes da principal: cit-las. Aqui  indicada a grande pergunta/questo que justifica a realizao da pesquisa.
4) JUSTIFICATIVA. Entre quatro e oito pginas, apresentar o modo como se chegou  elaborao da hiptese; escrever sobre seus possveis desdobramentos. Nesse momento
 importante esclarecer facetas daquilo que se ir pesquisar, por isso  oportuno retomar alguns aspectos expostos na introduo e aprofund-los em relao  hiptese.
Aqui deve-se deixar claro e com detalhes o que se pretende investigar. Em algum
momento da redao desse item deve-se esclarecer os fatos que justificam a realizao
do proposto, portanto indicar a importncia do tema e da hiptese.

5- METODOLOGIA. Redigir entre quatro e oito pginas de um texto que discuta o mtodo da pesquisa emprica que orienta

a elaborao do projeto de pesquisa

a proposta. Indicar o -universo de pesquisa sobre o qual incide a amostra da proposta, justificando-o. Indicar e justificar tambm as estratgias para a coleta de
dados.
6) CRONOGRAMA. Elaborar um quadro em que se cruzam informaes a respeito de cada etapa da futura realizao da pesquisa: em linha horizontal deve ficar a indicao
dos itens abaixo, separados por colunas; em linha vertical, os meses, subdivididos em semanas, tambm separados por colunas. O cruzamento de cada coluna  grifado
de acordo com a necessidade de realizar a atividade indicada. Deve constar do cronograma o tempo da realizao de cada etapa a seguir:
a) as leituras de aprofundamento das referncias tericas;
b) os contatos com o campo emprico e o tempo de permanncia nele;
c) momentos de cada etapa da coleta de dados;
d) perodos da observao participante, quando for o caso;
e) momentos da transcrio de fitas cassete, quando for o caso;
f) momentos da organizao dos documentos, quando for o caso;
g) momentos da anlise do material coletado;
h) fase da reduo da monografia.

7) BIBLIOGRAFIA. No se trata de indicar a bibliografia a ser utilizada no transcorrer da pesquisa. Destacar apenas as referncias bibliogrficas utilizadas e citadas
na elaborao do projeto de pesquisa. Evitar indicar textos sobre os quais no trabalhou ao longo da elaborao do projeto.

        As sete etapas citadas configuram um projeto de pesquisa. Existem outras possibilidades na organizao dessas etapas: algumas podem ser suprimidas, outras 
acrescentadas. O que se apresenta  um caminho possvel entre outros. O mais importante na escolha e redao das partes que compem um projeto de pesquisa  seu 
significado. A respeito desse ltimo aspecto, uma imagem potica traduz o sentido ltimo dessas etapas: a metfora da cartografia. Um grande poeta a escreveu:
pesquisa social e ao pedaggica

MUSEU

Do rigor na cincia

[...~ Naquele Imprio, a Arte de Cartografia logrou tal Perfeio que o mapa de uma nica provncia ocupava toda uma cidade, e o mapa do Imprio, toda uma Provncia. 
Com o tempo, esses Mapas Desmedidos no satisfizeram e os colgios de Cartgrafos levaram um Mapa do lmprio, que tinha o tamanho do Imprio e coincidia pontualmente 
com ele. Menos Adictas ao Estudo da Cartografia, as Geraes Seguintes entenderam que esse dilatado Mapa era Intil e no sem impiedade o entregaram s inclemncias 
do Sol e dos Invernos. Nos desertos do Oeste perduram desaparecidas Runas do Mapa, habitados por Animais c por Mendigos; em todo o Pas no h outra relquia das 
disciplinas Geogrficas (BORGES, Jorge Luiz. O fazedor. So Paulo: Difel, 1985).

        O que aproveitamos desse ensinamento potico diz respeito  metfora do projeto de pesquisa como um mapa. Os mapas so teis por representar regies, localizaes 
e signos grficos que nos orientam em uma viagem.  possvel, antes mesmo de a viagem realizar-se, "projetar" os caminhos a serem trilhados, os locais de repouso, 
os espaos a serem visitados e adequar distncias s nossas possibilidades de locomoo. De outro lado e por melhor que seja, um mapa nunca se confunde com o espao 
geogrfico a ser vencido pela viagem: o mapa  sempre uma representao do real e como tal deve ser entendido. O que ocorria quando "um Mapa do Imprio [...] tinha 
o tamanho do Imprio e coincidia pontualmente com ele"? Ou quando o real coincidia com a sua representao? O "[...] dilatado Mapa era Intil! "-a coincidncia da 
representao com o real tornava-a intil.
        Um projeto de pesquisa  como um mapa: ajuda-nos a antecipar as aes ou prticas que permitem representar cientificamente dada realidade ou dado fenmeno. 
A realidade  sempre

158

a elaborao do projeto de pesquisa

mais complexa que qualquer tentativa de sua compreenso, da que toda cincia  um esforo de "apanhar pedaos" dessa realidade, de acordo com uma representao 
provinda do mtodo do conhecimento escolhido para tanto. O projeto de pesquisa insere-se nesse contexto ao possibilitar o mapeainento dessa ao intelectual e a 
representao do fenmeno de acordo com os fundamentos de uma cincia.

        Elaborar um projeto de pesquisa  semelhante a elaborar um mapa. H regras para faz-lo. As etapas indicadas neste ca-

ptulo fazem parte dessas regras, que, somadas aos contedos dos captulos precedentes, podem contribuir para essa tarefa. Portanto, ao elaborar um projeto, corremos 
os mais variados riscos, e o maior deles  a tentao de ser perfeccionistas a ponto de desejar um mapa to exato que tenha o "tamanho" da pes-

quisa a ser realizada. Nesse caso, a pesquisa seria dispensvel, pois o projeto j conteria tudo. E preciso considerar que a "viagem" propiciada pela realizao 
da pesquisa contempla o Im-

previsto: do inesino modo que uma tempestade pode desviarnos do caminho traado previamente, o momento da coleta de dados e a interao do pesquisador coro os sujeitos 
investigados podem indicar novas direes para a pesquisa. Existem casos

em que h a possibilidade de redefinio da hiptese de pesquisa em virtude das descobertas imprevistas ao longo do tempo ein que um projeto  posto em prtica. 
Assim, o projeto de pesquisa  um meio de orientao da ao a ser refeita ein cada momento do labor cientfico.

Para refletir

A elaborao e a redao de um projeto de pesquisa requer urna preparao fundamentada em teorias e mtodos do conhecimento, o domnio a respeito dos mtodos de 
pesquisa emprica e, mesmo, uma vivncia preliminar na coleta de dados. O texto a seguir  uma contribuio  definio do ato de projetar uma pesquisa.
pesquisa social e ao pedaggica

A palavra projeto costtuma ser associada ao trabalho do arquiteto ou do engenheiro quarnto aos trabalhos acadmicos ou aos planos de ao educacional, lpoltica 
ou econmica. Em todos os casos, dois so os ingredienties fundamentais serra os quais no se pode ter seno unia plida idia do significado de tal palavra: futuro 
(antecipao) e abertura (no-determinao). Como esboo, desenho, guia da imaginao ou somente da ao, um projeto significa sempre uma antecipao, uma referncia 
ao futuro. Distingue-se, no entanto, de uma prreviso, uma prospectiva ou unia conjectura, que so, muitas vezes, ~efetivamcnte, representaes antecipadoras, mas 
que no dizem respeito, de modo algum, a um futuro a realizar, anunciando simplesmente acontecimentos susceptveis de oorrer, ou uma previso sobre evolues possveis 
do real passveis de serem consideradas na elaborao das estratgias dos autores, mas que no se constituem necessariamente em realizaes dos rncsrnos. Etimologicamente, 
a palavra projeto deriva do latim projectus, particpio passado de proj'eere, algo como um jato lanado para frente; relacionando-se diretnlente com outras palavras 
igualmente fecundas, como sujeto; derivada de subjectus/subjcere (lanado de dentro, debaixo), ou objeto, de objectum/objcere (lanado diante, exposto), ou ainda, 
trjeto, de trajectus/trajectare (passagem atravs de). Todas tm um significado relativamente ambguo, que talvez seja mais explcito em sujeto, que tanto designa 
o que  submetido  ao, quase equivalente a objeto, quanto o que submete, o que realiza ao; entretanto, tambm objeto pode nomear, igualmente, o caminho j percorrido 
ou o caminho a percorrer. No caso do projeto, a palavra designa igualmente tanto aquilo que  proposto realizar-se quanto o que ser feito para atingir tal meta. 
A relativa ambigidade do termo, antes de constituir-se em problema a ser superado, situa-se na raiz de tais noes, abrindo caminho para o estabelecimento de fecundas 
articulaes entre os elementos de pares sujeito/objeto, interier/exterior, forma/contedo, individual/social.

(MACHADO, Nilson Jos. Cidadania e educao. So Paulo: Escrituras, 1997, p. 63.)

Concluso

        Este livro tratou de aspectos introdutrios do fazer pesquisa, dispondo seu contedo aos pedagogos em formao, profissionais do ensino e a todos que possuem 
interesse pela educao. Para tanto, apresentou conceitos, mtodos e prticas a serem reelaborados pela prxis de seus leitores. Inicialmente, o esforo consistiu 
em mostrar que a pedagogia, mais do que outras cincias, constitui-se pelo dilogo com diferentes mtodos do conhecimento e da pesquisa, que, apesar de distintos, 
foram concebidos imbricados por contriburem na percepo de que a cincia se faz em sua articulao com a pesquisa.

        Vale destacar, apenas utiliza um mtodo em pesqu:sa crnprica o pesquisador que, primeiro, optou por um mtodo do conhecimento. Ter uma boa formao nesse 
campo  fundamental, pois fenmenos, fatos, objetos ou interaes sociais no so compreendidos em si mesmos.  preciso lidar com a realidade a partir de estilos 
de pensamento formados por conceitos e teorias que se originam em determinados contextos histriccs.
pesquisa social e ao pedaggica

        A prtica da pesquisa em educao, portanto, exige uma disciplina de estudo que apenas se obtm com mais e mais leituras, produes textuais e debates. No 
se faz uma investigao com a pura aplicao de uni mtodo em pesquisa emprica, mas quando essa aplicao  decorrncia de um longo e contnuo perodo de maturao 
intelectual a respeito dos mtodos do conhecimento em cincias humanas.
        Outro propsito foi sublinhar que a pesquisa  mais que um ato voltado para a produo de conhecimentos:  tambm uma atividade inseparvel do ato de educar. 
Todo resultado de pesquisa, quando socializado, modifica o pblico que tem acesso a ele. Essa modificao, alm de traduzir-se em mudanas do "ponto de vista" a 
respeito do real investigado, conduz a alteraes das prticas sociais diante desse real.
        Atitudes habituais, corno um simples lavar as mos, foram impensveis enquanto a humanidade no possua certo conhecimento acerca das bactrias. A ausncia 
do dilogo de adultos com crianas era predominante quando no sabamos de sua importncia na aquisio da linguagem e das representaes simblicas desde a mais 
tenra idade. Ou seja, a viso de mundo orientada pela cincia contm elementos que transformam-se em senso comum. Tal fato acentua ainda mais a responsabilidade 
tica de quem realiza pesquisas.

        Os pontos destacados aqui retomam o objetivo deste livro, o da formao cin pesquisa como algo inerente do fazer educao com vistas  transformao da vida 
social.
        Por fim e a seguir, a bibliografia indica textos teis e bsicos para a continuidade do estudo nas temticas aqui abordadas.

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